Carta para mim, quando estiver a morrer

Querido eu,

Se estás a ler esta carta agora, é porque estás a morrer. Escrevo para ti, que no fundo sou eu também, para que possas recordar algumas coisas antes de partires. É habitual que, no leito de morte, se reveja toda a vida como se fosse um filme. E nessa revisão sistemática é também natural que surjam arrependimentos, tristezas, saudades, amarguras. Sabes, às vezes a memória é selectiva e prega-nos grandes partidas. Traz ao de cima apenas uma parte de toda a informação que temos armazenada, o que faz com que muitas vivências fiquem esquecidas. E eu não quero que isso te (me) aconteça.

Pode até parecer que a vida passou a correr, mas não passou. Foram muitos anos (bem, em boa verdade não sei que idade tens tu agora, mas, no mínimo, tens a mesma que eu tenho) e, pensando que cada ano tem tantos dias, diria que foram milhares e milhares de dias. E ao longo de tanto tempo muita coisa aconteceu. Muita coisa mesmo.

Amaste e foste amado, deste e recebeste. Também perdeste, sem dúvida. Perdeste amigos, amores, oportunidades. Mas outros vieram. Alguns ficaram e demoraram-se na tua vida, outros foram fugazes e rapidamente acabaram. E não é a vida assim, feita da soma de todos os dias? Que é como quem diz, feita da soma de ganhos e perdas, de amores e desamores, de amigos e desamigos? E mesmo quando essa soma parece uma equação desequilibrada e injusta, com um resultado negativo, acredita que não é. O resultado é sempre positivo quando pensamos que aprendemos algo. Porque mesmo as coisas más nos ensinam alguma coisa. Ensinam-nos a tolerar, a esperar, a aceitar. Ensinam-nos a não querer mais do que a conta, num exercício constante de humildade. E também a ser perseverantes e a não desistir. Mas também a saber desistir, quando assim tem de ser. Saber desistir é uma arte.

Tantas vezes dizemos que há males que vêm por bem, e é mesmo assim. No entanto, só mais tarde o poderemos saber, quando olhamos para trás.

Sabes, à distância de uma vida pode parecer que foste fraco ou até inútil em diversos momentos. Que fraquejaste, que não soubeste encontrar o teu caminho. Mas como sabemos nós, no momento em que o atravessamos, qual é o nosso caminho? Não te esqueças que, agora que morres, acabas por estar numa posição bastante privilegiada. Ah, pois é, porque tens acesso ao todo que ficou para trás. Como queres tu que eu saiba agora, no presente, o que aí vem?

Tantas vezes dizemos que há males que vêm por bem, e é mesmo assim. No entanto, só mais tarde o poderemos saber, quando olhamos para trás. E é esse exercício fantástico que tu podes fazer, agora. Mas não eu, agora.

Enquanto esperas pela morte, recorda o teu passado, que é o meu presente, e revive-o. E se a tua memória te atraiçoar e salientar, acima de tudo, o que de menos bom aconteceu, recusa-te a pensar em ti como um sobrevivente. Não, nada disso, és muito mais do que um sobrevivente. És um “vivente”. Se não conheces o termo, penso que uma boa definição poderia ser “alguém que vive em plenitude e se recusa à condição de vítima”.

E não és tu capaz de ser assim?

Acredito em mim, por isso, acredito em ti.


Rute Agulhas é psicóloga e terapeuta familiar, especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça. Perita na Delegação Sul do INMLCF, é docente e investigadora no ISCTE-IUL, além de membro do Conselho Jurisdicional da Ordem dos Psicólogos Portugueses. A pedido da autora, a crónica segue as regras do antigo Acordo Ortográfico.