Cancro: os 8 maiores mitos que a ciência não valida (nem nega de vez)

A vida é demasiado curta para se viver com medos, sobretudo de uma doença tão pesada como o cancro. E isto quando a própria ciência não lhes encontra fundamento, mas também não consegue desmistificá-los para lá de qualquer dúvida.

Texto de Ana Pago | Fotografias da Shutterstock

SUTIÃS

O sutiã pode provocar cancro da mama. Sobretudo se for apertado ou dormir com ele vestido. Este é um dos maiores mitos relativos ao cancro, mas nunca houve evidências científicas que o sustentassem. Um casal de antropólogos, Sydney Ross Singer e Soma Grismaijer, chegou a ir às ilhas Fiji em 1991 para tentar provar o impacto desta peça ocidental nas nativas. Escreveu inclusive um livro, Dressed to Kill (Vestidos Para Matar), mas nunca pôde publicar nada em revistas médicas por falta de provas.

DESODORIZANTE

Igual alarmismo em relação aos desodorizantes deixou muito boa gente à beira de um ataque de nervos, presa à ideia de que o alumínio iria impedir o organismo de eliminar toxinas e entupir os gânglios linfáticos, causando cancro da mama. Na prática, o que o alumínio bloqueia é a ação das glândulas sudoríparas, não dos gânglios linfáticos, o que deita a teoria por terra. Além de este tipo de cancro começar no peito antes de poder espalhar-se até aqueles e não o contrário.

MICRO-ONDAS

É o eletrodoméstico mais utilizado nas cozinhas de todo o mundo, incluindo nas de quem se recusa a mexer no fogão alegando não ter tempo para cozinhar. E não, não provoca cancro devido às radiações que liberta – os níveis de um micro-ondas a funcionar em condições são muito inferiores aos que causariam dano ao utilizador –, nem torna a comida carcinogénica. «Cozinhar no micro-ondas não faz mal à saúde nem altera a estrutura molecular dos alimentos. Talvez até os degrade menos por estarem menos tempo a cozinhar do que numa fonte de calor normal», desmistifica Amélia Pilar Rauter, especialista em Química Orgânica de Produtos Alimentares na Faculdade de Ciências de Lisboa.

WI-FI

Este é um mito recente – ao contrário do do micro-ondas, que tem barbas – e surgiu porque a Organização Mundial de Saúde o classificou como um possível carcinógeno (sublinhe-se o possível), apesar de nenhum estudo a nível internacional o ter ainda corroborado. «O Wi-Fi não está disseminado há tanto tempo como os telemóveis, pelo que não temos o mesmo conhecimento em relação a ele», ressalva David Currow, diretor executivo do Instituto do Cancro da Nova Gales do Sul, Austrália. «Seja como for, estamos confiantes de que a potência das emissões eletromagnéticas é tão baixa [0,1 watts] que não acarreta danos», acrescenta.

TELEMÓVEL

É outra coisa que a OMS afirma poder causar cancro no cérebro (sem certezas, simplesmente mais vale prevenir), razão por que coloca a radiação emitida pelos telemóveis na mesma lista em que figuram o chumbo, o clorofórmio e os fumos dos motores. Lógico que se aconselha uma utilização sensata dos aparelhos, reduzindo a duração das chamadas e recorrendo a auriculares. Ainda assim, diversos especialistas e estudos sublinham não ter sido descoberta qualquer relação conclusiva entre o uso do telemóvel e a incidência de tumores cerebrais.

PROTETOR SOLAR

São também muitos os estudos que indicam que a utilização diária de protetor solar é fundamental para reduzir os riscos de cancro de pele, embora uma pessoa fique na dúvida sobre se será seguro aplicá-lo ao ouvir a top model brasileira Gisele Bündchen questionar-se a este respeito. E a resposta é: sim, é seguro. «Seria preciso uma pessoa de 277 anos usar um protetor com 6 por cento de oxibenzona [químico que ajuda a barrar os raios UV] todos os dias para causar problemas», sublinhou à revista Marie Claire Heidi A. Waldorf, reputada especialista em dermatologia e cosmética do Hospital Mount Mount Sinai, em Nova Iorque. Outras pesquisas sugerem que o dióxido de titânio e o óxido de zinco são seguros enquanto ingredientes dos protetores solares.

BEBIDAS DIET

O mito de que os adoçantes artificiais e refrigerantes light provocam cancro no cérebro espalhou-se como um rastilho de pólvora, mas parece que afinal não. Não é que façam maravilhas pela saúde ou deixem de ser potencialmente tóxicos, como muitos especialistas acreditam. Porém, no que se refere à questão específica do cancro, a polémica só surgiu porque cientistas submeteram ratos de laboratório a quantidades que nenhum humano alguma vez consumiria, o que corta logo o mal pela raiz.

PLÁSTICOS

E eis que chegamos às tão temidas garrafas, copos e embalagens de plástico, que muita gente pensa que, ao serem aquecidos, irão libertar componentes químicos nos alimentos ou bebidas que contêm, causando danos no fígado e cancro. De facto, tanto o portal de saúde Cancer.org como a US Food and Drug Administration (entidade que regula a venda de alimentos e medicamentos nos EUA) admitem que algumas substâncias podem ser transferidas, mas sempre em valores muito abaixo margem de segurança. Usar recipientes próprios no micro-ondas é importante para evitar intoxicações e incêndios, não pelo risco de cancro.