Beba um chá que isso passa

Se forem preparados a partir das folhas, flores ou raízes da Camellia sinensis são chás. Feitos com quaisquer outras plantas são infusões. Mas sim, pode na mesma continuar a chamar chá a tudo. Assim como assim, todos lhe tratam da saúde em igual medida.

Texto de Ana Pago | Fotografias da iStock

A HISTÓRIA

Conta a lenda que o imperador chinês Shennong (2737 a.C.) repousava sob um arbusto de Camellia sinensis, com os servos a ferverem água junto dele, quando folhas da planta do chá caíram na panela e fizeram magia. Desde então, chás aconchegam-nos nos dias frios e refrescam nos de calor. Escudam-nos o corpo contra várias maleitas. Tornam-nos a mente ágil como as dos jovens – com quem ainda por cima nos fazem parecer de aspeto, ao combaterem os efeitos do envelhecimento. É tanto poder em tão pouca água que quase imaginamos um S estampado nas chávenas, de Superchá. Vai um golinho?

ÁFRICA

A maioria dos apreciadores prefere bebê-lo simples, para melhor saborear o travo amendoado e nada amargoso que deixa na boca. E depois há os sul-africanos, orgulhosos da sua produção de rooibos nas montanhas do Cedarberg, na província do Cabo Ocidental, que o tomam com uma rodela de limão adoçado com mel ou açúcar. Os próprios moçambicanos, detentores de grandes plantações de chá em Gurué, começam a comprar o chá importado da África do Sul por lhes ficar mais barato do que o chá nacional.

ÁSIA

É impossível falar de chás sem destacar a China, o maior país da Ásia que é também o maior produtor do mundo, beneficiando do conhecimento que toda a gente já tem das suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Aí se estima que a produção de chá verde mais do que dobre na próxima década, atingindo 3,3 milhões de toneladas em 2027 segundo previsões do último relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

PORTUGAL

Por cá, a mais antiga plantação de chá da Europa é a Gorreana, na ilha de São Miguel, Açores, a dar cartas internacionalmente desde que Ermelinda Câmara e o filho, José Honorato, abriram a fábrica em 1883. Dois especialistas chineses introduziram no arquipélago a arte de bem cultivar a planta em 1874 e, desde então, a família tem-se encarregado de preservar os preceitos do Oriente em terras bem portuguesas.

CHÁ PRETO

Ou vermelho, como também é conhecido, é o mais rico em cafeína e o mais transformado, com as folhas a sofrerem uma oxidação completa até ficarem negras. Sendo que aqui até isso é sinónimo de saúde: chá preto atua em doenças gástricas, intestinais e problemas digestivos; diminui o risco de doença arterial coronária e certos tipos de cancro (do pulmão, ovários, próstata, bexiga, oral e da mama). Aviva ainda a memória, o sistema respiratório, o coração, os rins e a energia do corpo.

CHÁ VERDE

Aqui as folhas são cozidas a vapor, sem oxidação, e secas segundo um processo que preserva os nutrientes e propriedades da Camellia sinensis. Trocado por miúdos: é um antioxidante potentíssimo, que protege de cancros e dos radicais livres responsáveis pelo envelhecimento precoce. A cafeína que contém estimula a concentração mental. As catequinas aceleram o metabolismo e ajudam quem o bebe regularmente a perder peso. Representa 90 por cento da produção chinesa de chá, o que é dizer muito.

CHÁ OOLONG

É considerado o champanhe dos chás e até no nome é mais pomposo que os outros: chá do dragão negro (é isso que significa oolong em chinês), semioxidado e semifermentado até ficar com aspeto de chá preto e sabor de chá verde, mas mais intenso e refinado. E a saúde, o que ganha? Muito menos colesterol, inflamações, dermatites, rugas, manchas da idade e danos por raios ultravioleta. Já para não falar num estudo japonês da Universidade de Quioto que lhe atribui a redução do risco de doenças cardiovasculares.

CHÁ BRANCO

É este o segundo chá mais caro e delicado (a seguir ao oolong), feito a partir dos botões verdes da Camellia sinensis e das folhas jovens da planta, vaporizadas e secas ao sol. É depois na saúde que a delicadeza do chá branco dá lugar à força: combate vírus e bactérias como um samurai; previne o envelhecimento precoce, a degeneração das artérias e o cancro (sobretudo do estômago e próstata, por ser rico em antioxidantes); ativa o metabolismo e a queima de gordura; reduz inflamações, pressão arterial e stress.

CHÁ DE JASMIM

Não é um chá na verdadeira aceção da palavra, por não ser feito com Camellia sinensis como os outros, mas também não é à toa que a medicina chinesa reconhece as propriedades milenares do jasmim: a infusão com as folhas é um poderoso antioxidante, eficaz contra o envelhecimento precoce, ao passo que as flores diminuem o risco de cancros e problemas cardíacos, atuam contra o mau colesterol, reforçam o sistema imunitário e acalmam do stress dos dias.

CHÁ DE LIMÃO E FLOR DE SABUGUEIRO

Este é outro que de chá só tem o nome, como o de jasmim, mas nem por isso perde eficácia a acalmar a inflamação sistémica do organismo em resposta a agressões físicas, químicas ou biológicas. Há mais de quatro mil anos que as flores de sabugueiro são usadas para fins medicinais por diversas culturas, cientes do seu poder antissético e anti-inflamatório, e o tempo encarregou-se de lhes dar razão. Combinadas com o limão, ajudam ainda a levantar o ânimo. Além de lhe deixarem um cheiro delicioso na cozinha.