Asneiras, gestos obscenos, apitadelas: assim somos nós a conduzir

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Hoje é Dia Mundial do Trânsito e da Cortesia ao Volante mas nós, portugueses, continuamos a ser tudo menos corteses na condução. Há os provocadores por natureza, os que se tornam agressivos em situações pontuais de maior stress, os que se sentem provocados e reagem. E não, o facto de haver muita gente a fazer o mesmo não significa que devêssemos.

Texto de Ana Pago

Aconteceu na A2 depois da Área de Serviço de Palmela, em agosto do ano passado, no carro com a irmã rumo ao Algarve. “Tínhamos saído de uma fila do cacete, a estrada finalmente livre para andar, e um parvalhão cola-se a nós sem bater, mas sempre ali a ameaçar”, conta Inês Costa, ainda hoje furiosa só de pensar naquela condução. Acelerou para garantir distância entre os automóveis e o de trás fez o mesmo, a rasar-lhes a traseira. Nova aceleração, nova tangente.

“Andámos quilómetros assim, eu já a voar e ele sem desviar um milímetro”, recorda a condutora. Se desacelerasse tinham-se desfeito os dois em pó ali mesmo, como os mosquitos esborrachados no vidro. Então viu-o a rir pelo retrovisor. Perdeu, ela própria, a cabeça: “Chamei-lhe os piores nomes aos gritos, a minha irmã ficou verde ao ouvir. Acho que se o apanhasse a jeito lhe tinha partido os vidros do carro, mais aqueles dentes de mentecapto convencido.”

Ao sentirmo-nos ameaçados, invadidos, humilhados, partimos para o contra-ataque. É uma atitude natural no ser humano e uma das razões por que alguém se lembrou de celebrar o Dia Mundial do Trânsito e da Cortesia ao Volante a 5 de maio, assinalado pela primeira vez em Portugal em 2005, a partir da experiência francesa. Logo nesse ano a Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados (ACA-M ) e a Estrada Viva – Liga Contra o Trauma estabeleciam os 15 mandamentos que asseguram que o civismo também se aplica ao volante – entre os quais um muito a propósito que diz que, em autoestrada, ou via rápida, não conduzirás encostado à traseira do carro que circula à tua frente.

“Metaforicamente, é muitas vezes uma selva que ativa o que há de mais básico e instintivo nas pessoas: os seus mecanismos de defesa”, diz o psiquiatra Vítor Cotovio, para quem muita gente, no trânsito, faz coisas que não faria noutro contexto.

“A velocidade e a aceleração são intrínsecas à maior parte das sociedades, ao mesmo tempo que há um sentimento de impunidade no meio rodoviário português”, justifica Mário Alves, presidente da Estrada Viva – uma rede informal de organizações que promove iniciativas de sensibilização e combate ao trauma rodoviário. Na cabeça da maioria, pelo que observa no dia-a-dia, desastres ainda são algo que só acontece aos outros, até nos baterem à porta de formas muitas vezes brutais, que nos viram a vida do avesso em segundos.

“Por outro lado, sabemos que a apetência pelo risco é uma variável que muda consoante o contexto cultural, a educação, a informação disponível, a empatia social e as características biológicas dos indivíduos – o género feminino, no geral, tem mais aversão a ele do que o masculino”, aponta o dirigente. E sim, acredita: é este conhecimento de como as coisas funcionam, juntamente com a regulação e a fiscalização, que nos vai permitir “proteger-nos de nós próprios e dos outros”.

Para o psicólogo clínico Vítor Rodrigues, qualquer medida que seja pela gentileza é de louvar, sobretudo tratando-se de um dia internacional em defesa do civismo que se traduz na segurança de condutores, passageiros e peões. “A provocação nunca pode ser uma opção fácil, mesmo sabendo que tanto o instinto de sobrevivência como o instinto agressivo e de proteção do território fazem parte da nossa base genética”, afirma.

Quando a isso se juntam emoções básicas como o medo, aversão, espanto, frustração, zanga ou dor, fica fácil andarmos por aí a buzinar descontroladamente, fazer gestos obscenos e assumir outros comportamentos nada educados na estrada: “As feras feridas são as mais perigosas”, frisa o psicólogo, conhecedor da natureza das coisas. Humanos feridos na sua autoestima não são muito diferentes, diz.

55% dos condutores insistem em mostrar aos outros que os estão a enervar, 35% gritam e mais de 30% buzinam.

É isso que explica que mais de metade dos condutores portugueses admitam dizer palavrões enquanto conduzem, com 14% a repeti-los frequente ou muito frequentemente e 26% a gesticularem de forma indecorosa contra quem os enerva, a avaliar por um estudo de 2017 levado a cabo pela Continental Pneus Portugal em parceria com o Instituto Português de Administração de Marketing (IPAM).

Com base nessa amostra de 1285 automobilistas entrevistados para se perceber quais as práticas mais comuns em situações de stress, 55% deles insistem em mostrar aos outros que lhe estão a fazer saltar a tampa, 35% gritam e mais de 30% buzinam. Já para não falar daqueles pilotos peculiares que nunca fazem piscas, circulam com os máximos ligados à noite, param os carros onde lhes apetece ou vão a falar ao telemóvel (pior: a mandar mensagens, e-mails e reações nas redes sociais).

De repente, é como se a estrada fosse uma extensão da nossa competição no trabalho e na vida pessoal.

“Vivemos em multitasking e nem reparamos que quanto mais mergulhamos neste modo de atenção dividida, mais a qualidade do nosso desempenho é afetada”, diz a psicóloga Filipa Jardim da Silva, lamentando que hoje em dia já nem a condução possa ser encarada como um momento de pausa no frenesim diário.

Mário Alves, presidente da Estrada Viva, concorda: “Como sentimos que o ato da condução é uma perda de tempo, usamos e distraímo-nos com o infotainment a bordo, enviamos SMS, falamos ao telefone e ao mesmo tempo queremos chegar depressa.” De repente, é como se a estrada fosse uma extensão da competição no trabalho e na vida pessoal, em que uns provocam e outros se sentem provocados, acabando a querer descarregar frustrações.

“Metaforicamente, é muitas vezes uma selva que ativa o que há de mais básico e instintivo nas pessoas: os seus mecanismos de defesa”, explica o médico psiquiatra Vítor Cotovio, para quem muita gente, no trânsito, faz coisas que não faria noutro contexto. “Dado que em termos evolutivos o ser humano só sobreviveria tendo o espetro emocional completo que lhe permite identificar ameaças para fugir, paralisar ou defender-se, todos podemos perder a paciência em teoria.” E com ela, claro, o civismo.

Ainda segundo Sandra Gomes, docente do IPAM e coordenadora da pesquisa, apenas 28% dos inquiridos nunca conduziram em excesso de velocidade nas autoestradas, 26% nunca o fizeram em zonas residenciais, 25% nunca beberam/comeram ao volante e 25% nunca fizeram/receberam chamadas sem sistemas mãos-livres. E sim, reconhece Pedro Teixeira, responsável da Continental Portugal: os portugueses conhecem os riscos do que fazem, embora repitam. “Sabendo que 90% dos acidentes têm causa humana, entender estes comportamentos é fundamental na prevenção da sinistralidade rodoviária”, reitera.

A cortesia ao volante está intrinsecamente ligada à segurança rodoviária e ao mútuo respeito entre condutores e peões na partilha do mesmo espaço.

É neste ponto que a PSP exorta os condutores à calma enquanto dirigem, a bem de todos os que circulam nas estradas. “Cerca de 89,5% dos peões feridos e 63,9% dos peões mortos verificam-se em acidentes ocorridos dentro das localidades e resultam, na generalidade, de atropelamentos”, informa a Divisão de Trânsito e Segurança Rodoviária do Departamento de Operações da Direção Nacional da Polícia de Segurança Pública.

Ciente de que a cortesia ao volante “está intrinsecamente ligada à segurança rodoviária, à tolerância e ao mútuo respeito entre condutores e peões na partilha do mesmo espaço”, aconselha uma série de regras de ouro que começam por ter em atenção as passadeiras e o tempo dos outros, além de manter presente que o condutor de hoje pode ser o peão de amanhã, o que só por si nos devia abrandar a todos.

A par disso, sublinha a PSP, há que respeitar os semáforos – “a luz amarela é para parar e não para incentivar a passagem” –, evitar as travagens e acelerações constantes, moderar os gritos e a velocidade, não ultrapassar pela direita, parar sempre nos sinais de Stop e sinais vermelhos, reprimir “os gestos e expressões faciais impróprios” e “não se atirar para o meio do trânsito só porque o sinal mudou e a prioridade lhe assiste” (no caso dos peões).

Já Mário Alves não antevê soluções mágicas enquanto as nossas estradas e ruas estiverem desenhadas para encorajar velocidades demasiado elevadas e comportamentos de risco. “É essencial muito investimento em acalmias de tráfego”, alerta o presidente da Estrada Viva, atento à enorme aceleração que estamos a viver também ao nível das mudanças sociais, em que tudo é vertiginoso e imediato.

“A sociedade de consumo exacerba a liberdade individual e o proveito próprio, em detrimento da empatia e das consequências negativas de se querer sempre chegar mais depressa, fazer mais viagens, ter mais reuniões”, diz. E isto quando notícias recentes apontam para uma diminuição da fiscalização nos últimos anos, devido à austeridade, e o Estado deixou de investir em campanhas de alerta e informação sobre os riscos rodoviários, aponta ainda o responsável.

Seja como for, porque a fineza é bonita e nós gostamos (quem não?), deixamos-lhe OS 15 MANDAMENTOS DA CORTESIA AO VOLANTE. É repeti-los as vezes que forem necessárias antes de perder a cabeça.

1 Não utilizarás o veículo como instrumento de ameaça ou agressão.

2 Se conduzires, não consumirás bebidas alcoólicas ou produtos que alterem o teu estado normal de consciência.

3 Darás sempre prioridade aos peões, mesmo fora das passadeiras ou antes de nelas entrarem.

4 Zelarás pelo transporte seguro dos ocupantes do teu veículo, em especial das crianças.

5 Aceitarás o ritmo de condução dos outros condutores e respeitarás os limites de velocidade legais.

6 Não utilizarás o telemóvel durante a condução.

7 Não estacionarás onde prejudicares a passagem e a visibilidade dos peões, sobretudo crianças, idosos e deficientes.

8 Vigiarás o estado do veículo de modo a contribuíres para a segurança e respeito de todos os utentes das estradas.

9 Não perderás a paciência quando a via se encontrar obstruída e não impedirás a ultrapassagem por outro veículo.

10 Pararás sempre nos sinais de Stop e abrandarás com o aparecimento da luz laranja.

11 Não estacionarás nas passadeiras de peões, faixas Bus, lugares de deficientes e saídas de emergência.

12 Manterás a calma quando circulares atrás de um veículo de instrução.

13 Reduzirás a velocidade em locais de trânsito de peões.

14 Em autoestrada ou via rápida, não conduzirás encostado à traseira do carro que circula à tua frente.

15 Adequarás a tua condução às condições atmosféricas e condições da via.