A última desculpa para não fazer o teste VIH

Portugal apresenta uma das mais elevadas taxas de incidência de infeção por vírus da imunodeficiência humana (VIH) da União Europeia: valores de mais de 10 infetados por cem mil habitantes, em relação a uma média europeia de 6,3.

A situação é ainda mais alarmante quando olhamos para a percentagem de diagnósticos tardios. Mais de metade dos novos diagnósticos de VIH acontece já em fase tardia da doença. Ou seja, apenas vários anos depois dos doentes se infetarem. A doença pode ser assintomática durante um longo período e só ser diagnosticada por acidente, ou quando atinge a chamada síndrome da imunodeficiência adquirida (SIDA).

Os novos fármacos de tratamento do VIH, totalmente comparticipados pelo Estado, vieram transformar o VIH numa doença crónica, melhorando a qualidade de vida dos doentes. No entanto, muitos dizem que essa banalização da doença veio fazer com que as imagens impressionantes dos doentes terminais com SIDA, ou a ideia de morte associada à doença, deixassem de estar tão presentes na cabeça de cada um que opta pelo não uso de preservativo.

Um estudo recentemente publicado pela Universidade de Lisboa indica que mais de 60% dos jovens portugueses não usam preservativo. Este facto torna evidente uma falta de noção do perigo.

O VIH é um vírus absolutamente democrático, que não escolhe status, orientações sexuais ou sexos. Desengane-se quem julgava que esta era uma doença dos homossexuais. De facto, em Portugal, a sua transmissão acontece maioritariamente por contacto heterossexual. Muitas são as histórias de maridos que infetam as suas mulheres sem intenção, depois de um descuido fora do casamento.

Se queremos acabar com esta realidade de pessoas que, por não saberem estar infetadas, infetam todos os parceiros sexuais com quem mantêm relações sexuais desprotegidas, é importante fazer do teste ao VIH um ato de responsabilidade pessoal e social.

Toda a gente tem o direito de errar, mesmo que um simples erro acarrete muitos riscos. Ninguém está livre de cometer um descuido pontual movido a paixão ou a uns copos a mais. No entanto, ninguém tem o direito de infetar outros por mero desleixo.

Fazer o teste o VIH com regularidade é, no mínimo, uma responsabilidade moral e cívica de quem faz sexo sem preservativo. Até agora, quem o quisesse fazer tinha de solicitar análises ao médico de família, no centro de saúde. Outra alternativa era visitar o centro de rastreio mais próximo. No entanto, o medo e a vergonha demove muita gente. Muitos optam, simplesmente, por não o fazer. Tentam, simplesmente, esquecer. Mas a amnésia não é suficiente para anular o vírus.

Até agora as barreiras ao teste eram muitas mas, a realidade está prestes a mudar.

Através da alteração à Lei, publicada em DR no passado dia 15 de outubro de 2018, passa a ser os autotestes VIH passam a poder ser banalmente vendidos em Portugal. Espera-se que dentro de semanas, seja o Ministério da Saúde suficientemente diligente, seja possível encontrar estes testes em qualquer farmácia comunitária perto de si.

Será um processo tão simples como fazer um teste de gravidez. Aos testes reativos poderá ser marcada, automaticamente, uma consulta através da linha SNS24.

De acordo com os dados mais recentes da Organização Mundial de Saúde, se devidamente tratados e com supressão virológica, os infetados deixam de transmitir o vírus a terceiros.

O vírus pode demorar décadas até se manifestar. E você? Já pensou que pode andar a infetar os seus parceiros sexuais por um descuido do passado?

Respeite a vida daqueles com quem faz sexo! Respeite a vida daqueles com quem faz amor!

Faça o teste VIH! As suas desculpas para não o fazer têm os dias contados.