Os alimentos da moda, a moda das dietas e o futuro da alimentação

Há as semanas da moda, há a cor do ano e agora também há, todos os anos, as dez (ou vinte) tendências de comida. A alimentação assume cada vez maior importância, e, se para uns ainda é luta pela sobrevivência, para outros tornou-se estilo de vida, último grito da moda ou afirmação ecopolítica. Algures ficará o futuro (se existir futuro).

Texto Catarina Pires

Há dias, a Whole Foods Market, uma multinacional de produtos alimentares orgânicos e biológicos, lançou o seu top 10 de tendências para 2020. Agricultura regenerativa, cozinha africana ocidental, redefinição dos menus infantis, bebidas não alcoólicas, manteigas vegetais, farinhas vegetais, molhos vegetais, hambúrgueres vegetais, açúcares vegetais e snacks frios (também vegetais, claro). Todos os anos, centenas ou mais de artigos de jornais e revistas em todo o mundo ecoam as tendências ditadas pela Whole Foods para o ano seguinte.

Mas não é só. Outras grandes companhias do ramo alimentar promovem estudos, eventos e listas de tendências, celebridades dão a cara (e o corpo) por dietas infalíveis, influencers lançam novas modas de comida, médicos e nutricionistas escrevem livros e mantêm blogues sobre os (seus) últimos gritos em alimentação saudável, o que não falta são criadores de tendências alimentares.

Mas, atenção, não se trata de fake news, apenas de realçar as qualidades do produto que se quer promover. Não é necessariamente mau chamar-se a atenção para um alimento.”

O fenómeno não surpreende João Lacerda, nutricionista, acupuntor e especialista em medicina chinesa. “Há um mercado que procura a novidade e há necessidade de lançar ou relançar produtos. É sobretudo marketing. Aconteceu com a sardinha e a cavala como aconteceu com as bagas góji ou o abacate. Mas, atenção, não se trata de fake news, apenas de realçar as qualidades do produto que se quer promover. Não é necessariamente mau chamar-se a atenção para um alimento.”

Alexandra Bento, bastonária da Ordem dos Nutricionistas, concorda que a maioria das modas alimentares são ditadas por interesses económicos, mas concede que algumas até têm interesse do ponto vista da saúde. “Algumas vêm para ficar e são interessantes, outras era bom que desaparecessem. O kiwi é um exemplo de uma moda boa que veio para ficar, e ainda bem, assim como a de beber água e trazer sempre uma garrafa connosco. Agora, todas as que defendem a exclusão de alimentos saudáveis, alegando que são prejudiciais, são negativas. É o caso do glúten, que só deve ser excluído da alimentação de quem tem doença celíaca ou é alérgico ou intolerante, ou o do leite, que é um alimento interessante, se for consumido moderadamente.”

“O fundamental é mudar hábitos, criar hábitos saudáveis, comer tudo com moderação e dar mais informação às pessoas.”

Tanto para João Lacerda como para Alexandra Bento, a chave para que a alimentação saudável se torne uma tendência é a educação, a literacia e o conhecimento. “Uma população mais informada fará escolhas mais saudáveis para a sua alimentação e não irá atrás das tendências do momento”, diz a bastonária da Ordem dos Nutricionistas, secundada pelo colega, que deposita grandes esperanças nas novas gerações: “O fundamental é mudar hábitos, criar hábitos saudáveis, comer tudo com moderação e dar mais informação às pessoas. Tenho muita esperança na geração dos nossos filhos, que já nascem preparados para a mudança. Hábitos saudáveis passam pela educação e pela prevenção. No futuro não devia ser preciso existirem nutricionistas.”

Por enquanto, ainda é, e muito, porque “desfazer mitos na alimentação é uma guerra”, diz João Lacerda, que destaca a importância da ética na prática clínica dos nutricionistas, o que, na sua opinião, nem sempre é a regra.

As dietas da moda podem prejudicar gravemente a sua saúde

Talvez não fosse má ideia um disclaimer – um aviso – como nos maços de tabaco. Quem anda sempre à procura da última dieta da moda sabe os nomes de cor. A do jejum intermitente, a líquida, a cetogénica (ou keto) ou a paleolítica são algumas das mais famosas. Há uma profusão delas, inspiram livros de receitas e não só, têm celebridades a dar-lhes projeção mediática e muitas vezes, vezes de mais, são seguidas sem qualquer acompanhamento clínico.

Para João Lacerda, as modas das dietas são mais complicadas para a saúde. “Não quer dizer que sejam más durante um tempo limitado, para casos em que sejam indicadas e com acompanhamento clínico, mas como estilo de vida ou regime alimentar regular comportam riscos. Por exemplo, a dieta cetogénica, que tem muita proteína e zero hidratos de carbono, tem impactos negativos na saúde se for feita durante muito tempo. As pessoas querem emagrecer depressa, querem resultados rápidos, mas o mais importante são os resultados a longo prazo, mas para os conseguir é preciso equilíbrio, mudança de comportamentos e o acompanhamento de um nutricionista imparcial.”

O que é um nutricionista imparcial? “É aquele que não está preso a dietas, programas de emagrecimento ou venda de suplementos. A falta de trabalho e o facto de muitas vezes este ser mal pago leva alguns a pôr a ética de lado. A ética clínica devia ser uma condicionante, mas nem sempre é e, por isso, por exemplo, dão-se cargas de suplementos a pessoas que não precisam deles. Não há problema de se associar a marcas, não se pode é perder o norte”, diz João Lacerda, que defende uma prática clínica integrativa, que tenha em conta o paciente que tem à frente.

O futuro à mesa

Quando pesquisamos sobre como será a alimentação do futuro, as dietas de emagrecimento parecem-nos de repente coisa do passado, old fashion. A grande preocupação agora está relacionada com a sustentabilidade do planeta. E esta passa por uma alteração de paradigma: novos hábitos alimentares, novos alimentos, novas tecnologias, novas formas de produção. Dos insetos à carne celular produzida em laboratório, da primazia dos vegetais ao regresso à agricultura regenerativa e responsável, passando por comida feita em impressoras tridimensionais, a mesa do futuro será decididamente diferente.

Vítor Espírito Santo, engenheiro biomédico português que coordena o departamento de agricultura celular da Just, uma startup americana do setor alimentar, está prestes a lançar no mercado a primeira carne celular produzida em laboratório. É de frango, parece-se com carne picada, numa primeira etapa apresentar-se-á sob a forma de nuggets e é feita a partir de uma amostra de células de músculo do frango, extraídas sem sofrimento animal, e produzida de forma sustentável.

Vítor Espírito Santo, engenheiro biomédico português que coordena o departamento de agricultura celular da empresa norte- -americana Just.

A data para o lançamento ainda não está definida, mas está para breve e terá como destino um país asiático. Não estará à venda, por enquanto, em supermercados (teremos de esperar uns anos até isso acontecer), mas apenas em restaurantes com estrela Michelin. Além do frango, está a ser desenvolvida carne de vaca, e talvez para o ano já exista um protótipo.

Para Vítor Espírito Santo este é um passo importante (revolucionário, dizemos nós) para criar uma alternativa limpa, sustentável e mais saudável de produção alimentar de carne. “É uma alternativa gradual que significará sem dúvida uma mudança de paradigma. O objetivo é que a carne cultivada venha a ser prevalente nos supermercados e não exista necessidade de produção industrial.”

Para os vegetarianos, poderá ser uma opção se as razões que os levaram a adotar esse regime alimentar se relacionarem com o sacrifício animal e a sustentabilidade ambiental, porque, explica o cientista, “a nossa metodologia não envolve nenhum destes aspetos”. “Mas”, ressalva, “é carne real, feita de células animais e não de origem vegetal. O público-alvo é quem quer consumir proteína animal de forma responsável”. Quanto a efeitos secundários, Vítor Espírito Santo diz que são os mesmos da carne convencional, mas sem os antibióticos e as hormonas. “Sabe-se que o consumo de carne deve ser moderado para uma alimentação saudável. Isso aplica-se tanto à carne celular como à convencional.”

Os malefícios, tornados cada vez mais evidentes, do excesso de consumo de carne para a saúde e para o planeta têm levado a um crescimento, em Portugal e em todo o mundo, de vegetarianos, assim como da oferta de produtos disponíveis no mercado. A nutricionista Sandra Gomes Silva, autora do blogue ovegetariano.pt, acredita que esta opção alimentar estará na base da alimentação do futuro.

“Quer por motivos éticos, de saúde ou ambientais, as dietas de base vegetal, como as vegetarianas, serão cada vez mais comuns em todo o mundo. Sabemos que os nossos padrões de consumo alimentar atuais não são sustentáveis para o planeta e uma mudança é urgente. A Comissão EAT-Lancet lançou, no início do ano, recomendações para uma dieta saudável e sustentável. É urgente reduzir em mais de 50% o consumo de alimentos pouco saudáveis, como a carne vermelha e o açúcar, e aumentar em mais de 100% o consumo de alimentos saudáveis, como os frutos gordos, fruta, hortícolas e leguminosas. Pequenos aumentos no consumo de carnes vermelhas ou de produtos lácteos podem levar a que seja difícil ou impossível de atingir este objetivo”, diz.

A nutricionista Magda Roma, também vegetariana, aconselha, a quem quer iniciar uma dieta vegetariana, que faça análises antes “para saber o estado nutricional em que se encontra e seja acompanhado inicialmente por um profissional de saúde da área da alimentação capacitado para realizar um plano alimentar vegetariano”.

Para a nutricionista “seria excelente consumirmos 100% de alimentos de base vegetal, mas se reduzirmos o consumo de alimentos de origem animal para 10 a 20% por dia já será um passo importante para o bem da saúde global”.

Os insetos são outra das alternativas que se perfilam para dar resposta à escassez alimentar que, a continuarmos como até aqui, a FAO prevê para 2050, com o crescimento da população mundial e o esgotamento de recursos.

O nutricionista João Lacerda, que advoga que a sustentabilidade do planeta assim como a saúde das pessoas dependem sobretudo da regulação, da responsabilidade e da mudança das formas de produção das grandes empresas do setor alimentar, vê nos insetos uma solução sustentável e barata em relação a proteína. “Quarenta por cento do mundo já come insetos, é uma produção muito rentável e ao mesmo tempo sustentável do ponto de vista ambiental, por isso é uma excelente alternativa. E sabem a frutos secos. Trata-se de resolver a questão do preconceito.”

Para a bastonária da Ordem dos Nutricionistas, todas as soluções que sejam saudáveis e tenham em consideração a sustentabilidade ambiental são positivas. “Temos de andar com os tempos.