Cinco razões para não ler artigos que começam com «cinco razões…»

1. BOA PARTE DELES só têm números porque está provado que isso chama a atenção do leitor. 2. Os editores de sites sabem que isso garante visitas, mas nem por isso eles (os editores) garantem qualidade. 3. Às vezes são artigos em texto corrido que um editor, convencido de que isso é uma boa ideia, resolveu separar por parágrafos pequenos – e numerá-los. Ou seja, são forçados. 4. Cinco sugestões (ou ideias ou dicas ou truques ou segredos) são um número suficientemente pequeno para ser de leitura fácil e suficientemente grande para já garantir alguma consistência. Mas, mais uma vez, isso não significa que a qualidade esteja assegurada. 5. Muitas vezes estão mal escritos. E cheios de palha.

AGORA QUE CAPTEI a sua curiosidade – nem que seja para confirmar se esta crónica se insere no número cinco do parágrafo anterior – vamos ao que interessa: quando falarmos de assuntos ligados ao amor, à paixão, ao sexo, às relações no geral, podemos facilmente aproximar-nos da náusea se não tivermos nada de jeito para escrever. Os psicólogos, sociólogos e outros especialistas em comportamento humano garantem que há temas. Basta estar atento. E viver um pouco. Os jornalistas garantem que eles são devidamente embrulhados em listas, numa chico-espertice saloia para enganar o leitor. Estão tão agarrados a este modelo de aparente sucesso que já nem se esforçam para tentar encontrar um embrulho diferente.

O MODELO É UMA BENGALA gasta de tantas vezes usada por revistas. Graficamente, permite fazer páginas giras. Editorialmente, permite organizar a informação de forma dinâmica e de fácil leitura. As publicações femininas, então, são peritas nisso. Pouco importa se o dito artigo, no interior, é um chorrilho de lugares-comuns, se é  anunciado com parangonas na capa mas depois só tem direito a duas páginas (ou uma página e meia, com uma coluna de publicidade), ou se é traduzido de uma publicação estrangeira e só faz sentido à luz da realidade do país original. Nada disso interessa. O que importa é que se apresente como miniguia prático para qualquer coisa.

COMO SE ISTO não fosse já suficientemente mau, ainda temos a internet a puxar… para baixo. A possibilidade de ler artigos deste género num computador, tablet ou smartphone, muitas vezes a partir do Facebook, por onde recebemos muita desta informação, permitiu concluir que os leitores aderem. Vão lá, fazem clique e um dia isso ainda dará dinheiro que se veja. Vai daí, surgem textos com títulos como «dez coisas que a podem ajudar a prever se o seu marido a vai enganar», «cinco assuntos sobre os quais não pode falar quando conhecer os pais da sua namorada», «seis formas de ver que as mamas dela são mesmo verdadeiras», «sete formas de acabar com uma relação», «oito formas de começar uma relação», «dez ideias para tentar salvar uma relação», «cinco maneiras de melhorar a sua relação», «sete coisas em que a ciência a pode ajudar a ser mais sexy», «oito coisas que não pode dizer ao seu namorado na cama», «sete boas desculpas que pode dar se não quiser ter sexo com ele», «sete boas formas de contornar desculpas para ela não ter sexo consigo».

JÁ NÃO HÁ PACHORRA para tantas listas numeradas. E, sobretudo, para tanta tentativa de venda de banha da cobra sob a forma de listas numeradas. Não confundir, por favor, com crónicas sobre relações em suplementos de fim de semana de jornais de referência. E se forem escritas por autores com óculos e pouco cabelo, então, é mesmo bom não as baralhar. Essas não são guias nem tentam ter uma componente prática. Essas servem para deixar os leitores a pensar que o que acabaram de ler pode ter um fundo de verdade. E mesmo que não se aplique a si, poderá aplicar-se à prima de um amigo de um vizinho do seu marido. Essa que tem a mania de ler listas.

[Publicado originalmente na edição de 9 de agosto de 2015]