Eles vão buscar comida ao lixo – e não é por necessidade

Anna e Raghu vasculham caixotes do lixo de supermercados à procura de alimentos em bom estado para comer. Ela quer alertar para o desperdício, ele é freegan, boicota o consumismo. Ao resgatar os alimentos, esperam reduzir os impactos causados no ambiente. Não o fazem por necessidade – mas por militância.

Texto de Joana Capucho

Quinze minutos no lixo: 55 bananas, seis caixas de morangos, dez tomates, dois sacos de peras, gengibre orgânico, oito embalagens de salada, maçãs, courgettes, limões, laranjas, alho francês, nabo, feijão verde. É este o balanço do “mergulho no lixo” (dumpster diving, como é conhecido) feito por Anna, numa noite da semana passada, nos caixotes do lixo de um supermercado em Lisboa. Após o resgate, a jovem partilhou a fotografia dos alimentos na sua página do Instagram (Hero to 0), criada para sensibilizar para o desperdício alimentar. Quer mostrar que a comida está em bom estado e que pode ser consumida. Com o que recolheu – no valor estimado de 50 euros – fará sopas, bolos, doces de frutas, entre outros pratos.

Anna Masiello é de Trieste, Itália, e está há um ano e meio em Lisboa a fazer um mestrado em ambiente e sustentabilidade. Vive com a ajuda dos pais, pois ainda não trabalha. “Não faço isto porque tenho problemas financeiros ou porque passo fome”, diz a jovem de 25 anos. “Salva” a comida do lixo para consciencializar as pessoas e os supermercados para a necessidade de “reduzir o desperdício”. E foi por isso que resolveu usar as redes sociais para partilhar as fotografias do que recolhe. “As pessoas ficam chocadas.”

Um milhão de toneladas de alimentos são anualmente desperdiçados em Portugal e cerca de 17% da comida é deitada para o lixo antes de chegar aos consumidores. Os dados de 2012 (os últimos disponíveis) são do Projeto de Estudo e Reflexão sobre o Desperdício Alimentar (PERDA) e Anna quer alertar para esse problema e, mais do que isso, contribuir para a solução. Com a colega de casa, remexe nos caixotes de lixo dos supermercados uma vez por semana, em média, à procura de comida que ainda se encontre em bom estado para ser consumida. Selecionam “os alimentos bons”, levam-nos para confecionar em casa e, garante, deixam o espaço “ainda mais limpo” do que o encontraram. “É chocante o que encontramos. Voltamos com os sacos cheios. Há todo o tipo de comida e muitas vezes perfeita”. Além de frutas e legumes, já encontraram bacalhau e refeições pré-cozinhadas perfeitas, cujo prazo de validade tinha acabado no próprio dia. “Infelizmente, nunca encontrámos chocolate”, brinca. Como recolhem grandes quantidades de alimentos, acabam por partilhar com outras pessoas. “É mesmo muita coisa”.

“É chocante o que encontramos. Voltamos com os sacos cheios. Há todo o tipo de comida e muitas vezes perfeita”, diz Anna. Além de frutas e legumes, já encontraram bacalhau e refeições pré-cozinhadas perfeitas, por exemplo, cujo prazo de validade tinha acabado no próprio dia.

Nos caixotes de lixo ao pé de lojas de decoração e de artigos variados, Anna já resgatou frascos de vidro, vasos para plantas, sapatos, uma carteira, entre outras coisas. Tem um projeto no qual produz gabardinas a partir de guarda-chuvas partidos e promove um concurso – o ArtZero – de produção de arte com resíduos. “Às vezes perguntam-me se não tenho vergonha de tirar coisas do lixo. Porque deveria ter? É uma escolha. Estou a reduzir o impacto ambiental que essas coisas teriam.”

Ann “salva” a comida do lixo para consciencializar as pessoas e os supermercados para a necessidade de “reduzir o desperdício”. Usa as redes sociais para partilhar as fotografias do que recolhe. “As pessoas ficam chocadas.”

É uma opção, frisa, e não quer acusar quem não tem as mesmas preocupações. Até porque só há cerca de dois anos é que mudou comportamentos. Filha de um guarda-florestal e de uma assistente social, sempre foi sensível em relação ao ambiente, mas a preocupação com os resíduos é recente. “Era consumista. Comprava fast fashion e coisas embaladas. Quando cheguei a Lisboa vi um vídeo sobre zero waste [lixo zero, em português]. Pesquisei, falei com pessoas, comecei a aprender sobre o impacto que o lixo tem.” Foi a partir daí que começou a tentar viver sem desperdício, desde logo fazendo as compras no comércio local, a granel, sem plástico.

Freeganismo: um estilo de vida que rejeita o consumismo

Raghu, 41 anos, é freegan – resulta da junção de “free” (livre) e “vegan”. “Procuro ter uma vida com o menor impacto ambiental e com a máxima interação com a natureza”, explica a partir de Amares, onde se encontra a falar de permacultura. Tal como Anna, resgata muita coisa do lixo – chama-lhe “reciclagem” –, mas não o faz só como forma de alerta para o desperdício alimentar. “É um estilo de vida”.

Desde 1996 que Raghu (que insiste em ser chamado apenas assim e garante ser este o seu nome) faz reciclagem, tendo vindo “a aprimorar conceitos, a amadurecer ideias”. Faz os “mergulhos” no lixo uma vez por semana junto a uma grande superfície em Lisboa. “Consigo tanta comida que dou aos sem-abrigo e a outras pessoas”. Pode ser preciso “comprar uma ou outra coisa”, mas o essencial recolhe do lixo. “Vivo com muito pouco”, sublinha, destacando que a preocupação é produzir cada vez menos desperdício. “Existe o real e o ideal. O ideal é lixo zero”. Mas é difícil, reconhece.

Raghu é “um pouco nómada”. Na capital fica alojado num espaço de ioga, mas em Sintra, por exemplo, viveu “no meio do mato” com outras pessoas. “Tomava banho com água da chuva.” Vivia com mais de dez pessoas e o que recolhia nos caixotes do lixo dava para se alimentarem “tranquilamente”.

Há sobras em bom estado que vão para o lixo. Mas “não estamos a garantir que há condições de higiene e segurança alimentar”, diz Paula Policarpo, cofundadora do movimento Zero Desperdício. E isso pode ser “altamente arriscado”.

Filho de portugueses, Raghu nasceu no Brasil e mudou-se para Portugal em 2001. “Era comerciante e auto desempreguei-me”, diz, e, desde então, procura viver de acordo com o freeganismo. “Ter um estilo de vida mais simples, com um pensamento elevado, procurando ajudar e incentivar os outros”. Sem impor nada, ressalva. Tem uma caravana que lhe permite viajar pelo país e está ligado a vários projetos de ioga, meditação, permacultura e freeganismo. Esta sexta-feira, por exemplo, preparou um jantar freegan – com alimentos recolhidos no lixo – para 50 pessoas num restaurante da capital.

Dentro do freeganismo, existem várias modalidades. “Há pessoas que só vão a supermercados biológicos, enquanto outros vão a todos”. Há quem tenha um estilo de vida mais alternativo, mas “também há pessoas com casa próprias, com herdades, que praticam freeganismo”. Reconhece que “há sempre quem vá reprimir”, mas diz que não sente preconceito. “Vejo as pessoas a apoiarem cada vez mais. Estão a ganhar consciência. Não há aquela coisa do ‘coitadinho'”.

“Há casos que só são utopias na nossa cabeça”

Raghu foi um dos freegans que participou no documentário Wasted Waste, produzido por Pedro Serra. O realizador conta que a ideia surgiu depois de fazer a longa-metragem Que Estranha Forma de Vida sobre comunidades em busca da autossuficiência. Percebeu que este tema “era um pouco tabu”, e resolveu explorá-lo. “Quis mostrar que a alternativa é possível, que há casos que só são utopias na nossa cabeça”. Há quem pense que a recolha feita no lixo é por uma questão de necessidade, “mas são motivações éticas e altruístas, escolhas pessoais”.

Historicamente, conta Pedro Serra, este é um movimento que nasceu nos anos 60, nos EUA. Era uma espécie de protesto contra a guerra do Vietname que passava por dar comida vegana às pessoas. “Um estilo de vida anti capitalismo, de aproveitamento do desperdício, que foi ganhando expressão”. Trata-se de um reaproveitamento não só de comida, como também de roupa, objetos e até espaços físicos, com vista a minimizar “o impacto ambiental e social”. “Há freegans que ocupam edifícios que não estão a ser ocupados”. Por cá, há quem apenas recolha objetos e quem só recicle comida. “As pessoas não têm as mesmas bases”. Não há uma estimativa de quantos adeptos existem no país, mas o grupo do Facebook Freeganismo Portugal conta com mais de cinco mil membros.

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, um terço da comida produzida a nível mundial é desperdiçada, nos vários níveis da cadeia, desde a produção à casa do consumidor.

Nas incursões ao lixo que fez com os freegans, o realizador diz que o que mais o chocou foi “a quantidade de que se encontram coisas em muito boas condições “. Sabia que existiam, mas a quantidade surpreendeu-o. “Às vezes não havia capacidade para trazer as coisas no carro”. E também o impressionou “ver que há supermercados que metem lixívia por cima da comida ou espalham sopas para que não haja pessoas a ir buscar alimentos. Porque ir buscar implica não comprar.”

Resgata muita coisa do lixo – chama-lhe “reciclagem” –, mas não o faz só como forma de alerta para o desperdício alimentar. “É um estilo de vida”.

Para Pedro Serra, ainda há “bastante preconceito” relativamente a esta forma de estar. “Há pessoas que ofendem, como se fosse crime. Por acaso, até é, estupidamente. É proibido fazer recolhas nos caixotes dos supermercados porque é propriedade privada. Mas o que devia ser proibido era deitar comida para o lixo.”

Projetos para combater desperdício

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, um terço da comida produzida a nível mundial é desperdiçada, nos vários níveis da cadeia, desde a produção à casa do consumidor. Por cá, há vários projetos para combater o desperdício alimentar, tanto dentro da própria indústria como ao nível das organizações. É o caso do Fruta Feia, da Re-food e da Zero Desperdício. Este último, por exemplo, já permitiu salvar quase sete milhões de refeições desde 2012, o que corresponde a um valor económico gerado de mais de 16,5 milhões de euros, segundo dados da organização. Com este projeto, foram evitadas 3.277 toneladas de resíduos urbanos e mais de 13 mil toneladas de dióxido de carbono.

Paula Policarpo, cofundadora do movimento, considera que Portugal “tem evoluído de forma sustentada” e que existe atualmente “bastante mais consciencialização”, bem como “muitas iniciativas públicas e privadas”. Mas ainda há muito a fazer, desde a adoção de um “consumo mais consciente” ao “ajuste entre a oferta e a procura”. Na sua opinião, “todos os potenciais produtores de resíduos orgânicos têm vindo a ter uma atitude mais consciente”, mas, sublinha, “nem tudo o que sobra consegue ser recuperado ou é resultado de má gestão”. Há produtos “altamente perecíveis, que os doadores ainda não põem no circuito”.

Sobre o resgate de comida do lixo, Paula Policarpo manifesta “respeito pela individualidade de cada um” e entende a atitude como “demonstração de que há sobras em bom estado que vão para o lixo”. Contudo, alerta, “não estamos a garantir que há condições de higiene e segurança alimentar”, o que lhe parece “altamente arriscado”.

Para Ana Salcedo, da associação Zero Waste Lab, “é um nicho de pessoas em Portugal” que resgata alimentos dos caixotes do lixo, mas “há uma consciência cada vez maior em relação ao desperdício alimentar”. De acordo com as suas estimativas, haverá 30 a 40 projetos em Portugal em torno deste problema. “Houve um crescimento exponencial. Os estrangeiros que vêm viver para o nosso país também se têm juntado à causa”.

Criada no âmbito do programa de Liderança Criativa da THNK Lisbon, esta associação também pretende dar o seu contributo na redução de resíduos, com iniciativas como limpezas de praia, educação e sensibilização nas escolas, transformação de plástico em objetos úteis, consultoria em empresas e bairros. “Nos dois últimos anos, houve um boom gigante a nível mundial e a consciência para esta problemática tornou-se generalizada”.