Os humanos estão mesmo a ingerir microplásticos. E agora?

O teste foi realizado apenas em oito pessoas (todas de países diferentes), mas os resultados são alarmantes: em todas as amostras foram encontradas partículas microscópicas de plástico nas fezes. Que consequências terão para a saúde? A resposta não é conclusiva.

Texto de Alexandra Pedro | Fotografia ShutterStock

É o primeiro estudo que comprova o que há muito se suspeitava: os seres humanos estão a ingerir partículas microscópicas de plástico. A conclusão é de uma análise feita pela Agência Ambiental da Áustria.

Foram apenas oito os participantes no estudo (todos de países diferentes), mas em todas as amostras de fezes foram encontrados fragmentos de plástico.

Em média, de acordo com a notícia divulgada pelo The Independent, foram encontradas 20 partículas de microplástico em cada dez gramas de fezes. A predominância, no entanto, foi para o polipropileno e tereftalato de polietileno

O investigador principal, Philipp Schwabl, da Universidade de Medicina de Viena, confirma que «este é o primeiro estudo do género» e sublinha que agora são necessárias «mais pesquisas para entender o que isso significa para a saúde humana».

São necessários mais estudos para perceber que consequências poderão surgir das partículas de plástico encontradas em humanos.

«Embora as maiores concentrações de plástico em estudos com animais tenham sido encontradas no intestino, as partículas de microplástico [como as encontradas nas fezes humanas] são capazes de entrar na corrente sanguínea, no sistema linfático e até chegar ao fígado», acrescenta ainda Schwabl.

Após esta investigação, os cientistas acreditam que mais metade da população mundial possa ter micropartículas de plástico. Estima-se que cinco por cento do plástico que é produzido acabe no mar, sendo que em estudos feitos anteriormente já tinha sido comprovada a presença de plástico em peixes, na água da torneira e em insetos. Uma investigação recente mostrou também a presença deste material em refrigerantes.

Há especialistas que acreditam que os microplásticos podem entrar na corrente sanguínea, no sistema linfático e até chegar ao fígado

Ivone Mirpuri, especialista em medicina antienvelhecimento e modulação hormonal, já tinha salientado o problema do plástico no organismo à DN Life. «As hormonas dizem às células o que fazer, ligando-se a recetores específicos nessas células. As EDC (Endocrine Disrupting Chemicals – disruptores endócrinos) são produtos químicos que podem imitar a forma da hormona e podem atuar no recetor em vez da hormona. Existem disruptores endócrinos que, ao ligarem-se ao recetor da hormona, podem imitar o seu efeito ou bloqueá-lo e originar processos anómalos», começou por dizer a especialista.

«O plástico é o disruptor endócrino principal», acrescentou, na altura, a médica.

Os autores do estudo enfatizaram a necessidade de reduzir o uso de plástico e de aumentar a reciclagem. Conselhos também dados por Mirpuri: «comece desde já a recusar sacos de plástico e a reutilizar os que já tem».

Dos oceanos para a comida (e para o organismo)

Fonte: Ocean Conservancy

Há muito que se fala do problema do excesso de plástico nos oceanos. De acordo com o Ocean Conservancy, são cerca de oito milhões de toneladas de plástico que entram no oceano, além dos 150 milhões de toneladas que circulam atualmente no mar.

Os números, trágicos, foram expostos pelo mergulhador Rich Horner, que decidiu gravar o lixo espalhado pelo mar na Indonésia. O vídeo, partilhado na rede social Youtube em março, já tem mais de um milhão de visualizações.

Caso o panorama se mantenha, a Ocean Conservancy estima que em 2050 existam mais matérias de plástico que peixes no mar.

Organização Mundial de Saúde estuda riscos para a saúde

Após um estudo que dava conta que 90 por cento da água engarrafada tem vestígios de plástico, a Organização Mundial de Saúde (OMS) decidiu analisar os principais riscos para a saúde humana.

«Quando pensamos na composição do plástico, quando pensamos se existem toxinas ou não nessa composição, quando pensamos até que ponto é que podem ser nocivos e o que é que as suas partículas fazem ao corpo humano… Não existe ainda pesquisas suficientes para nos dar resposta», explicou Bruce Gordon, responsável pelo trabalho da OMS.


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