Cancro da mama: Como um trauma pode mudar a vida para melhor

Catarina Ramos é psicóloga e investigadora. A sua tese de doutoramento sobre o crescimento pós-traumático em mulheres que superaram um cancro da mama valeram-lhe a distinção com o Prémio ISPA 2018. Como é que um trauma pode operar uma transformação interior?

Entrevista de Catarina Pires | Fotografias de Leonardo Negrão/ Global Imagens

Foi distinguida com o Prémio ISPA 2018, pela sua tese sobre crescimento pós-traumático em mulheres com cancro da mama. Quando se supera um cancro da mama, que transformações psicológicas podem operar-se?
O crescimento pós-traumático pode acontecer na sequência de qualquer acontecimento traumático, mas eu estudei- -o no cancro da mama. Após o diagnóstico, compreendido como um marco, aquilo que mudou a vida, a mulher pode percecionar uma mudança nas suas crenças e princípios orientadores de vida. Nós acordamos todos os dias a pensar que o amanhã vai ser igual e perspetivamos o nosso dia-a-dia de acordo com princípios orientadores de conforto, segurança, estabilidade, e quando se dá um acontecimento traumático, como um cancro da mama, esses princípios podem ser desafiados.

Em que sentido?
Podemos começar a olhar para a vida de uma forma diferente, perceber que amanhã posso não estar cá, que de um dia para o outro tudo pode mudar, que a vida é imprevisível e que estou vulnerável a essa imprevisibilidade e é através desta cognição que pode ocorrer o crescimento pós-traumático. Ou seja, depois de a mulher com cancro da mama perceber esta desestabilização da vida, todo o processo (cognitivo, individual e social) subsequente – o pensar sobre a doença, os pensamentos negativos e positivos, as relações que vai estabelecendo com os outros – pode levar a que experimente este crescimento pós-traumático.

Torna-se claro para as mulheres as relações que são investidas de ambas as partes, seja com os amigos, com a família ou com o parceiro, e as que não são.

Que consiste em quê?
Que se define como a perceção de mudanças positivas em várias áreas da sua vida como resultado deste esforço individual em lidar com determinado acontecimento traumático. Pode manifestar-se ou não e pode manifestar-se num aspeto ou vários. Por exemplo, e este é o mais frequentemente relatado na literatura e foi o que mais encontrei no meu estudo, a clarificação das relações – tornar-se claro para as mulheres as relações que são investidas de ambas as partes, seja com os amigos, com a família ou com o parceiro, e as que não são. Outro aspeto é uma maior valorização da vida, apreciar melhor cada dia e perceber o que é realmente importante. E ainda a perceção do seu valor pessoal: «Se fui capaz de lutar contra esta doença, sou capaz de muito mais.»

Mas nem sempre se verifica, pois não?
Não, e é importante que fique claro, nem toda a gente que passa por um acontecimento traumático como o cancro da mama experiência este crescimento, que é uma transformação pessoal. Ou seja, não se trata apenas de resiliência, de a pessoa conseguir lidar com o trauma, trata-se de conseguir transformar-se a partir deste.

A psicóloga Catarina Ramos gostaria que existisse mais formação em Portugal sobre o crescimento pós-traumático.

E o que pode levar a que umas pessoas experimentem este crescimento pós-traumático e outras não?
Há vários fatores: a literatura diz-nos que, por exemplo, a idade mais jovem ou uma maior escolaridade podem estar relacionados com um maior crescimento pós-traumático. Todo o contexto em que a mulher está inserida pode interferir, não no crescimento em si, mas no processo cognitivo que pode levar ao crescimento, assim como a própria personalidade, os fatores pessoais, sociais, clínicos, práticos, do estádio da doença, dos tratamentos. Claro que um suporte social adequado, uma rede médica de qualidade, são fatores que podem interferir favoravelmente. Em relação aos fatores clínicos, há alguns estudos que indicam que mulheres que fizeram mastectomia têm maior probabilidade de experimentar um crescimento pós-traumático.

Isso é surpreendente. Quer dizer que um trauma maior pode levar a mais crescimento?
Sim. A severidade do acontecimento está associada a uma maior probabilidade de desenvolver esta transformação pessoal. Porém, os aspetos positivos e negativos do trauma podem ser percebidos em simultâneo e, por isso, ambos podem ser alvo de acompanhamento psicológico.

Como é que esse acompanhamento psicológico pode ser prestado no sentido de potenciar a transformação pessoal?
No estudo que realizei, foi efetuada uma intervenção em grupo, mas, para além disso, acompanhei as mulheres em três sessões individualmente, e consegui perceber que muitas já tinham percebido determinadas mudanças positivas em vários níveis e que faltava a validação e a compreensão desta experiência por um profissional de saúde.

Essa é uma falha no acompanhamento das doentes com cancro da mama?
O foco, tanto no meio envolvente como entre os próprios profissionais de saúde, está no tratamento, nos efeitos secundários. As mudanças positivas que podem acontecer enquanto a mulher luta contra um cancro da mama precisam de validação para potenciar um melhor ajustamento à doença e isso pode ser feito na consulta individual, no hospital ou no centro de saúde desde que os médicos e, neste caso, os psicólogos tenham a informação, a formação e a disponibilidade para fazer essa validação.

E têm?
Em Portugal ainda não existe e era isso que eu gostaria que mudasse. Lá fora, já há uma terapia com base no crescimento pós-traumático (do professor Richard Tedeschi), para o terapeuta poder potenciar e validar este crescimento. Foi com base nessa terapia que construímos esta intervenção em grupo, para perceber, então, se a mesma podia facilitar o crescimento pós-traumático. E concluí que sim. Houve três avaliações, o baseline, outra seis meses depois (após o fim da intervenção) e a última, outros seis meses depois. Verificou-se um aumento do crescimento pós-traumático nos seis e nos doze meses, mas o maior aumento foi nos seis. Apesar do aumento significativo, os resultados indicaram que há outros fatores, nomeadamente o suporte social ou as condições clínicas, que podem interferir neste crescimento.

A intervenção em grupo é mais eficaz do que a individual?
A intervenção em grupo tem vantagens não só para o doente como para os hospitais, desde logo no que respeita ao custo-benefício. O efeito de grupo e de partilha de histórias – que as faz sentirem-se apoiadas, entendidas, porque é mais fácil falar de alguns assuntos com alguém que já passou pelo mesmo – pode acelerar a diminuição de sintomas de depressão, da ansiedade e do stress e também promover o crescimento pós-traumático. Vários estudos indicam que a intervenção em grupo, em comparação com a individual, é mais eficaz na diminuição dos níveis de stress e ansiedade. Em termos de crescimento pós-traumático, esta intervenção mostrou-se eficaz no sentido em que as mulheres que participaram, em comparação com as que não participaram, tiveram uma maior perceção das mudanças positivas, ou seja, tiveram um crescimento pós-traumático após a intervenção.

Os hospitais públicos portugueses estão preparados para implementar isto?
Existe ainda um longo caminho para que seja uma prática efetiva, ao nível do acompanhamento psicológico que é fornecido aos doentes. Ainda estamos a dar os primeiros passos no que respeita a crescimento pós-traumático, enquanto lá fora, sobretudo nos EUA, já é um conceito muito comum. E não seria necessário a introdução desta terapia como terapia diferente, bastava uma maior formação dos profissionais de saúde para estarem informados, alertados e incluírem este conteúdo nas suas práticas.

Desenvolveu o seu trabalho em quatro instituições públicas e uma privada. Notou diferenças?
Não necessariamente. Aquilo em que notei diferença, em termos informais, foi que, nas instituições que dispunham de todos os serviços no mesmo local, o envolvimento dos profissionais e dos doentes em todo o processo era muito mais fácil, mais fluido, mais orgânico. Se agilizarmos as questões práticas, tudo o resto, todos os aspetos, psicológicos e vivenciais, podem ser trabalhados mais eficazmente.

Muitas mulheres que passaram por isso dizem-me: «Eu agora estou a cuidar de mim, estou a olhar para mim.» Isso é muito importante.

Como se supera o medo de a doença voltar, a sensação de viver para sempre com uma espada de Dâmocles sobre a cabeça, uma bomba-relógio dentro do corpo?
Essas expressões são utilizadas muitas vezes. Quando as ouvimos, podemos perceber o que está por detrás, mas vivê-lo é perceber-se vulnerável, perceber que de um dia para o outro tudo pode mudar. Muitas vezes, esse medo é o que mais acompanha as mulheres após os tratamentos. Durante os tratamentos, as mulheres estão muito focadas na sobrevivência, em fazer tudo o que está ao seu alcance para vencer a doença. Depois, findos os tratamentos, a mulher começa a ter uma maior disponibilidade mental para pensar nessas questões e o medo e a preocupação com a doença são os dois fatores que podem causar mais ansiedade ao longo do tempo.

E como se vence isso?
Esse medo pode acompanhar sempre os doentes com cancro, com mais ou menos intensidade, de acordo com a personalidade, o suporte social, as caraterísticas da doença e as fases específicas da mesma. Ou seja, esta ansiedade é flutuante, mas o acompanhamento psicológico, que inclua técnicas cognitivo-comportamentais de base, pode ser uma ajuda efetiva para ajudar a identificar os pensamentos que aumentam a escalada de ansiedade ou a pôr em prática técnicas comportamentais de gestão da ansiedade.

Que conselho daria a uma mulher que está a passar por um cancro da mama?
Muitas mulheres que passaram por isso dizem-me: «Eu agora estou a cuidar de mim, estou a olhar para mim.» Isso é muito importante. É importante que as mulheres aproveitem a doença para ter tempo para si. Não pretendo, com isto, desvalorizar os aspetos negativos da doença nem as repercussões que estes podem ter, mas é o momento de as mulheres se colocarem a si em primeiro lugar e conseguirem integrar a doença na sua narrativa, naquilo que foi, que é e que vai ser, e poder seguir em frente. Poder ser, amanhã, não a «Joana com cancro», mas a «Joana que passou por um cancro, mas que é profissional, que é mãe, e que quer ser avó». Ao enquadrar aquela experiência na própria história de vida, esta não se torna a história de vida, mas uma parte, integrada, com o bom e o mau. E isso é fundamental para a mulher conseguir avançar e ter um projeto de vida e de existência mais congruente consigo própria.