Brincar: um assunto muito sério das crianças (que merece toda a atenção dos pais)

Dia Internacional do Brincar

Miúdos felizes precisam de estudar, mas sobretudo que os deixem brincar o mais possível – a melhor forma de adquirirem conhecimento e valores que não são mais do que aquilo a que os pais chamam as “atividades sérias” da escola. E sim, é a brincar que todos se entendem, razão por que se celebra hoje o Dia Internacional do Brincar.

Texto de Ana Pago

Ver um filho a brincar diz aos pais tudo o que precisam de saber das suas crianças. Há as que leem horas a fio num mundo só seu. As que desmontam objetos para reconstruí-los. As desportistas. As que fazem rir os outros. Se há coisa que as desenvolve como pessoas é a brincadeira e, no entanto, reclusos de uma prisão de alta segurança no Indiana, EUA, passam mais tempo ao ar livre (duas horas por dia) do que os nossos filhos. Porque não estão todos a brincar, afinal – e nós com eles?

“Bebés dentro da barriga da mãe brincam por puro prazer, mas prazer é uma palavra com que não lidamos lá muito bem”, observa o pediatra Mário Cordeiro, considerando que nada é mais sério do que brincar: “Insiste-se que a criança saiba os graus dos adjetivos de trás para a frente e, contudo, são raras as escolas que põem música ambiente, mesmo depois de a ciência ter provado que isso diminui a possibilidade de conflitos”, diz.

Ou então deixam miúdos de seis e sete anos sem recreio, de castigo, como se brincar fosse uma recompensa acessória e não a base estrutural do desenvolvimento infantil. “A brincar trabalham a coordenação olho-mão, estruturas cerebrais, o raciocínio, a motricidade fina [capacidade de usar com perícia um lápis ou uma tesoura]”, confirma António Ponces de Carvalho, especialista em educação infantil e familiar.

Ganham competências, valores e conhecimento – aquilo que, bem vistas as coisas, os pais consideram ser as “atividades sérias” da escola quando adquiridas num contexto mais formal. “Percebem que há regras, consequências por desrespeitá-las, momentos em que irão perder, e que tudo isto é vital para fortalecer a autoestima e a resiliência”, acrescenta Ponces de Carvalho. O facto de vermos brincar na natureza todas as crias dos mamíferos mais inteligentes diz tudo.

Brincar melhora os níveis de produção e criatividade, ensina regras e está ligado a um conjunto permanente de descobertas que potenciam o desenvolvimento global da criança.

Incluindo que a brincadeira melhora ainda os níveis de produção e criatividade, não só das crianças como dos adultos que galhofam com elas. “Por vezes perdemo-nos nas responsabilidades diárias e esquecemo-nos de desfrutar de pequenos momentos como fazer um jogo, rir juntos, estar juntos. Tudo isso é brincadeira, além de uma experiência única de afeto entre pais e filhos”, explica a psicóloga educacional Joana Vilar, defensora desta curiosidade partilhada.

Já para não falar que brincar está ligado a um acervo permanente de descobertas que potenciam o desenvolvimento global das crianças, até mais do que o excesso de atividades extracurriculares. “Este tempo é um dos investimentos mais rentáveis que se pode fazer na educação infantil e exige-nos muito pouco, dado que a sua essência consiste em explorar o mundo de forma intuitiva e espontânea”, sublinha a especialista.

Escavações arqueológicas na Grécia, em túmulos de crianças, recuperaram bonecos do século IV a.C. que atestam a qualidade intemporal da brincadeira. No Antigo Egito, entre 3000 e 2000 a.C., bonecas de madeira com cabelo eram objetos usuais. Referências ao brincar surgem em obras tão distintas como a Odisseia, de Homero, ou o quadro Jogos Infantis de Pieter Bruegel, pintor belga do século XVI. No século XIX, em Itália, a pioneira em educação Maria Montessori afirmava que a brincadeira é o trabalho das crianças e os adultos peca(va)m por desvalorizá-la.

Jogar às escondidas, à bola, à apanhada ou às casinhas são comuns a muitos filhos, pais e avós.

“Houve muitas mudanças na sociedade, nas próprias definições de infância, mas jogar às escondidas, à bola, à apanhada ou às casinhas são comuns a muitos filhos, pais e avós”, aponta Joana Vilar. A principal diferença é que antes brincavam mais na rua, compensando com a imaginação o que lhes faltava em brinquedos realistas, ao passo que atualmente os miúdos ficam sobretudo por casa, seguros dos perigos, com uma enorme variedade de diversões à disposição.

Seja como for, não é que se divirtam mais nem melhor agora que têm jogos fora de série, reconhece a psicóloga educacional. Quantas vezes, ainda hoje, não é a embalagem que eles preferem, já a imaginarem-na como um barco ou um avião? “Jogar com os outros e socializar é importante, mas saber fazê-lo sozinho é crucial para desenvolver a independência, a capacidade de resolver problemas e aprender a lidar com o tédio”, reforça. Se até em cenários de guerra as crianças brincam, não vamos nós perder essa capacidade de fazer de conta.


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