Casais com relações à distância. O que fazer para resultar?

Relações separadas por quilómetros são uma realidade no mundo global em que vivemos – e não apenas em contexto de isolamento devido ao covid-19. A internet e a tecnologia dissolvem distâncias físicas. Casais fazem o que podem para se manterem à tona. Há uns quantos espinhos no processo que doem bastante, diz quem ama ao longe. Mas também rosas para quem souber apreciá-las.

Texto de Ana Pago

Ao ver o marido de malas à porta, pronto para a primeira de muitas temporadas fora, Natacha Pereira não conseguia capacitar-se de que seria assim dali em diante, aquele nó na garganta à despedida. “Há uns sete ou oito anos a multinacional em que o Bruno trabalha direcionou-se para o estrangeiro – a informação tecnológica crescia no país, mas não nos programas que estavam a desenvolver –, pelo que ele integrou a equipa da Ásia-Pacífico”, conta a consultora de marketing e comunicação, habituada desde essa altura à ginástica amorosa do casal, digna de uma atleta olímpica russa: “Ele está quatro semanas fora, volta duas para casa e vai mais quatro, sempre neste registo de poder ter de viajar a qualquer momento”, resigna-se. Felizmente, o amor é forte.

E ainda bem, já que existem inúmeros benefícios numa relação à distância, sublinha a psicóloga clínica Ana Alexandra Carvalheira. “Casais que vivem separados boa parte do tempo investem mais na comunicação, tanto em conteúdo como na forma”, observa a professora e investigadora em sexualidade do ISPA – Instituto Universitário. Por norma, um dos parceiros afasta-se para melhorar a situação económica da família, o que se traduz em dificuldades inquestionáveis e até ameaças. Por outro lado, diz, à distância existe a possibilidade de sonhar os encontros, que além de mais planeados são mais apetecidos: “O desejo sexual fica preservado do desgaste da rotina e, com ele, o erotismo do casal.”

Nos primeiros anos, para Bruno Costa, era quase só Paquistão. Mais tarde, Paquistão e Bangladesh. Agora também Malásia e Singapura. “Planeámos isto a quatro anos, com a ideia de que ele podia mudar de região ao fim desse tempo para ficar mais próximo”, adianta Natacha Pereira. Quando se casaram, há 14 anos, o casal estabeleceu que iria apoiar o outro nas suas escolhas, ora eu para ti ora tu para mim. O desafio, porém, foi-se tornando cada vez maior para o engenheiro informático. Mais importante em termos profissionais, de modo que a esposa não voltou a ter o coração inteiro no sítio.

“O WhatsApp e o Skype acabam por ser a nossa ponte de contacto quando ele está longe, apesar do fuso horário com cinco a seis horas de diferença”, explica a consultora de comunicação, sempre atrás de novos projetos para fazerem juntos nos regressos. Nos entretantos, não tem tempo a perder com ciúmes nem desconfianças, nada: assusta-a mais saber que explodiu uma bomba no Paquistão do que ficar a remoer em filmes improváveis na sua cabeça. “O Bruno está lá, com as suas rotinas de trabalho, e eu estou em Lisboa com as minhas e com o nosso filho André, que tem 5 anos e desde bebé mexe nas tecnologias para falar com o pai, sem estranhar”, diz.

Assim de repente, o mais custoso é adaptarem-se uns aos outros: no momento em que começam a limar arestas, Bruno viaja e o processo recomeça. É isso e não deixar o filho notar as ausências, com colagens da família na porta de casa e sempre a falar do que farão em breve os três. “Quando o André pede chichi à noite é pelo pai que chama. Acho que consegui fazê-lo sentir que o pai está fora mas é como se estivesse cá, ele que nem pense em fazer o que lhe apetece”, ri-se a mãe. Seja como for, nota que quanto mais o filho cresce, mais necessita de uma referência paterna que lhe levanta, a ela, novos desafios: “Estou a poder dar-lhe menos aquilo que o pai dá, a referência masculina, então vamos ver como corre no futuro.”

Tirando isso, é bola para a frente sem medos, algo que Ana Alexandra Carvalheira elogia: “A par da proteção do desejo e do erotismo, uma grande vantagem das relações à distância é cada um poder ter mais tempo para os seus interesses, de que o outro, se calhar, nem gosta assim tanto”, aponta a psicóloga clínica. Num tempo em que nos é exigido (e nos exigimos) conciliar milhentas realizações a nível profissional, social, cultural, familiar, amoroso, sexual, não temos de andar sempre com a mesma pessoa atrás. “Ser casado não implica fazer tudo juntos, nem pouco mais ou menos”, reitera a investigadora do ISPA – Instituto Universitário. Até porque, de novo, sentir a falta estimula a comunicação e pode ser um poderoso atrativo na relação.

A distância é como o vento: apaga as velas, mas ateia as fogueiras

Segundo um estudo realizado em 2013 pelos investigadores em comunicação Crystal Jiang (da City University de Hong Kong) e Jeffrey Hancock (da Universidade Cornell, EUA), divulgado na publicação académica Journal of Communication, pessoas com relacionamentos à distância tendem a criar mais intimidade do que os casais comuns justamente por investirem numa comunicação consistente e profunda, sem evitarem os tópicos de que não gostam e/ou os incomodam a dois – uma bitola importante para se avaliar a massa de que os parceiros são feitos, a título individual e como equipa.

Uma outra pesquisa conduzida por Mary Carole Pistole, professora de Estudos Educacionais na Purdue University, EUA, concluiu ainda que esse tipo de relação é tão ou mais estável do que uniões de proximidade: “Casais separados pela distância têm uma comunicação mais aberta, falam mais sobre o relacionamento, têm menos discussões triviais, separam o horário de trabalho do de namoro e passam mais tempo de qualidade, o que gera uma proximidade não encontrada naqueles que se veem todos os dias”, sustentou a cientista em entrevista à universidade.

É o que sucede com Mariana Campos e Igor Amaral, casados há um ano, juntos há seis e há dois a gerirem os quilómetros que separam Santa Comba Dão da República da Irlanda, onde ele foi trabalhar em catenária (a parte elétrica dos comboios). “A empresa é portuguesa, ganhou o contrato para os próximos cinco anos, portanto para já vamos manter-nos nestes moldes”, afirma a técnica de farmácia, acostumada às ausências de três semanas do marido, com uma a vir a casa. O salário compensaria bastante o esforço da separação, concordaram. Se queriam poder remodelar a casa que Igor herdou da mãe, pensar em ter filhos, iam arriscar. De qualquer modo não seria para sempre.

“Fui ter com ele duas vezes desde que lá está, a empresa paga-lhe as viagens e o WhatsApp facilita tudo, é uma maravilha”, desdramatiza Mariana Campos. Não se passa um dia sem que sigam as rotinas um do outro e falem várias vezes, à mistura com vídeos, mensagens, muitas saudades. À noite, com internet ilimitada e horários compatíveis (houve uma altura em que nem isso tinham), ligam-se para verem filmes juntos como se estivessem na sala. “Curiosamente, a ausência pior está a ser agora com o coronavírus, em que ele não vem de folgas há mais de um mês e não temos perspetivas de nos vermos tão cedo”, lamenta a técnica de farmácia. Agarra-se à ideia de que até esta pandemia será temporária, valha-nos isso a todos. E de que o amor deles é um lugar seguro.

“A distância não significa um desinvestimento, longe disso”, concorda a investigadora Ana Alexandra Carvalheira, para quem o casal deve continuar a dedicar-se à relação, quer esteja aqui ou na Cochinchina. “Se por um lado existe uma perceção de perda do controlo que gera insegurança, por ser da natureza humana querer dominar, por outro a distância é uma possibilidade de se praticar o desapego”, diz. Há que deixar ir o parceiro no sentido em que ninguém é propriedade de ninguém, não podemos forçar: “O outro é um ser livre, tal como eu. Estará comigo se quiser estar”, resume a psicóloga. Se no final tiver de dar certo, não vai ser a distância a impedir o amor.

Como fazer que uma relação à distância resulte?

Longe da vista não significa forçosamente longe do coração, como atestam inúmeros casais com relações duradouras à distância.

01. Comunicação
Independentemente de preferirem ligar um ao outro, utilizarem o Skype ou recorrerem a aplicações para mensagens instantâneas de texto e voz, o mais importante é haver sempre uma comunicação de qualidade entre ambos.

02. Segurança
Uma das primeiras (e mais dolorosas) falhas nas relações à distância é o medo que as incertezas provocam: o que será que o outro está a fazer? Como está? Com quem está? Pensa em mim? Terá saudades? Se ambos aceitaram que é pelo melhor atravessar um período fisicamente longe, mantenham-se seguros desse amor.

03. Confiança
É um ponto decorrente do anterior na medida em que quanto maior for a segurança e o respeito entre o casal, menos margem haverá para inquietações a cada instante (nomeadamente o receio de ser enganado ou traído). Ninguém controla o que o outro faz, esteja ele perto ou longe. Se nos diz que deseja ficar só connosco, é perceber como isso nos faz sentir.

04. Cabeça fria
Tempo a mais para remoer nos nossos medos e uma vulnerabilidade acima da média, com as emoções e os nervos à flor da pele, pode ser o bastante para vermos coisas onde não existem ou, se existem, para lhes atribuirmos uma dimensão que não têm. O outro publicou uma imagem com colegas de trabalho? Não ligou à hora que disse que faria? É melhor perguntar-lhe antes de se pôr a conjeturar.

05. Encontros
Além das férias marcadas ou de eventuais escapadinhas quando dá, as novas tecnologias permitem que se ligue ao outro por Skype ou FaceTime e prepare com ele um esparguete à bolonhesa na cozinha, como faziam juntos.

06. Surpresas
Ainda agora falávamos de um jantar caseiro, mas porque não ir ter com o outro sem aviso, se conseguir? Ou mandar-lhe o livro que estava a ler e ele disse querer ler também? Ou enviar-lhe aquela T-shirt com que costuma dormir? Há mil e uma maneiras de surpreender o parceiro, cada casal com as suas.

07. Partilha
Nem todas as pessoas são iguais, o que significa que cada uma viverá a distância de forma diferente, com distintos graus de tranquilidade quanto ao que as espera – e está tudo bem. O importante é partilharem honestamente com o outro aquilo que estão dispostos a fazer para que a relação resulte (e que pode ir mudando à medida que o tempo passa, tal como se estivessem em presença).

08. A sós
Estar sozinho consigo mesmo pode ser um oásis em vez de um deserto se souber aproveitar esse tempo de qualidade para os seus interesses, os seus amigos, as coisas que mais gosta de fazer e nem sempre coincidem com as preferências do outro, razão por que não se dedica tanto a elas quando está com ele. Estar só também é bom.

09. Planear
Um pouco de futurologia nunca fez mal a ninguém, sobretudo no que toca a imaginar como vai ser o próximo encontro, e a viagem grande que tencionam fazer depois dele, e o futuro em conjunto que planeiam ter a médio/longo prazo. A simples noção de que desejam estar os dois é um incentivo poderoso para o amor do casal.

10. Intimidade
Não é a mesma coisa mas não tem de ser pior à distância, com a internet a garantir a viabilidade das relações amorosas e, o que é melhor, com sexo sempre novo, apaixonado e imprevisível, intocado pela distância.