Porquê ficar com tudo se podemos partilhar?

Quando estava a preparar a entrevista à cientista Diana Prata, vi uma conferência que ela deu na Gulbenkian, salvo erro. A certa altura, passava um vídeo com o momento final de um popular concurso da televisão inglesa – Golden Balls –, que esteve no ar entre 2007 e 2009.

O derradeiro jogo, baseado no dilema do prisioneiro, um desafio ético muito estudado em economia e que põe em debate a cooperação e o individualismo, opunha um homem e uma mulher.

Chamava-se Split or Steal (Partilhar ou Roubar). Cada concorrente tinha duas bolas douradas, com um papel lá dentro. Numa delas, o papel dizia split (partilhar), na outra dizia steal (roubar).

Em jogo estava um prémio de cem mil libras. Se ambos escolhessem partilhar, cada um deles ganharia cinquenta mil libras. Se um escolhesse partilhar e o outro escolhesse roubar, o ladrão levava tudo para casa. Cem mil libras. Se ambos escolhessem roubar, ficavam os dois sem nada.

A mulher, quase em lágrimas, suplicava ao homem que não a enganasse. Ela ia partilhar. Ele não podia desiludi-la. Por favor.

Ele abanava a cabeça, convicto. Pois claro que não. É óbvio que partilharia. Que outra coisa podia fazer? Ela podia ficar descansada.

Suspense.

Cada um escolheu uma bola dourada. Ele: split [partilhar] Ela: steal [roubar]

Aquela imagem não me sai da cabeça. Ele inconsolável, com a cabeça entre as mãos, enganado. Ela, acabada de conseguir o que queria, enganá-lo e enriquecer à custa disso, e, no entanto, a vergonha na cara. Incapaz de olhar em frente.

Percebo o processo de decisão que está por detrás da atitude da mulher. Desconfiança. Engano. Ganância. Mas não me sai da cabeça aquela imagem. A desilusão dele. Que confiou. Que se dispôs a partilhar. Que não quis tudo para si.

Assusta-me que este desafio, e o seu desenlace, este em particular, seja uma metáfora dos tempos que vivemos.

Sobretudo quando está provado que o único caminho, o mais inteligente, com mais futuro e que garante melhor a sobrevivência da espécie, é o da partilha