Carta de uma mulher violada

«Fui violada e gostaria de explicar essa experiência. Porque é, de facto, uma experiência que deve ser partilhada com todos aqueles que nunca a vivenciaram.

Mas antes, uma nota importante. Por acaso sou mulher, e fui violada por dois homens. Mas poderia também ser um homem e ser violado por homens ou por mulheres. O sexo aqui não é o mais relevante. Quer dizer, é, mas não o sexo biológico das pessoas envolvidas. Por isso, peço que leiam esta carta sem se focarem no facto de eu ser mulher e os agressores serem homens.

Dito isto, avancemos.

Fui sair, dançar, divertir-me. E gosto de beber. Pois é, o álcool tem este poder de me libertar e fazer sentir leve. Desinibida, solta, com vontade de abraçar o mundo.

O mundo, não os homens todos.

Bebi de mais, admito. Como já várias vezes me aconteceu, mas um copo leva ao outro, e a outro… e quando percebi tinha já ultrapassado os limites.

Dores de cabeça, tonturas, vómitos. O cocktail habitual e quem, por vezes, bebe em excesso sabe do que falo.

Afastei-me da multidão e procurei um local mais sossegado. Onde me pudesse sentar ou, mesmo, deitar. Descansar a cabeça, esperar que tudo deixasse de girar à minha volta.

Encolhida num canto, de olhos fechados para tentar conter as náuseas, penso em como precisava de um bom banho de água gelada. Perdida nestes pensamentos confusos (confesso que apenas me recordo de parte deles), ouço passos que se aproximam e sinto algum alívio. Talvez me ajudem a chegar até casa. Talvez me ajudem a sentir melhor. Que bom.

As vozes aproximam-se e vejo dois vultos. Turvos, grandes, parecem dois homens. Que riem e fumam. Falam entre si algo que não consigo perceber.

Sinto um toque, no braço. Parece que estão a tentar levantar-me. Tento corresponder e fazer força nas pernas, mas nada. Nem se mexem. Pareço aqueles animais desajeitados que tentam meter-se de pé, mal acabam de nascer.

Sinto outro toque, no outro braço, e sou levantada em braços por estes dois homens. Fortes, penso eu. Sinto-me a flutuar.

De repente, caio numa coisa mole. Percebo que deve ser um sofá, ou algo do género. E que bem me sinto, deitada em algo quente.

As vozes continuam, os risos também, e percebo que mãos entraram dentro da minha blusa. Afastam o soutien e esfregam-se no meu peito. Outras mãos mexem-me nas calças, nas pernas. Tantas mãos. Sinto-as em todo o lado.

Tento dizer alguma coisa, mas as palavras não saem da minha boca. Saem apenas uns sons estranhos, que nem eu mesma consigo perceber. Estou cada vez mais despida, tento levantar-me, mas não consigo. Mãos e braços mantêm-me quieta, baixam-me as calças, as cuecas. Os risos aumentam e sinto que algo está a entrar dentro de mim. Dói. Magoa.

Tento gritar, mas não sai nada. Sinto-me tonta, confusa, mas o que raio é isto que me está a acontecer? Uma e outra vez, durante um tempo que me parece infinito, sinto isto. Ouço-os a rir, já gargalhadas, misturadas com outros sons que não entendo. Sinto dores, um pouco por todo o lado. Confusão. Vejo tudo nublado.

Acabou. Estou sozinha novamente. Meio despida, deitada num sofá quente que agora me queima a pele. Não consigo levantar-me, toda eu tremo. Vomito e ali me deixo ficar até que alguém me resgate. As lágrimas molham-me a cara.

Para quem nunca passou por esta experiência, aqui fica o relato na primeira pessoa.
Eu queria sair, dançar, divertir-me. Beber também. Mas não queria sexo, pelo menos não desta forma.

Não me recordo de alguma vez terem perguntado se eu queria.

Tenho a certeza que não iria entender sequer essa pergunta.

Não me recordo de alguma vez ter dito que queria.

Sei que não iria conseguir responder, com a certeza do que respondia.

Se fiquei com lesões? As físicas são poucas, é verdade. As outras? Pois, essas… essas não aparecem nos relatórios médicos. Não são visíveis aos olhos.

Como me sinto? Vergonha, acima de tudo. Também tristeza, zanga, revolta, medo. E nojo, muito nojo.

Como vejo o meu futuro? Pois, não sei bem. Confuso e, acima de tudo, diferente. Será que alguma vez poderei voltar a sentir-me como antes? Confiar nos outros? Confiar no mundo?»

A violação é um crime, e disso não subsistem dúvidas.

O abuso sexual de pessoa incapaz de resistência também, agravado pelo facto de a pessoa estar isso mesmo, incapaz de resistir.

Não resistir não é igual a querer e consentir.
Não dizer «não» não é igual a dizer um «sim» informado.

Vejamos o conceito de consentimento informado.

Por consentimento informado entende-se a escolha de participação voluntária de alguém numa determinada situação, o que implica ter capacidade para compreender a natureza e eventuais consequências da mesma, e que pressupõe a ausência de qualquer perturbação cognitiva, emocional ou de personalidade. Pressupõe também a ausência de qualquer alteração que possa decorrer do consumo de estupefacientes.

Posto isto, impõe-se uma pergunta. Aliás, várias.

Será mediana a responsabilidade de quem agride nestas circunstâncias?

Será baixa a ilicitude destes comportamentos?

De que forma pode uma pessoa quase inconsciente seduzir?

Devem ser desvalorizadas as sequelas, apenas porque as de natureza física não são significativas?

Deve ser minimizada a responsabilidade de quem agride, porque soube aproveitar a oportunidade e não premeditou o que fez?

Deve ser minimizada a responsabilidade de quem agride, porque não existiu violência?

Questões para as quais a resposta parece tão óbvia.

Ou não.