Brexit sem acordo travará investigação de cancros raros em crianças

Brexit sem acordo travará investigação de cancros raros em crianças
Investigadores britânicos temem consequências do brexit © José Mota / Arquivo Global Imagens

Médicos e investigadores britânicos alertam para as consequências da saída do Reino Unido dos ensaios clínicos internacionais que procuram novos tratamentos para doenças raras.

Investigadores britânicos na área das ciências médicas têm vindo a alertar para o perigo de uma saída desordenada do Reino Unido da União Europeia e as consequências que isso pode ter sobre a investigação de novos tratamentos para os cancros mais raros, nomeadamente os que afetam as crianças.

“Pode revelar-se proibitivamente caro e tornar menos provável que as organizações sediadas no Reino Unido liderem ensaios clínicos internacionais, minando a posição de líder na investigação clínica”, afirmou ao jornal britânico The Guardian a responsável pelas políticas para a investigação do cancro, Emma Greenwood.

O jornal britânico aponta o exemplo de uma rede internacional de investigadores que está a testar novas técnicas para tratar crianças que sofrem de cancros raros, uma rede que faz parte de um projeto mais vasto, financiado em 7,9 milhões de euros pela União Europeia.

Keith Wheatley, do Instituto do Cancro e Ciências Genómicas da Universidade de Birmingham, sublinha que têm sido detetados 30 novos casos por ano de cancros do fígado em crianças. Se a raridade desta doença nas faixas etárias mais jovens é, por um lado, uma boa notícia, este é um cenário que levanta preocupações quanto à investigação que é feita especificamente para estes casos. Por exemplo, quanto ao regime de quimioterapia que pode ser aplicado às crianças, uma questão que ainda não tem uma resposta científica clara e que está a ser estudada por uma rede que reúne instituições de vários países.

O governo britânico já prometeu que cobrirá as verbas destinadas à investigação clínica que vão deixar de ser atribuídas ao Reino Unido depois da saída da União Europeia, mas essa garantia não tem sido suficiente para aplacar as dúvidas dos cientistas britânicos, que temem que a colaboração internacional nesta área seja prejudicada pelo brexit, particularmente se este ocorrer de forma desordenada. “Será cada vez mais difícil manter as investigações e, pior ainda, iniciar novos estudos em áreas que ainda não estejam a ser trabalhadas”, afirmou Emma Greenwood ao jornal.

E esta não é a única preocupação que tem vindo a ser expressa pela comunidade médica. Anualmente, o Reino Unido consome dezenas de milhões de embalagens de medicamentos que são importados de outros países da União Europeia e que passarão no futuro a ficar sujeitas a toda a burocracia alfandegária. Num cenário de dificuldades de fornecimento de medicamentos, não é difícil antecipar que a prioridade será dada aos fármacos com maior uso, sobretudo hospitalar, pelo que este é um risco acrescido em relação aos medicamentos destinados a um número reduzido de pessoas, ou às substâncias que sejam necessárias à investigação clínica.

Outro problema que tem vindo a ser apontado prende-se com a saída de investigadores de topo. As autoridades britânicas já vieram dizer que os requisitos de entrada e permanência no Reino Unido serão aligeirados para os cientistas, mas esta parece ser uma garantia frágil no clima de total incerteza que se vive em relação ao brexit.