Brincar com a violência ajuda crianças a lidar com violência real

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Se ainda pensa que tudo na vida é preto e branco, só bom ou só mau – como era de esperar que fossem as brincadeiras de crianças, de um lado, e a violência, do outro –, especialistas em desenvolvimento dizem que se calhar não estão em campos tão opostos quanto isso.

Texto de Ana Pago | Fotografia da Shutterstock

Espadas de madeira. Bazucas que esguicham água e balas de esferovite. Brincar às guerras, aos polícias e ladrões, às artes marciais. Se há coisa que assusta mais os pais do que ver um filho empoleirado para chegar às bolachas é esta dramatização da violência com que as crianças, mesmo as não violentas, se entretêm nas suas interações lúdicas umas com as outras. Porém, talvez fosse ainda mais assustador não o fazerem.

“As histórias e o faz-de-conta fazem ‘mal’ às crianças porque as sensibilizam para ver o mundo e as pessoas”, confirma o psicólogo clínico Eduardo Sá, que escreveu Um manifesto contra as histórias para salientar (brincando ele próprio com as palavras) o papel da imaginação no entendimento da realidade, boa e má. “Falam-lhes de bruxas ou de duendes, ajudam-nas a compreender a maldade. E a entender que ela não vem de Marte nem do Inferno, mas de pessoas em quase tudo parecidas com o que somos.”

Quando brincam ou jogam um jogo, “crianças, adolescentes e até adultos têm a oportunidade de experimentar, entre outras questões, a agressividade e a violência”, explica em entrevista ao Huffington Post Monica Seincman, psicanalista e coordenadora do Núcleo de Psicanálise com Crianças do Centro de Estudos Psicanalíticos, em São Paulo, Brasil.

A brincar podemos dizer e fazer coisas impensáveis na realidade, exprimir o que devemos recalcar noutros momentos.

Cada um à sua maneira, diz, de acordo com a maturidade, criatividade e etapa de desenvolvimento em que se encontram, todos aprendem a controlar os ímpetos violentos mais básicos e a contê-los nesse universo de fantasia sem que haja necessidade de transportá-los para a vida real, onde os atos têm consequências irrevogáveis e quem a pratica é punido.

“A brincar podemos dizer e fazer coisas impensáveis na realidade, exprimir o que devemos recalcar noutros momentos”, sustenta a psicanalista infantil, para quem um mundo violento como o nosso pede ferramentas à altura. “Aquilo que os jogos propõem são situações presentes nas nossas fantasias, mas que não podem ser colocadas em prática no dia-a-dia.”

Isto porque a agressividade, segundo ela, é uma das questões primordiais com que o ser humano tem de lidar – uma certeza que o pediatra Mário Cordeiro partilha: “Acho que uma parte da condição humana encerra desde a mais tenra idade, desde sempre, um ser narcisista, mau, egoísta e dominador, que pretende possuir tudo já nem que para isso tenha de passar por cima dos outros”, adianta.

Neste ponto, cabe aos pais e educadores serem justos a estabelecer limites, com mão firme e sem humilhar, mas sem deixarem dúvidas quanto ao lugar de cada um: “É nisso que têm de investir para ajudarem a combater o potencial maligno que há em nós e deixarem funcionar, por defeito, o ‘eu’ pacífico, tranquilo, solidário e amigo”, defende o pediatra, que por outro lado não vê mal nenhum numa criança de 4-5 anos a gritar um “vou-te matar” na galhofa com outras.

De preocupar é a brincadeira só girar à volta da violência, sem que haja uma parcela equivalente de interações pacíficas.

“Não quer dizer que pretende literalmente fazê-lo ao amigo com quem está a brincar, não confundamos as coisas”, ressalva, pragmático. Algo bem diferente é a brincadeira só girar à volta disso, não haver uma parcela equivalente de interações pacíficas ou o miúdo aproveitar o jogo para usar a violência explícita (batendo, por exemplo, nos irmãos). “Aí estamos porventura perante uma deturpação do que deveria ser uma coisa lúdica e do domínio da fantasia.”

Um estudo de 2015 realizado pela Universidade de Oxford, Reino Unido, junto de 200 alunos entre os 12 e os 13 anos, concluiu que os jogos de vídeo, incluindo os mais violentos, não estão associados a comportamentos violentos, agressões reais ou perturbações no desempenho académico.

Outro estudo dos mesmos autores divulgado em 2019 na publicação científica Royal Society Open Science, com adolescentes britânicos de 14 e 15 anos e respetivos cuidadores, comprovou uma vez mais que jogos de vídeo violentos não se traduzem numa quantidade maior de manifestações agressivas face aos jovens que não os jogam.

Ainda uma terceira pesquisa norte-americana publicada em 2013 no Journal of Youth and Adolescence, a partir da análise de 377 crianças de 13 anos (idade média), apurou que jogos violentos não só não contribuem para formar delinquentes e bullies como ajudam, em alguns casos, a reduzir esse tipo de comportamentos – ao permitirem libertá-los de forma controlada – e até a acalmar ligeiramente jovens com sintomas associados ao défice de atenção.

Uma coisa é fazer uma pistola com os dedos e fingir que se mata o amigo. Outra é pegar num simulacro de arma e disparar.

“Temos que diferenciar o que a imaginação da criança inventa, numa lógica de cenário, do que são representações demasiado realistas de armas, objetos e situações reais”, sublinha o pediatra Mário Cordeiro. Uma coisa é fazer uma pistola com os dedos e fingir que se mata o amigo – um dedo não mata –, outra é pegar num simulacro de arma, por vezes igual à verdadeira, e disparar.

“Mesmo quando se dá um soco, fica-se com um tempo de reflexão que pode levar muitas crianças a não darem o segundo. Ao contrário do que sucede com as armas, que não exigem o contacto físico com o outro”, reforça o especialista em desenvolvimento infantil, considerando que o maior problema, hoje em dia, passa pela exploração desenfreada e sensacionalista da violência em notícias, filmes e demais indústria do entretenimento.

“Porque se há de dar a imagem de um mundo violento quando os atos violentos são a exceção, mesmo que muito dramáticos?”, questiona Mário Cordeiro, alérgico à banalização da violência. “Têm de ser identificados, sim, mas não repetidos ad nauseam. E não sem que os pais estejam presentes para os explicarem e manterem a esperança na parte bondosa da humanidade, que é maioritária.”

Também para Bárbara Ramos Dias, psicóloga clínica especializada na área dos adolescentes, estamos todos a ver a questão pelo ângulo errado. A esquecer que existe sempre uma dor por detrás de comportamentos agressivos, ainda que lúdicos, e então um abraço seria mil vezes mais eficaz do que andar à pedrada.

“Há estratégias bem melhores para descarregar a raiva, como dar murros em almofadas, gritar, correr, saltar à corda ou no trampolim”, sugere a terapeuta, apoiada no êxito desta abordagem positiva em consulta. Outra ainda, surpreendente de tão básica, é contar até 10, já que impulsos duram cerca de dez segundos, seja o de agredir ou fumar um cigarro: “Os pais devem ensinar os filhos a contar, respirar, beber água ou desabafar com alguém. Deste modo o impulso vai passar e não agem”, diz.