«Boas notas podem ser premiadas com reforço positivo, nunca com bens materiais»

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Notas escolares prestes a sair não têm de ser um drama familiar para ninguém. A psicóloga Ana Manta diz-lhe o que fazer quaisquer que sejam os resultados.

Entrevista de Ana Pago | Fotografias de Rui Oliveira/Global Imagens

Como é que os pais devem reagir ao verem as notas dos filhos?
Por muito desligada que uma criança ou um jovem sejam, ninguém fica feliz por ter tido maus resultados. Os pais devem estar especialmente focados naquilo que os filhos aprenderam e não nas notas, as notas são apenas um rótulo. Muito mais importante é o que lhes ficou lá dentro.

Quaisquer que sejam os resultados escolares, estes devem ser sempre um ponto de partida para se conversar sobre o que falhou (ou não) e o que pode ser melhorado?
Para fortalecer a relação entre pais e filhos, exatamente. A saída das notas é um bom momento para balanços, para refletirem em conjunto sobre as forças e fraquezas do ano letivo que passou. E isto também com o objetivo de prepararem já o próximo: podem, inclusive, pôr no papel os objetivos e estratégias que devem procurar adotar. Não existe nada mais importante do que a relação que temos com os nossos filhos, o resto é acessório.

Ana Manta é psicóloga e autora dos livros «Motivar os Filhos Para o Estudo» (ed. Clube do Autor, 2015) e «Filho, Presta Atenção!» (Clube do Autor, 2018).

No caso de chumbarem ou terem negativas devem ser castigados?
O maior castigo, quando um aluno reprova, é o confronto com o fracasso. Este é um momento para servir de alerta a pais e a filhos, um momento em que se deve ter uma conversa franca e mostrar-lhes o que vão perder por terem reprovado: mudar de turma, de amigos, ouvir tudo de novo… enfim, um conjunto de coisas menos boas.

O confronto com o fracasso não é necessariamente mau.
Pois não, e por vezes é mesmo muito importante que os miúdos se confrontem com os seus próprios fracassos, para que lhes sirvam como pontos de aprendizagem e mudança. Não concordo com castigos porque tiraram negativas ou reprovaram: está mais do que provado que não produzem nem melhorias, nem mudanças.

«Para os miúdos, o facto de iniciarem o próximo ano letivo como repetentes, a perderem o grupo de amigos que tinham, já é castigo suficiente.»

Qual é, então, a melhor maneira de os pais lidarem com as más notas, ainda que não passe por trancarem os filhos no quarto a estudarem o resto do verão?
A melhor forma é fazerem a tal reflexão conjunta de que falava há pouco. Perceberem ao certo o que falhou no processo. Verem se a criança ou o jovem têm dificuldades e arranjar-lhes ajuda extra, por exemplo uma explicação. Para eles, o facto de iniciarem o próximo ano letivo como repetentes, a perderem o grupo de amigos que tinham, já é castigo suficiente.

Além de que, em última análise, terem tido más notas não significa que não se tenham esforçado e até dado o seu melhor…
Claro que não. Pode perfeitamente dar-se o caso de existirem dificuldades de aprendizagem, e aí o esforço que fizeram ao longo do ano nem sempre é proporcional ao resultado obtido no final.

«É tremenda a pressão sobre as crianças e jovens hoje em dia. Há miúdos que trabalham mais do que muitos adultos.»

Sobrecarregamos demasiado os nossos miúdos? Demasiados rankings, demasiadas atividades, demasiados trabalhos de casa?
Sem dúvida nenhuma! É tremenda a pressão sobre as crianças e jovens hoje em dia. Há miúdos que trabalham mais do que muitos adultos. Procuramos a perfeição e esquecemo-nos do essencial: de que precisam as crianças? De amor, da presença dos pais. De tempo e programas em conjunto. Isso substitui qualquer outra atividade. Quadros de mérito, comparações com os colegas, pressão para ser o melhor, tudo isso traz um reverso que nem sempre é fácil de gerir. É preciso aprender a parar e ajudar os nossos filhos a parar.

A haver «culpa no cartório» ela também é dos pais? Por tenderem, muitas vezes, a assoberbar os filhos com as suas próprias exigências e expetativas?
Digo muitas vezes aos pais que eles já tiveram a sua oportunidade, já fizeram as suas escolhas, agora é a vez dos filhos. Isso pode significar que temos de deixá-los bater com a cabeça na parede para os ajudar a crescer e fazerem o seu caminho, um caminho que não é dos pais, é dos filhos. Os pais podem estar ali ao lado deles, mas as escolhas têm que ser dos filhos. É duro para um jovem lidar com as expetativas dos pais, muitas vezes sabendo que não consegue, ou não quer, lá chegar. Lido muito com isto em clínica e não é fácil.

Mais do que gerar um drama familiar, o que é que os pais devem efetivamente fazer para ajudarem um filho a superar-se?
Devem manter-se ao seu lado no caminho e conversar bastante com os filhos – é desse diálogo que nascem as respostas. Devem ouvi-los mais e perceber quais são as suas angústias e dificuldades. Muitas vezes, conversas aparentemente banais trazem as pistas de que precisamos para ajudá-los a serem felizes também nos estudos.

«Trocar as notas por brinquedos ou dinheiro transforma o mimo numa transação comercial.»

Este pode ser um bom timing para se despistar algum eventual transtorno de desenvolvimento/aprendizagem/atenção que possa existir?
Sim. Por vezes, ao falar dos bloqueios que sente, a própria criança dá as pistas necessárias para os pais compreenderem que está na altura de procurar ajuda externa. Na dúvida, vale sempre a pena fazer uma avaliação profissional que permita despistar se estamos diante de dificuldades de aprendizagem específicas – dislexia, disortografia, discalculia, etc.) ou de questões emocionais que mexem com a aprendizagem – seja ansiedade, depressão ou outra.

 

Trabalhos nas férias: sim ou não? No fundo, não difere muito de termos o chefe a pedir-nos que vamos escrevendo uns relatórios em pleno período de descanso para não perdermos o jeito…
É verdade, trabalhos para férias têm mesmo esse sabor. Contudo, sobretudo no início do primeiro ciclo, existe um risco de os pequenos se esquecerem do que aprenderam porque as férias são muito grandes, então a leitura, a escrita e o cálculo devem continuar a ser treinados. Agora, isso pode ser feito de forma lúdica e sem aquela conotação menos positiva que têm os trabalhos de casa.

Temos falado muito das más notas, mas e no caso de os miúdos terem boas notas? Devem ou não ser premiados?
Podem ser premiados com reforço positivo e reconhecimento, nunca com bens materiais – isso parece negociata. Mesmo a sério: trocar as notas por brinquedos ou dinheiro transforma o mimo em algo que é quase uma transação comercial, o que tem efeitos pouco construtivos. Por outro lado, o reconhecimento é muito importante. Também nós gostamos que reconheçam os nossos esforços.

«O facto de fazerem a sua obrigação ao passar de ano não significa que o esforço não deva ser reconhecido.»

Pergunto isto porque muitos pais, e até especialistas, defendem que os miúdos não fizeram mais do que a sua obrigação ao estudarem e passarem de ano.
Podem ter feito a sua obrigação, mas isso não significa que não devam ser reconhecidos. Nós também fazemos o nosso trabalho, no entanto sentimo-nos bem quando alguém repara e nos valoriza. É igual.

Como é que os pais conseguem fazer esta gestão sem que as crianças passem a trabalhar apenas pelo elogio ou pelo prémio?
De novo, diria que é muito pelo diálogo, pela partilha de dúvidas e de angústias. Em minha casa definimos objetivos com os nossos três filhos e vamo-los monitorizando durante o ano letivo, o resultado não aparece assim do nada no final. Esta estratégia prepara-os para a vida: é muito útil que aprendam a definir desde já as suas metas. Depois o que acontece é que, ao longo do ano, esses propósitos vão sendo atualizados.

Havendo filhos com resultados muito díspares os pais não correm o risco de gerar atritos entre eles ao receberem as notas? No sentido de um poder sentir-se superior – ou inferior, consoante os resultados obtidos – ao irmão?
Posso dar o exemplo cá de casa: tenho três filhos, dois deles com idades muito próximas (14, 12 e 6 anos). Temos as tabelas de objetivos expostas em conjunto, cada um sabe como as coisas vão correndo ao outro e isto favorece a relação de irmãos. A ótica não é a da competição, é a da cooperação. Os miúdos sabem que cada um tem jeito para matérias diferentes, sabem que não somos todos iguais. Se virem que os pais não comparam, e que em vez disso preferem encarar cada um como o ser único que é, então eles também não vão comparar.

QUEM É ANA MANTA

É psicóloga especialista em desenvolvimento infantil com experiência em contexto clínico e escolar, mas ser mãe de três crianças é o desafio que a motiva acima de todos os outros. Cocriadora e coordenadora da Red Apple, uma entidade formadora nas áreas da psicologia, educação e ciências sociais e do comportamento. Escreveu ainda Motivar os Filhos Para o Estudo (ed. Clube do Autor, 2015), com que ajuda educadores a orientar bons hábitos nos mais novos, e Filho, Presta Atenção! (Clube do Autor, 2018), sobre como trabalhar a concentração para melhorar os resultados escolares.