Bullying: e se fosse consigo?

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No Dia Mundial de Combate ao Bullying que hoje se assinala, importa dizer que o bullying não é apenas uma fase passageira, não acontece só aos outros e não se resolve sozinho. É preciso haver quem dê a cara por ele. E sobretudo voz às vítimas.

Texto de Ana Pago

No quarto, fechada do mundo, com medo de falar fosse a quem fosse, Joana Lucas chorava sozinha. “Tinha 9 anos quando entrei para a preparatória numa escola em Sintra e o bullying começou sem eu saber porquê. Sem saber sequer que aquilo era bullying”, conta a jovem atriz de 18 anos, personagem do elenco principal da novela Paixão (da SIC). Até aos 12 anos foi sempre a escalar: que não era suficientemente bonita para estar num grupo; que era betinha e tinha pais surdos e fazia cábulas e o diabo a quatro. O coração passou a bater-lhe alvoroçado até mesmo a ouvir os sons mais inocentes: o toque de um telemóvel perto, a campainha da porta, armários a fecharem-se em casa como as bofetadas que chegou a levar: pás, pás. “Tornou-se insuportável.”

Achar que o bullying é coisa de miúdos não pode, nunca, legitimar a violência.

Infelizmente, este tipo de comportamentos “são comuns na vida dos nossos jovens e sempre existiram nas escolas e demais contextos em que os miúdos interagem”, lamenta o psicólogo Luís Fernandes, a trabalhar nas áreas da prevenção, combate e intervenção no bullying e cyberbullying (assim chamado se as agressões ocorrem no ciberespaço). O facto de muita gente o descartar como brincadeira de crianças não pode, nunca, legitimar a violência. “Somos o 15.º país com mais relatos na Europa e América do Norte, a crer nos relatórios, o que nos deixa à frente dos EUA, palco de três quartos dos tiroteios em escolas registados no mundo nos últimos 25 anos”, alerta. O bullying não é apenas uma fase nem passa sozinho.

“Um em cada quatro jovens envolve-se em situações de bullying como vítima, agressor ou ambos – por exemplo, um aluno de 7.º ano que é vítima de um aluno do 9.º e vai agredir, ele próprio, um colega do 5.º”, explica Luís Fernandes, coautor dos livros Plano Bullying e Diz Não ao Bullying (em parceria com a investigadora Sónia Seixas) e Cyberbullying – Um Guia para Pais e Educadores (com Sónia Seixas e Tito de Morais, fundador do site MiúdosSegurosNa.Net). Outros dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância, divulgados em novembro de 2017, revelam que entre 31 e 40% dos jovens portugueses, dos 11 aos 15 anos, foram intimidados na escola pelo menos uma vez a cada dois meses.

No caso de Joana Lucas, fazia-se pequena a tentar que não a vissem – não outra vez, não ela: “Tentava agradar-lhes, integrar-me, dava a minha comida. E eles aceitavam-na e continuavam a troçar, ou então zangavam-se se me pediam algo que eu não tinha”, conta a jovem, a chorar enquanto fala. No 6.º ano, após umas férias no Norte com os pais, teve uma paralisia facial durante um mês – a sua pior fase de sempre sem contar com a das agressões físicas, nos últimos dias do preparatório. “Diziam que era tudo mentira, que só queria mascar pastilha. Chegaram a pôr-me um saco à volta da cabeça e a atirar-me bolas à cara para ver se funcionava.” Começou a cortar os braços com tesouras e a queimar as costas no banho para não sentir tanto a dor por dentro.

Para Joana Lucas há mágoas que nunca passam. Mas a vergonha e a culpa sim.

“Não sou maluca. Eu cortava e escondia para a minha família não sofrer comigo. Só queria um refúgio das minhas feridas emocionais e as físicas, de algum modo, aliviavam as outras”, confessa a atriz. Hoje em dia é a primeira a dar a cara publicamente para dizer que certas mágoas talvez nunca passem, mas a vergonha sim: “Pensava que era eu a culpada por ser como sou. Devia estar a provocá-los.” Perceber que os atos ficam com quem os praticam é o que a leva a querer dizer agora a outros que está ali, podem contar consigo, desabafem. “Ninguém no mundo merece passar por isto”, afirma, convicta de que as agressões só desaparecem se as pessoas falarem delas.

Foi justamente o que fez Nuno Markl, vítima assumida de bullying ao longo da infância e adolescência, ao elaborar um Breve Manual de Combate ao Bullying na sua página de Facebook. “Atravessei anos de impropérios e humilhação. Na altura, com muita pena minha, não se chamava bullying: não seria grande ajuda, mas pelo menos sempre era uma palavra estrangeira com o seu estilo, parecida com, sei lá, jogging”, brinca o humorista, adepto de se rir de si mesmo para ter – para terem todas as vítimas – a última gargalhada.

Com Conan Osiris (Tiago Miranda) é mais um tirar de chapéu aos palermas que o atacaram: depois de vencer o Festival da Canção e representar Portugal na Eurovisão 2019, o bullying leva-o a estrear-se no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, com um concerto a 12 de dezembro. “Parece redutor, mas foi o que originou. Todos os toques, apalpões, puxões de cabelo, baixares de cuecas, olhares, risos de escárnio, palavras e promessas de violência sexual e física modelaram-me exatamente no que sou hoje”, revela o jovem e talentoso cantor português, como lhe chamou o ex-vocalista dos Pink Floyd, Roger Waters. Ninguém gosta de ser visto como vítima ou de vir para a frente contar que lhe batiam, mas por isso é que Tiago o faz.

“Todos os toques, apalpões, puxões de cabelo fizeram de mim o que sou hoje”, diz Conan Osiris.

“Os agressores, com o tempo, irão entender que o que fizeram teve um custo, mesmo que esse custo seja ver quem agrediram passar-lhes à frente no jogo da vida”, desfere o artista. Nem se trata de mostrar que faz mal fazer mal – isso toda a gente sabe –, mas que quem faz o bem também vence. “Quando és criança há agressões vindas de todos os lados, dentro e fora da escola, desde dizerem que não podes ver Sailor Moon porque é de meninas até levarem-te ao médico porque não gostas de futebol.” Na parte que lhe toca, tem a preocupação diária de dirigir uma palavra de encorajamento e proteção aos mais novos, ou a quem é atingido por abuso: “Faço-o porque posso e sinto que é útil, e vejo a sua eficiência na maneira como o público se relaciona comigo.”

Uma curta rede de bons amigos também ajuda sempre neste processo, confirma Nuno Markl no seu Manual de Combate trágico-cómico: “Comigo não foi exatamente fácil, mas também não foi demasiado difícil porque eu tinha alguns escapes, a começar por amigos. Sei que às vezes parece que eles não existem e estamos sozinhos no mundo, mas há muita gente boa.”

Uma rede de bons amigos faz milagres contra o bullying, segundo o humorista Nuno Markl.

Daí ser tão necessário envolver as próprias crianças e jovens, a par dos adultos, na prevenção e resolução de conflitos. “Muitas vezes os pais e professores só notam que se está a passar alguma coisa grave quando observam os efeitos desta pressão a manifestarem-se sob a forma de fobia à escola, baixo rendimento escolar, doenças psicossomáticas e depressão”, sublinha a neuropsicóloga Tânia Paias, diretora do PortalBullying e autora de Tenho Medo de Ir à Escola (ed. Esfera dos Livros). Aqui, apesar de o sexo feminino ser menos dado à violência física do que os rapazes, “vemos cada vez mais raparigas como agressoras, o que traduz uma forma distorcida de afirmação perante o sexo oposto”.

Limitar a liberdade do outro, humilhá-lo ou atentar contra a sua vontade são sinais claros de que já não se trata de brincadeira. É para parar.

E sim, é um facto que sempre houve e continuará a haver lutas e brincadeiras agressivas ou de mau gosto: fazem parte da dinâmica infantojuvenil, não lhe parece problemático. “Já tudo o que limita a liberdade do outro, o humilha ou atenta contra a sua vontade são sinais claros para parar e pensar noutra forma de diversão”, avisa a psicóloga clínica, especialista em violência no contexto educativo. Quem sofre tem de poder dizer que não gosta, não quer mais, basta. “Isto faz-se envolvendo todos os agentes educativos em intervenções continuadas junto dos jovens, que os capacitem para a empatia, a cooperação, a entreajuda e a importância de relações saudáveis”, diz.

A pensar nisso a Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa (FMH), em parceria com o Instituto Português do Desporto e da Juventude, elaborou um manual de prevenção da violência na formação desportiva, destinado a orientar os dirigentes desportivos que queiram implementar uma política antibullying no seu clube. “Os agressores são descritos como ativos e com performance alta, fatores tendencialmente valorizados no contexto desportivo”, concluiu o psicólogo clínico Miguel Nery na sua tese de doutoramento Bullying no contexto da formação desportiva em Portugal – o maior estudo nacional sobre o tema.

Treinos, centros de estágio e o balneário distinguem-se como locais privilegiados para a ocorrência de episódios violentos, por haver menos controlo e o grupo estar em interação. Dados da pesquisa indicam ainda que 10% de um total de 1458 atletas assumiram já ter sido vítima de bullying, ao passo que 11,25% concederam ter participado como agressores. “É uma realidade nefasta, segregadora, que promove a exclusão de jovens atletas e o abandono desportivo”, observa o autor, lamentando que muitos treinadores e praticantes julguem necessário passar por ela para terem sucesso. “É preciso acabar com o silêncio, mudar práticas.” E sobretudo parar de não fazer nada para ajudar a achar que seria muito pouco.

ELAS TAMBÉM DÃO A CARA POR ESTA CAUSA

Sempre que as pessoas falam, estão a contribuir para acabar com agressões de natureza física e emocional.

Demi Lovato
O bullying entrou na vida da cantora quando ainda não se falava dos efeitos devastadores nas vítimas, mas Lovato não se cala: “Houve uma petição na escola para que eu me matasse e muitos assinaram. Eram coisas maldosas, de revolver o estômago”, contou em entrevista à jornalista Tracy Smith, da CBS. “Também havia uma ‘parede do ódio à Demi’ numa casa de banho, com várias nojices escritas. Acabei por ter aulas em casa.” Hoje Lovato está bastante envolvida na causa do bullying, falando do que passou na adolescência para ajudar outros jovens.

Millie Bobby Brown
A estrela de 15 anos da Netflix fala de bullying e cyberbullying sempre que pode, já que ela própria se sentiu perdida nesse papel: “Tive de lidar com situações de partir o coração tanto na vida real como online”, admite a Eleven de Stranger Things. “As pessoas recebem tanto amor nas redes sociais, mas apenas estão focadas no ódio.” Aos 7 anos, a mais jovem embaixadora da Unicef teve de mudar de escola por ser constantemente intimidada por um colega. “Agora só quero mostrar a quem sofre que partilhar as suas experiências com os outros ajuda.”

Kate Middleton
Aos olhos de algumas alunas do colégio Downe House, em Berkshire, Kate era uma adolescente demasiado magra, demasiado tímida e demasiado perfeita (o que quer que isso signifique), transformando-a em alvo da inveja das outras até não conseguir suportar mais ataques. Em entrevista ao jornal The Sun, a colega Jessica Hay contou que as outras meninas chegaram a pôr fezes na cama da Duquesa de Cambridge, que desenvolveu eczema e já mal comia devido ao stress emocional intenso. Atualmente é das maiores benfeitoras de crianças e jovens em risco.

Miley Cyrus
Conhecida por não ter papas na língua, a musa teen fala abertamente do bullying severo que sofreu na escola, sempre solitária, triste e sem amigos que a defendessem do grupo de raparigas mais velhas que a perseguiam constantemente. “Eu era magrinha e pequena, elas duronas e bem maiores do que eu. Se quisessem, podiam magoar-me a sério”, recorda a cantora no livro Hannah Montana e Eu, garantindo que nunca se vai esquecer daquela angústia.

Jessica Alba
Quem a vê confiante e escultural não imagina o quanto a atriz sofreu na escola ao mudar-se para Los Angeles. “Era extremamente tímida, desajeitada, tinha os dentes grandes e um sotaque texano pronunciado”, disse ao The Mirror Jessica Alba, acossada por viver num apartamento pequeno e não ter dinheiro para roupa ou mochilas bonitas. “A discriminação era tanta que o meu pai me levava à escola para não ser importunada no caminho, e almoçava na enfermaria para não ter de me sentar com as outras crianças.”

MEDIDAS PRÁTICAS DE COMBATE AO BULLYING

Antecipe
A melhor forma de se prevenir e intervir na área do bullying é fazê-lo o mais precocemente possível, de preferência antes de se manifestarem os primeiros sinais de prepotência ou submissão que podem indiciar abuso de poder ou vitimização, respetivamente.

Sinais
Estudos revelam que mais de 60% das vítimas de bullying não contam aos pais nem aos amigos o que estão a sentir, embora haja certos alertas recorrentes que passam por isolamento, descida brusca das notas (mesmo em bons alunos), alheamento da realidade e da família, rejeição do telemóvel. Não os ignore.

Converse
Pode não ser fácil chegar ao seu filho, se for adolescente e não tiverem o hábito de falar em família, mas deixá-lo sozinho não é opção. Tente sondá-lo sem interrogatórios, com calma, mostrando-lhe que está ali e quer ouvir o que o magoa. Nunca lhe diga coisas como “ignora”, “tens que te defender” ou “estás a ser dramático”, já que corre o risco de ele preferir sofrer em silêncio.

Envolva
É essencial definir um projeto que abarque desde o pré-escolar ao final do secundário e envolva toda a comunidade educativa. Sabe-se que escolas/agrupamentos que desenvolvem um programa antibullying junto das suas turmas, e olham para os encarregados de educação como elementos fundamentais nesta problemática, conseguem reduzir os índices de bullying em pelo menos 50%.

Agressores
É tão importante trabalhar com os agressores como com as vítimas, dado muitas vezes eles próprios serem vítimas de ambientes agressivos e até de violência física em contexto familiar. Expostos a situações difíceis protagonizadas por adultos de referência, alguns jovens acabem por replicá-las.

Cyberbullying
Não sendo possível ou recomendável proibi-la, importa fazer uma utilização consciente da tecnologia. O livro Cyberbullying – Um Guia Para Pais e Educadores de Tito de Morais, Sónia Seixas e Luís Fernandes (Plátano Editora, 2016) lança um pouco de luz sobre o tema e ensina a prevenir, identificar, intervir e combater a violência online.

Atenção
A vivência online de crianças e jovens começa em casa e é um processo dinâmico e contínuo, pelo que os adultos devem tentar manter-se a par das novidades e educar os filhos para os benefícios e riscos a que podem estar expostos no ciberespaço.

Ajuda
Se for vítima da partilha indevida de imagens pessoais ou conhecer alguém a passar por essa situação, contacte a Linha Ajuda do Centro Internet Segura: 800 21 90 90. Pode ainda ligar para a Linha da Criança (Provedor de Justiça): 800 20 66 56. Ou para a APAV – Associação Portuguesa de Apoio à Vítima: 707 200 077. Que ninguém deixe de denunciar a violência. Tanto é agressor quem bate como quem assiste sem intervir.