Ciúmes: liberte-se desse inferno de uma vez por todas

São das emoções humanas mais poderosas, tão democráticos e universais que ninguém lhes escapa. Mas se uns defendem que ciúmes são bons para manter a chama nas relações, convém não esquecer que há outros, doentios, que as destroem.

Texto de Ana Pago | Fotografias da Shutterstock

Nas horas que Sandra Bravo passa sozinha, a mente atraiçoa-a sem parar. A cabeça transforma-se num mural mexicano em que vê, sem parar, o marido com outras, obsessivamente, perdida em detalhes que sabe que só existem na sua imaginação, mas nem por isso a atormentam menos. Não tem dúvidas ao responder que o lado mais negro da sua vida são os ciúmes loucos, bem mais excruciantes que as dores do parto.

«Sou paranoica com as horas a que o Mário chega, as amigas com quem fala, os cheiros na roupa», conta a produtora, mais descontrolada desde que foi mãe, há dois anos, e trabalha a partir de casa.

«Tenho um medo horrível de que haja mulheres a seduzi-lo e ele possa apaixonar-se por outra.» E então bombardeia-o com perguntas, sabendo que está a ultrapassar os limites, o que só lhe causa mais medo. «O Mário garante que está comigo porque me ama, mas vivo numa agonia constante, que me corrói por dentro», diz.

Todas as relações necessitam de um grau de segurança que satisfaça as necessidades da pessoa.

É natural que se sinta assim, confirma a psicóloga e psicoterapeuta Lídia Craveiro: ciúme é uma doença, nada de tempero do amor. «Por pouco intensos ou frequentes que sejam, todas as relações necessitam de um grau de segurança que satisfaça as necessidades da pessoa. Não existem ciúmes normais», diz, justificando que na base está sempre o medo de perder um ser amado.

Da mesma forma, nunca são positivos para a relação «por esconderem sentimentos de fragilidade narcísica e de posse pelo outro», acrescenta a especialista em relações, considerando que os ciúmes se tornam patológicos quando o ciumento inflige dor ao outro ou se torna incapaz de lidar com o seu próprio desespero.

Na origem do ciúme pode estar uma fraca autoestima, medo da rejeição e uma série de outros fatores.

E que fatores estão, afinal, na origem do ciúme? «Pode ter a ver com fraca autoestima, incerteza relacional, interferências de terceiros. Com o medo do abandono, da rejeição, da traição, de deixar de ser amado ou perder a exclusividade na vida do outro», destaca a psicóloga clínica Catarina Lucas, autora de um estudo que indica que ciúmes moderados favorecem a manutenção das relações e o bom desempenho na cama.

Se estes aumentam, pelo contrário, a satisfação sexual diminui. «A obsessão e os pensamentos irrealistas tornam-se de tal maneira intensos que se apoderam da relação, destruindo-a», explica a terapeuta, para quem os homens tendem a sofrer mais de um ciúme sexual – por receio de criarem um filho que pode não ser seu – e as mulheres de ciúme emocional – ligado ao medo de deixarem a família destituída de segurança masculina.

Desde sempre homens e mulheres ficam verdes de ciúmes – o sentimento está longe de ser recente.

Claro que não é de agora que homens e mulheres ficam verdes de ciúmes a ponto de arrasarem o amor que tanto temiam perder inicialmente: na mitologia grega, a deusa Hera dava caça às amantes de Zeus e matava todas as que conseguia apanhar, juntamente com os filhos bastardos do marido a que deitava a mão.

Em Otelo, de Shakespeare, Iago convence o protagonista de que a esposa Desdémona o traía com Cássio: escusado será dizer que a pobre, inocente, é asfixiada no quarto por ciúmes.

E sim, é possível conviver com eles apesar das reações negativas que provocam em quem os sente: os homens zangam-se e ficam belicosos, as mulheres deprimem. Faça frente aos ciúmes com armas como as que lhe sugerimos na fotogaleria, para não deixar que se apoderem de tudo na sua vida. No limite até pode continuar a senti-los, mas nunca cruzar os braços.