Cerveja: afinal não faz barriga (se for bebida com moderação)

Quem nunca ouviu a expressão «barriga de cerveja»? O gás e o álcool, que nem se sente, quando se bebe gelada, em dias de calor (talvez já não se lembre do que é, mas tem a ver com temperaturas quentes, próprias do verão), por vezes, uma atrás da outra, serão provavelmente os responsáveis pela fama, que, de acordo com os especialistas em nutrição, é injusta.

Texto de Alexandra Pedro | Fotografia Orlando Almeida/Global Imagens e Shutterstock

As doenças cardiovasculares e de fígado são as mais frequentes no consumo exagerado de cerveja. O aumento do volume da zona abdominal está também associado à ingestão desta bebida.

No entanto, explica a nutricionista Natália Cavaleiro Costa, estes são problemas que advêm do consumo exagerado da bebida que a nutricionista garante ser benéfica integrada numa dieta mediterrânica equilibrada.

Os benefícios começam desde logo na «composição, feita maioritariamente de água – cerca de 90 a 95 por cento. Além disso, é uma bebida natural, isto é, não tem adição de qualquer composto ou conservante», explica Natália Cavaleiro Costa.

Nutricionista Natália Cavaleiro Costa (Orlando Almeida/Global Imagens)

«O processo de fermentação alcoólica é feito através de um açúcar – normalmente utiliza-se a cevada, mas pode também ser o milho, o arroz ou a aveia. Depois junta-se o lúpulo e a levedura, sendo que estes são todos processos naturais e que ocorrem sem qualquer tipo de transformação industrial ou química», diz a especialista.

Além do processo de composição, a nutricionista, que tem trabalhado nesta área juntamente com a associação Cervejeiros de Portugal, realça o baixo nível calórico da bebida: cerca de 80 calorias, menor do que a maioria das bebidas refrigerantes, néctares ou ice teas.

António Pedro Mendes, da comissão de nutrição clínica da Ordem dos Nutricionistas, aclara a ideia dos benefícios da cerveja, destacando as «vitaminas do complexo B que, segundo alguns estudos, reduz o risco cardiovascular». E ainda, «o efeito antioxidante, que pode ser encontrado no próprio álcool».

«Os antioxidantes, como o nome indica, inibem alguma oxidação que exista no organismo – resultante da má alimentação, stress, sedentarismo ou tabaco»

Natália Cavaleiro Costa explica ainda que a cerveja tem também «aminoácidos, potássio e magnésio» e, ainda, os tais «antioxidantes, que como o nome indica inibem alguma oxidação que exista no organismo – resultante da má alimentação, stress, sedentarismo ou tabaco».

«Os antioxidantes limpam essa espécie de “lixo”, que se não for eliminado, pode provocar algumas doenças, como diabetes, problemas cardiovasculares ou até alguns tipos de cancro. Os antioxidantes são, portanto, muito importantes na nossa alimentação e devem ser incluídos diariamente. Estão também presentes nas frutas ou nos vegetais».

«Por si só, a cerveja não provoca barriga»

O mais importante dos antioxidantes da cerveja chama-se Xanthohumol. «É bastante útil na prevenção de várias doenças, nomeadamente alguns tipos de cancro, doenças cardiovasculares, diabetes e até alguns tipos de demências».

Barriga de cerveja: mito ou realidade?

«Por si só, a cerveja não provoca barriga. O que muitas vezes acontece, falando no consumo da cerveja indireto, é que as pessoas bebem cerveja de uma forma mais exagerada e associam-lhe alguns petiscos – como enchidos e acompanhamentos ricos em gordura e sal. Isso é que poderá provocar algum aumento de peso».

O especialista, doutorando em nutrição clínica pela Universidade do Porto, confirma também: «é mito». «Se beber com moderação, cerca de 1 a 3 imperiais por dia, pode ser uma quantidade benéfica para a saúde», reforça.

«Para quem gosta mais de cerveja, há sempre a opção de a beber sem álcool»

Quais são as doses recomendadas?

A especialista Natália Cavaleiro Costa diz, no entanto, que o consumo de cerveja deve ser feito de forma diferente por homens e mulheres. No caso das mulheres deve-se apenas ingerir uma cerveja por dia (de 200ml). Enquanto os homens podem beber até duas cervejas diárias.

Se ultrapassar estas doses, os benefícios perdem-se. «Para quem gosta mais de cerveja, há sempre a opção de a beber sem álcool. E aqui não há qualquer tipo de problema. Pode ser consumida por mulheres grávidas, a amamentar ou por pessoas que por variadas complicações não possam consumir álcool», acrescentou a autora, com vários livros publicados na área da nutrição.

PARA O NUTRICIONISTA ANTÓNIO PEDRO MENDES O TRUQUE É NÃO EXAGERAR NAS DOSES. A RECOMENDAÇÃO É ENTRE UMA A TRÊS CERVEJAS POR DIA

Em relação aos maus vícios, Pedro Mendes destaca também as doses exageradas. «Se consumir 10 finos, estes podem realmente ter uma grande contribuição para o aumento do peso», afirma.

Cerveja combina com exercício físico?

A cerveja pode também estar associada à prevenção de lesões musculares e na recuperação. Para defender esta premissa, a nutricionista recorre ao exemplo do ciclismo, em que diz ser «habitual beber-se, no meio da prova ou já no final, uma cerveja preta com um ovo cru lá dentro. Este último é onde vão buscar também a parte proteica».

Artesanais vs convencionais

«À partida não existem diferenças na confeção das cervejas artesanais e das marcas mais populares», esclarece Natália Cavaleiro Costa. «A receita é a mesma. Só muda o ingrediente. Ou o lúpulo, que é a planta que se adiciona na cerveja e que se caracteriza por dar o sabor mais amargo. As quantidades do cereal, da água e da levedura não devem ser diferentes».