Aspirina para prevenir doenças cardiovasculares posta em causa

Uma aspirina por dia. Há vários anos que esta é a recomendação de diferentes cardiologistas para a prevenção de doenças cardiovasculares. Um estudo publicado na revista médica The Lancet vem pôr em causa a eficácia dos resultados.

Texto de Ana Patrícia Cardoso | Fotografia de Shutterstock

A pesquisa analisou dez estudos aleatórios sobre a eficácia da aspirina, num total de 117.279 participantes dos dois sexos, de diferentes idades e constituição (peso e altura). Concluíram que o peso influencia diretamente os efeitos da aspirina e que este deve ser tido em conta na altura de definir a dosagem.

A pesquisa concluiu que uma dose com 75 a 100 miligramas reduz o risco de doenças cardiovasculares nos pacientes que pesem entre 50 e 69 quilos. Contudo, aqueles que pesem mais de 70 veem os benefícios reduzidos em 23%. Mas não só. O ácido acetilsalicílico (aspirina) aplicado em pequenas doses nas pessoas acima de 70 pode agravar o cenário no primeiro acidente cardiovascular. Nestes casos, a dose deve ser aumentada para 325 miligramas.

«A aspirina tem uma ação anti-plaquetária ou seja não permite esta acumulação e funciona também como anti-inflamatório. Por isso, faz sentido na medicação dos pacientes com doenças cardiovasculares. Todos nós, cardiologistas, receitamos a aspirina», diz Manuel Carrageta.

O cardiologista Manuel Carrageta, da Fundação Portuguesa de Cardiologia explica a utilização da aspirina. «A aspirina ataca o colesterol em excesso acumulado à volta das artérias, numa primeira fase. Há um processo inflamatório e começa a haver muito calcário nas paredes dos tubos. Impossibilita a passagem da água e causa a acumulação de plaquetas. A aspirina tem uma ação anti-plaquetária ou seja não permite esta acumulação e funciona também como anti-inflamatório. Por isso, faz sentido na medicação dos pacientes com doenças cardiovasculares. Todos nós, cardiologistas, receitamos a aspirina».

Cerca de 80% dos homens e 50% das mulheres que participaram no estudo não tiveram qualquer alteração com a dose diária de 100 miligramas. O cardiologista Luis Manuel Lópes Barreiro disse ao El Pais que este estudo «demonstrou algo que já suspeitávamos. Normalmente, não mudamos uma prática com um estudo apenas. Neste caso, é significativo e trata de algo tão lógico que provavelmente, a partir de agora, vamos passar a tê-lo em conta».

Peter M. Rothwell, o responsável pelo estudo, admitiu que «milhões de pessoas tomam uma aspirina por dia para prevenir acidentes cardiovasculares. É possível que seja um equívoco e que devamos passar a aplicar doses personalizadas a cada caso.»

Manuel Carrageta admite que o peso não é tido em conta nas consultas. «Não temos em conta, damos a dose standard de 100 miligramas. Esta questão do peso pode fazer sentido nas pessoas que realmente estão muito acima do recomendado. Em algumas situações graves, passamos aos 150 mg diários.»

Ao The New York Times, Peter M. Rothwell, o responsável pelo estudo, admitiu que «milhões de pessoas tomam uma aspirina por dia para prevenir acidentes cardiovasculares e todos os ensaios até agora aplicavam a mesma dose aos participantes. É possível que tenha sido um equívoco e que devamos passar a aplicar doses personalizadas a cada um, como aliás, se faz com outros medicamentos.»