Brinquedos para menino, brinquedos para menina e bom senso para os paizinhos

Eu e a minha mulher estamos numa loja de brinquedos ou acessórios para crianças. Também pode ser num corredor de supermercado. Estamos a olhar para bolas, mochilas, puzzles, estojos, brinquedos, T-shirts ou outra bonecada qualquer e tentamos escolher uma coisa para uma das nossas filhas. Ou para oferecer. Pouco importa, para o caso. Elas também estão aqui. As filhas. A mais nova pega numa bola com o Homem-Aranha, a mais velha segura numa fantasia da Dra. Brinquedos. A mais velha segura numa bisnaga, a mais nova agarra num Nenuco. Uma tenta segurar num puzzle com uma princesa maior do que ela, a outra quer tirar um bulldozer de uma caixa cheia de atilhos de segurança. Como não conseguimos decidir-nos e temos de estar a dar atenção às miúdas, acabamos por nos cansar e decidirmos fazer as compras sem a presença delas. Ou então pegarmos no que quer que seja, desde que demoremos o mínimo possível até pagar e sair.

Este filme é frequente. O que nunca aconteceu, até hoje, foi alguma delas fazer uma birra valente por querer – mesmo! – aquele copo do Hulk, aquelas pantufas do Faísca McQueen ou aquela pandeireta com o Capitão América. Mas algum dia será. E nós, que não estamos habituados a meninos, quando isso acontecer vamos pagar e vimos embora com a mesma naturalidade que teríamos se tivéssemos um filho e ele quisesse uma tábua de engomar, um trem de cozinha ou um puzzle da Barbie. Como é que eu tenho tanta certeza? Porque temos algum bom senso e acreditamos mais na educação que damos às miúdas do que nos estereótipos que os adultos (os crescidos, portanto) atribuem ao significado escondido por trás de um objeto de plástico.

Há outra coisa que as nossas filhas ainda não fazem: ir com frequência ao McDonald’s. Se conhecessem bem as refeições da cadeia norte-americana, talvez já se tivessem cruzado com as Happy Meals e os brinquedos oferecidos nas caixas respetivas. Esses mesmos que, no início da semana passada, a empresa veio admitir serem discriminatórios, por serem dirigidos a raparigas ou rapazes. My Little Pony para raparigas, Transformers para rapazes. Escrito nos placards nas lojas, nos rótulos das embalagens e explícito nas palavras dos assistentes, quando perguntam o género da criança que vai receber o presente. Na terça-feira da semana passada [1 de março], o Diário de Notícias dava conta dessa medida da McDonald’s Portugal, que, ao assumir «discriminação em refeições infantis», garante que irá rever os procedimentos em relação à Happy Meal, ao encontro do que é prática noutros países, onde os empregados se referem ao nome do brinquedo e não ao género da criança que pode brincar com ele.

Nada tenho contra esta medida. Nem contra a abolição do questionário que acompanha algumas destas refeições, em que palavras como «criatividade», «culinária» e «estilo» são dirigidas a meninas e aos brinquedos delas e «trabalho de equipa», «força» e «poder» estão associadas aos meninos e aos brinquedos deles. O que me chateia é se, nesta ânsia de uniformização de géneros atrás do politicamente correto, cairmos no exagero de limpar todas as referências a «ele» e «ela» do imaginário infantil de jogos e brincadeiras. Sim, eu sei que não estamos a falar de biologia, e que uma coisa é explicar pipis e pilinhas, outra é esclarecer por que raio não pode a Maria brincar com a Tartaruga Ninja do Manel. Ela pode. Claro que pode. Mas… e que tal deixar alguma margem para os pais e as próprias crianças ajuizarem? Pais com bom senso, não os que emprenham pelos ouvidos e se chocam com minudências. É que – vá lá gente – isto são minudências, não são? Quando comparadas com outras coisas maiores e mais urgentes, estas pequenas vitórias são uma espécie de poeira cósmica num universo de assuntos verdadeiramente preocupantes.

Querem um bom exemplo? Na cerimónia de entrega dos Óscares, há cerca de duas semanas, Chris Rock brincou com os exageros e do quão patetas podemos parecer ao defender a igualdade suprema. Referindo-se à polémica de não haver atores negros entre os nomeados às principais categorias deste ano, o apresentador lançou: «Por que estamos a protestar? Essa é a grande questão. Estamos na 88.ª entrega de prémios. O que significa que essa conversa toda de nomeados negros aconteceu, pelo menos, 71 vezes. E os negros não protestaram. Porquê? Porque tínhamos outras coisas mais importantes para nos revoltar. Estávamos muito ocupados a ser violados e linchados para estar ralados com o vencedor de melhor direção de fotografia.» Visto assim, do outro lado do oceano, num evento que atrai a atenção de milhões de pessoas, tem outra piada, não tem? E ajuda a perspectivar um pouco a coisa, não ajuda?

Há que ter cuidado no uso das palavras. «Discriminação» é um palavrão danado. Que se deve usar com alguma parcimónia, para não perder força. «Discriminação» é uma das minhas filhas não ser aceite num emprego porque é mulher ou receber menos do que um colega porque ele é homem. O resto são minudências. E não tentem explicar que tudo isto começa nos brinquedos dos filhos. Não é verdade. Começa é na educação dos pais.

[Editado e aumentado. A versão original desta crónica foi publicada na edição em papel, a 6 de março de 2016]