Um dia, no mundo dos brinquedos, os rapazes vão deixar de ser meros figurantes

Um corredor inteiro e nada. Outro corredor, nada. Mais um, zero. E outro. E mais outro. Aqueles eram os corredores concentrados no mesmo sítio, naquela zona cheia de pais de olhos cansados a querer despachar as compras. Muitos ao lado de crianças de olhos esbugalhados, pequenos Aladinos hipnotizados na gruta de Ali Babá. Ali, naquelas dezenas de metros quadrados de gente a acotovelar-se a comprar brinquedos para o Natal, não vi nada.

Em vários locais do hipermercado de onde acabara de sair havia também pequenas ilhas, boxes, topos de corredor, bancas e outras estruturas. E aí, também… nada. Em todas aquelas caixas, embalagens, sacos, formas e luzes… nada! Em todos aqueles bonecos, construções, animações e simulações… nada.

Não vi uma única vez um bebé, um boneco, um brinquedo que pusesse o homem no centro da vida familiar. Vi dezenas de brinquedos com bebés e em nenhum deles era o rapaz a assumir papéis de cuidador sem uma potencial mãe por perto. Vi caixas com meninos em contexto familiar, ao lado de meninas que seguravam bonecos. Mas não vi caixas onde houvesse apenas um rapaz e um bebé.

E isto nada tem que ver com famílias monoparentais. Não é disso que se trata aqui. Vocês sabem do que falo aqui. Há bonecos que fazem xixi. Água por uma pequena abertura nas costas, pilhas lá dentro, botão ligado e, quando se pressiona uma certa zona do corpo de plástico, a água sai diretamente para um pequeno bacio (vão por mim, façam isso em cima de uma toalha, porque vão ficar com a casa cheia de poças).

Há bonecos que gatinham. Há bonecos que fazem bolhas com a boca. Há bonecos a que se pode mudar a fralda. Há bonecos que vêm com carrinho de bebé para as crianças passearem pela casa ou na rua. Há bonecos e bonecas a que podemos prender às costas uma pequena mochila com pequenos livros. E há, claro, bonecos bebé que dizem «mamã». Ou «mamã, tenho fome». «Mamã, tenho sono.»

Mas não há bonecos que dizem «papá». Admito que possa ter visto mal ou, tal o cansaço, já não tenha conseguido ver a ilha da tentativa de igualdade de género no meio do oceano de brinquedos que levam a parentalidade apenas numa direção: a da maternidade. Bebés são coisa de menina, não são coisa de rapaz.

Já nem falo na escolha de cores: brinquedos cor-de-rosa para elas, azuis para eles. Nisso, na escolha cromática, os designers dos fabricantes de brinquedos já vão ensaiando uns tons neutros para as meninas que gostam de oficinas e para os meninos que gostam de cozinhar. Mas são caso raro. Também não falo das tábuas de passar a ferro, panelas ou pequenos aspiradores.

Nesses, já se pode ver alguns meninos nas embalagens, passando a ideia – certa, corretíssima – de que tratar de coisas em casa é tarefa deles e delas. Do que falo, mesmo, o que me irrita, a sério, é tentar encontrar – e não o conseguir – as bonecas que digam «papá» e que mostrem rapazes nas embalagens a cuidar dos bebés, para que os miúdos entendam desde cedo que tratar dos filhos é brincadeira boa para eles também. E que isso não se resume a fazer festas aos irmãos mais novos quando estes são recém-nascidos.

Os brinquedos imitam a realidade que as crianças se habituam a ver nos adultos e têm também por isso uma forte componente aspiracional: recriam o que elas, crianças, esperam um dia alcançar (pelo menos enquanto não viram mundo suficiente e aprenderam quanto baste para fazerem mais tarde as escolhas que lhes apetecer). Mas nisso a realidade já deu um passo maior.

Há mais pais, homens, a chegarem-se à frente nos cuidados neonatais do que brinquedos a espelhar isso. O que revela uma grande, enorme, valente falha dessa indústria: além de atrasados, não estão a conseguir contribuir para educar melhor. Ora, para que serve um brinquedo senão para isso mesmo? Para estimular a criança e ajudar à sua educação.

Um dia, no mundo dos brinquedos, as coisas vão mudar: tratar de filhos vai deixar de ser tarefa exclusiva das meninas e os meninos vão deixar de ser meros figurantes nas caixas. Porque um dia, mais tarde, tratar de filhos vai deixar de ser brincadeira. Vai ser a sério. E é bom que todos se habituem desde cedo a fazer tudo. Meninos e meninas. Se queremos tarefas unissexo, temos de ter brinquedos unissexo. Senhores fabricantes, ponham lá isso em prática de uma vez.