Carta aberta ao Valete

Caro Valete,

Enquanto psicóloga, e é nessa qualidade que lhe escrevo, ouvi falar de si através de diversas crianças e jovens, que me mostraram alguns dos seus vídeos. Vi vários deles e chamou-me à atenção o “BFF”, aquele em que um homem avança pé ante pé de caçadeira na mão, apanhando a namorada em fragrante delito com o seu melhor amigo na cama.

A caçadeira é apontada a ambos de forma explícita e acaba por disparar sobre o homem, o amigo traidor. Afinal era tudo um pesadelo. Ou não, tendo em conta o amigo nu que sai de dentro do armário, cúmplice da mulher adúltera. A acompanhar estas imagens que associam traição, vingança, violência e morte, um vernáculo a condizer, pois claro.

Por outro lado, há poucos dias, ouvi o seu discurso dirigido a algumas feministas que acusa de serem burguesas, popstar e de se escudarem atrás de um sofá ou de um teclado, fazendo aquilo que chama de feminismo de mãos limpas. Quer com isto, penso eu, alertar para a situação grave de tantas e tantas mulheres negras e socialmente excluídas que, nos dias de hoje, vivem nos subúrbios de Lisboa, e não só, verdadeiras escravas de uma vida de trabalho indiferenciado e de violência doméstica. Neste contexto, acusa algumas feministas de quererem apenas beneficiar desta bandeira, desvirtuando a verdadeira causa subjacente.

Percebi que, apesar de não se assumir como um músico que compõe para as gerações mais novas, estas ouvem-no e seguem-no, o que acaba por influenciar a sua forma de pensar e agir. Ouvi os comentários dos mais jovens, e admito que alguns deles me deixaram francamente preocupada. Por isso decidi escrever-lhe, de forma aberta.

Antes de mais, dizer-lhe que não me assumo como feminista, pelo menos não como as que descreve. Penso que sou apenas alguém que defende e luta pelos direitos humanos, de formas diversas. Os direitos dos homens e das mulheres, das crianças e dos adultos, independentemente da sua origem populacional (e estou de forma intencional a não usar o termo “raça”).

Percebo, por tudo o que já li, que aquele vídeo e letra pretendem, afinal, ser uma obra de arte, alertando, de uma forma nua e crua, para a realidade da violência no contexto das relações de intimidade. Uma realidade que diariamente nos confronta com novas mortes, a maioria de mulheres, é certo, mas também de homens (estas sempre menos mediatizadas). Uma violência legitimada por crenças e atitudes que, acredito, não são partilhadas por si.

Sem querer ser pretensiosa, penso que percebo o seu ponto de vista. Sendo um influencer, no contexto de uma cultura rapper, tem a possibilidade de aproveitar este poder e usar a música como forma de transmitir ao mundo diversas mensagens. O poder de agitar consciências e meter as pessoas a pensar, ao invés de se limitarem a seguir o rebanho. Assim, a mensagem que passa depende, acima de tudo, da forma como nos apropriamos da obra. E uma forma de a interpretar seria quase como se de um choque electrico se tratasse. Atenção, que é isto que se passa! No fundo, um processo de condicionamento aversivo (um murro no estômago) que pode levar-nos a reflectir e a condenar uma realidade que sabemos que existe, mas poucos conhecem de uma forma tão crua.

Mas, e se as pessoas que recebem esta mensagem não tiverem ainda a capacidade para pensar desta forma? Se as pessoas que assistem a entenderem, pelo contrário, como uma forma de legitimar o recurso à violência, punindo a mulher adúltera?

Li algures que afirmou que este vídeo teria uma continuação, pelo que pecamos todos ao criticar a parte, quando ainda não vimos o todo. No entanto, enquanto psicóloga (reforço a ideia de que não falo enquanto mulher), quero pedir-lhe algo. Que a sequela deste vídeo traduza exactamente o que mais queremos combater.

Queremos combater as crenças disfuncionais sobre a violência, que fazem acreditar que violência pode ser justificada em função do comportamento da vítima, que a violência deve ser preservada na privacidade da relação, que a violência pode ser influenciada por causas externas e fora do controlo do agressor e, ainda, que o comportamento do agressor pode ser justificado.

Queremos que as vítimas reconheçam a existência de uma condição de vitimização e não sintam vergonha ou medo em pedir ajuda.

Queremos que os agressores sejam responsabilizados e, ao mesmo tempo, possam também ser ajudados a mudar.

Valete (permita-me que o trate desta forma), é um ídolo para muitos miúdos que seguirão, sem pensar, as mensagens que lhes transmitir. Ajude-os a interiorizar as mensagens correctas e a prevenir a violência no namoro, um preditor muito significativo da violência nas relações de intimidade adultas.

Trabalho com pessoas escravas em pleno ano de 2019, porque há muitos e muitos tipos de escravatura. Por isso percebo de quem fala. Que a cultura em que se move seja apenas mais uma forma de luta contra as desigualdades e a violência. Seja sobre quem for.

Muito obrigado,

Rute Agulhas