ASMR: que sussurros são estes que nos põem a dormir?

Chama-se Resposta Sensorial Autónoma do Meridiano (ASMR na versão abreviada), é a nova moda no YouTube e já foi descrita como um orgasmo acústico que nos ajuda a relaxar e a dormir melhor. Vale tudo menos rendermo-nos ao stress.

Texto de Ana Pago | Fotografias da Shutterstock

Ao ver o marido a apagar-se ao seu lado, de olhos pesados, auscultadores nos ouvidos, Isabel Palma achou que estaria a ouvir o jazz de sempre, a que recorre quando o sono não chega. “Achei um pouco estranho aquele transe, porque o Pedro é das pessoas com pior dormir no universo inteiro. Mas na altura nem liguei por aí além”, conta a animadora, resignada às noites em que nenhum dos dois descansa como deve ser.

Até que a cena se repetiu uma segunda vez, de olhos pesados e auscultadores nos ouvidos de novo. “E ainda uma terceira em que o Pedro não andou às voltas e não me deu safanões”, ri-se Isabel, que nesse dia tirou os headphones ao marido para resolver o mistério. “Nem queria acreditar nas raspadelas que ele estava para ali a ouvir, só me deu vontade de rir”, recorda. E foi para a internet tentar saber o que é afinal a ASMR – a sigla inglesa para Resposta Sensorial Autónoma do Meridiano.

Trata-se de uma resposta automática do cérebro diante de estímulos auditivos como tons de voz, sussurros ao ouvido, unhas a raspar e outros.

“Trata-se de uma resposta automática do cérebro diante de certos estímulos auditivos – tons de voz, sussurros ao ouvido, unhas a raspar –, que em algumas pessoas gera uma reação psicossomática específica de relaxamento”, explica Daniel Cardoso, doutor em Ciências da Comunicação na vertente de Cultura Contemporânea e Novas Tecnologias. Nem é um fenómeno particularmente complexo ou difícil de explicar: “Causa estranheza sobretudo por ser ainda muito recente”, diz.

E a verdade é que estes sons têm, de facto, um efeito calmante, até mesmo de prazer, confirma Filipa Jardim da Silva: “Há ali uma sensação de pele de galinha ou formigueiro, completamente involuntária, que começa na parte de trás do pescoço, percorre a cabeça e desce depois pela coluna”, descreve a psicóloga clínica, familiarizada com este novo fenómeno que já gerou milhões de vídeos e visualizações no YouTube, e continua a somar adesões.

Sons de baixa frequência como arranhar o microfone ajudam a repousar o cérebro.

De resto, foi apenas em 2015 que os especialistas em neurociência cognitiva Emma Barratt e Nick Davis, então investigadores da Universidade de Swansea, Reino Unido, estudaram pela primeira vez a ASMR. “Queríamos perceber se toda a gente a experienciava da mesma maneira e era estimulada pelos mesmos tipos de coisas”, explicou Davis ao The Guardian, adiantando que os resultados, numa amostra de 500 inquiridos, sugerem que a maioria a procura para relaxar e mais de dois terços para dormir melhor.

A ASMR cria gatilhos sonoros para dar ao cérebro estímulos que funcionam como uma massagem.

Segundo Filipa Jardim da Silva, outras estimulações sensoriais capazes de nos despertar emoções idênticas seriam cócegas suaves no corpo ou festinhas na cabeça (tato), a reação a um dado perfume (olfato) ou ainda a observação de movimentos rotineiros indutores de uma espécie de transe (visão). Na ASMR, o que se faz é criar gatilhos intencionais a partir de sons como arranhar veludo, fazer tatuagens, secar o cabelo, bater com as unhas em diferentes superfícies, murmurar, amarrotar papel e tantos outros, de modo a fornecer ao cérebro estímulos subtis, de baixa frequência, que funcionam como uma massagem.

“Todos estes impulsos desencadeadores de tranquilidade podem servir como estratégia de descompressão ao longo do dia e proporcionar um sono de maior qualidade à noite, ao ajudarem a reduzir a tensão física, desacelerar o ritmo cardíaco e regular os níveis de ansiedade”, sublinha a psicóloga clínica. Se já tanta gente adormece a ler na cama, virando páginas de livros, porque não recorrer à ASMR? “Este fenómeno em expansão só vem colocar os estímulos à distância de um ecrã, acessível em qualquer contexto e a todo o momento”, diz.

Se as pessoas relaxam, independentemente de não saberem como ou porquê, os resultados são positivos.

Para o especialista em novas tecnologias Daniel Cardoso, nem sequer faz grande diferença que a ciência não tenha validado os benefícios até à data. “Se as pessoas relaxam, independentemente de não saberem como ou porquê, os resultados valem por si”, defende o docente. É um pouco como o efeito placebo, em que a convicção de que o corpo está a ser medicado basta para um alívio concreto dos sintomas: “Mesmo que se sintam mais calmas só por acreditarem que o vão ficar, no final acalmam mesmo, o que é bom”, conclui.

E porque, no fundo, tudo isto se resume a encontrar estratégias de descanso, deixamos-lhe na fotogaleria cinco dicas simples de como preparar o corpo para dormir.