Treine o cérebro das suas crianças para acabar com as birras

Amuos. Fúrias. Guerras para fazer os trabalhos de casa. É esta a parte mais difícil na educação de uma criança, suspiram os pais, sem saberem que as birras resultam de uma falta de integração do cérebro infantil, que não teve tempo para se desenvolver.

Texto de Ana Pago | Fotografia iStock

«Por muito brilhante que o seu miúdo em idade pré-escolar lhe pareça, ele não tem o cérebro de uma criança de 10 anos, que por sua vez não tem o cérebro de um jovem de 18», avisam Daniel J. Siegel, neuropsiquiatra, e Tina Payne Bryson, especialista em parentalidade. Juntos escreveram O Cérebro da Criança (Casa das Letras) para explicar que a maturação de um filho só termina aos 25 anos, mas até lá os pais podem ajudá-los a treinar e a integrar as diversas partes do cérebro nas interações do dia-a-dia, de modo a não serem dominados pelas emoções. Sem pressão, hã?

Dois cérebros

Para as crianças valorizarem lógica e emoções em igual medida precisam que ambos os hemisférios do cérebro trabalhem juntos – e aqui não há como os pais ajudarem-nas a contar uma boa história, coerente, em que o cérebro esquerdo organiza os acontecimentos em palavras e lógica, enquanto o direito contribui com as sensações físicas e memórias pessoais. Usar o cérebro esquerdo para ordenar as emoções fortes do cérebro direito permite à criança lidar eficazmente com elas.

Integração vertical

Da mesma forma, também podemos olhar para o cérebro de baixo para cima – em que o cérebro do andar de baixo (amígdala) é primitivo e o de cima (córtex pré-frontal) complexo a ponto de permitir à criança regular as emoções, pensar antes de agir, medir as consequências e pôr-se no lugar dos outros. O ideal é integrar ambos para evitar que salte a tampa aos miúdos: em vez de lhes enraivecer o cérebro de baixo com uma ordem de pai, envolva o de cima ajudando-os a expor o que sentem.

Das memórias

Se o seu filho mostra uma reação descabida a algo – um medo súbito das aulas de natação, por exemplo – é provável que a memória implícita tenha criado um modelo mental que os pais vão ter de ajudá-lo a descodificar. E a forma mais eficaz, de novo, é contando histórias, já que lhe permite pegar nas experiências que o afetam, revivê-las ao seu ritmo e controlar, de algum modo, o que viveu. Integrar a memória implícita com a explícita torna sempre tudo menos assustador.

Unir as partes do eu

Quanto mais integradas estiverem, melhor saúde mental a criança terá, na medida em que também mais facilmente consegue deixar de ver como uma característica permanente que a define estados temporários de tristeza, solidão, frustração ou o que quer que esteja a sentir.

Ligação eu-nós

É um trabalho agreste para os pais: ajudarem os filhos a manter uma identidade única, enquanto por outro lado desenvolvem relações humanas de qualidade. E isto sabendo que o tipo de relações que eles próprios cultivarem em casa serão as que os miúdos vão valorizar e considerar normais nas suas vidas, influenciando tudo o que fizerem no futuro. Ninguém disse que educar era simples.