O ataque cardíaco de Iker Casillas leva mais gente às urgências?

Quando um desportista de 37 anos, estrela do futebol, sofre um enfarte agudo do miocárdio, a notícia corre mundo e não sai dos cabeçalhos de jornais e telejornais. Quem está a ver notícias poderá começar a sentir-se mal?

Texto de Catarina Pires

O guarda-redes do Futebol Clube do Porto, Iker Casillas, sofreu ontem um enfarte agudo do miocárdio durante um treino. O desportista espanhol de 37 anos sobreviveu, mas desde que a notícia foi dada não se fala de outra coisa nos media.

Ninguém espera que um homem desta idade, aparentemente saudável, sofra um ataque cardíaco. Daí que seja pertinente perguntar: um episódio destes pode sugestionar quem está em casa a ver as notícias?

“Um caso como este, pela sua total imprevisibilidade, porque contraria tudo o que seria expectável – o jogador de futebol era um desportista, não fumava e não era obeso –, leva a um aumento da ansiedade de pessoas hipocondríacas, que sentem necessidade de controlo”, explica a psicóloga Rute Agulhas.

Se tivesse acontecido em direto e as imagens fossem repetidas até à exaustão, a psicóloga Rute Agulhas arrisca dizer que poderia impressionar mais gente e a empatia causada poderia levar a mimetizar os sintomas, mas neste caso, em que a notícia foi dada em diferido e, para mais, com um desfecho favorável, apenas pessoas com traços de hipocondria, hipervigilantes sobre todos os sinais do corpo, estarão mais suscetíveis a ser sugestionadas pelo episódio.

“Um caso como este, pela sua total imprevisibilidade, porque contraria tudo o que seria expectável – o jogador de futebol era um desportista, não fumava e não era obeso, só para citar os fatores de risco mais conhecidos –, leva a um aumento da ansiedade de pessoas hipocondríacas, que sentem necessidade de controlo. A imprevisibilidade facilita a sensação de falta de controlo, que aumenta a ansiedade, daí que sejam estes os mais suscetíveis”, explica a psicóloga.

Iker Casillas sofreu um enfarte durante um treino. Como pode acontecer a um atleta de alta competição, constantemente acompanhado do ponto de vista médico? E isso pode levar mais pessoas às urgências, sugestionadas pelo que aconteceu ao guarda-redes do FCP?

O professor Fausto Pinto, diretor do Serviço de Cardiologia e Departamento Coração e Vasos do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte [Hospital de Santa Maria e Pulido Valente] e presidente-eleito da Federação Mundial do Coração, acredita que um acontecimento como este, envolvendo uma figura pública de grande popularidade, pode levar algumas pessoas a ficar sugestionadas, mas “deve ser sobretudo aproveitado para passar mensagens que permitam informar melhor as pessoas sobre a situação em si e que ajudem à identificação precoce deste tipo de problemas, promovendo ao mesmo tempo estilos de vida saudáveis”.

Na sequência de um episódio como o de Iker Casillas “há seguramente mais pessoas a ficarem com dúvidas perante sintomas que, muitas vezes, podem ser apenas sugestão, mas não deve facilitar-se e deve ser esclarecida a situação», diz o professor Fausto Pinto.

As doenças cardiovasculares continuam a ser uma das principais causas de morte em Portugal e no mundo e apesar de estarmos mais do que avisados sobre o que fazer para as prevenir, a maioria de nós continua a ter hábitos pouco saudáveis para o coração, nomeadamente levando uma vida sedentária, fumando, comendo gorduras e sal e não fazendo qualquer espécie de exercício físico. Não seria o caso de Iker Casillas, talvez por isso o desfecho tenha sido favorável.

Para um aumento dos desfechos favoráveis, Fausto Pinto prefere prevenir do que remediar e, não temendo que as urgências se encham de gente, chama a atenção para os sinais de alerta: “se a pessoa sentir uma dor muito forte no peito, que irradia para os braços, face, costas, acompanhada de sensação de mal-estar (náuseas, vómitos, tonturas) deve pedir ajuda, nomeadamente ligando o 112. O nosso serviço de emergência (INEM) funciona muito bem e sabe exatamente o que fazer no caso de uma situação emergente”.

Na sequência de um episódio como o de Iker Casillas “há seguramente mais pessoas a ficarem com dúvidas perante sintomas que, muitas vezes, podem ser apenas sugestão, mas não deve facilitar-se e se ocorrerem os sintomas que referi, deve ser esclarecida a situação», diz o cardiologista de renome mundial.

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