O casal da mesa do lado

Fui jantar fora e sentaram-me muito perto de outra mesa. Demasiado perto. Ao ponto de conseguir, mesmo sem querer, ouvir a conversa do casal da mesa do lado.

Um casal, diria, na casa dos quarenta anos. Sem filhos, pelo menos ali presentes. Num restaurante da moda, escolheram pratos gourmet e beberam água.

Enquanto comiam devagar, conversavam num tom ríspido e acusatório, elevando a voz de forma progressiva. Confesso que seria impossível não ouvir. Penso até que todas as pessoas presentes terão ouvido.

Ela, quase sem tocar na comida, despejava acusações a um ritmo alucinante. «Porque não me dás atenção, não fazes nada do que gosto, parece que fazes tudo para me chatear e provocar, não sei que raio de amor é este, estamos sempre a discutir, estou farta, se não é por isto é por aquilo, até a porcaria deste restaurante sabes que eu não queria, parece que fazes de propósito para me irritar!» E continuou, num rol sem fim de acusações.

Ele, de olhos baixos e (parece-me) alguma vergonha face aos outros, respondia devagar enquanto comia. «Porque nunca estás satisfeita, tudo o que faço nada está certo, estou cansado disto, todos os dias a mesma coisa, até o restaurante tem que ser motivo de discussão, não sei se já percebeste mas discutimos por tudo e por nada, estou farto disto, desculpa lá não ser o Sr. Perfeito».

A conversa/discussão continuou, terminaram a sobremesa (que partilharam com dois talheres, quase parecendo um momento romântico) e os cafés e saíram num ritmo acelerado.

Para trás deixaram rostos incomodados e vozes sussurradas.

E eu fiquei a pensar.

Quando se discute por-tudo-e-por-nada significa que o problema já não são os conteúdos sobre os quais se discute. Não, o problema não é o restaurante ou as coisas menores do dia-a-dia. Quando se diz que o outro «não faz nada bem», que «todos os dias é a mesma coisa», quando se usa o sarcasmo e a ironia, o problema já se situa a outro nível.

Fez-me recordar um dos cinco axiomas da comunicação, que diz que toda a comunicação comporta conteúdo e relação. Ou seja, existem os conteúdos sobre os quais se comunica (nem sempre com acordo) e, subjacentes a esses conteúdos, as regras da relação. Regras que nem sempre são explícitas. Muitas delas são implícitas e nunca foram sequer verbalizadas, quanto mais negociadas.

Se usarmos uma metáfora, podemos dizer que os conteúdos são a ponta do iceberg, a parte mais visível, enquanto as regras da relação estarão mais submersas e nem sempre são conscientes.

Uma relação é madura e satisfatória quando os casais se permitem discordar a nível dos conteúdos, sem que isso coloque em causa a relação. Quando o desacordo é também a nível da relação (por exemplo, questões de poder, processos de tomada de decisão), o desacordo nos conteúdos tende a tornar-se crónico e discute-se por dá-cá-aquela-palha.

Parece-me que o casal da mesa do lado estava nesse patamar. O desacordo nos conteúdos é apenas a parte mais visível do problema.

A este casal e a tantos outros como ele, deixo uma sugestão. Se a «implicância» se tornou o prato do dia, parem para pensar. Qual o verdadeiro problema? Certamente que não é o restaurante que se escolhe.

Assistir de forma passiva a estes desacordos crónicos, sem reflectir sobre o que, verdadeiramente, está em causa, não traz bons resultados.

As emoções negativas face ao outro tendem a cristalizar-se, as posições rigidificam-se e o conflito sobe em escalada. A relação, ao invés de complementar, em que se aceitam e integram as diferenças do outro, torna-se simétrica. Nestas relações, como diz a sabedoria popular, e muito bem, «quando um diz mata, o outro diz esfola».