Como ajudar as crianças a atravessar esta crise (inspire-se no filme “A Vida é Bela”)

Vivemos uma situação difícil que, naturalmente, gera um aumento de ansiedade em todos nós, adultos ou crianças. Saber lidar adequadamente com esta ansiedade pode fazer a diferença entre seguirmos o caminho da patologia e da doença ou, pelo contrário, o caminho da aprendizagem e da mudança. Podemos aprender e crescer com esta crise, se a soubermos gerir.

Enquanto adultos, pais, avós ou outros, o que podemos fazer para que os nossos filhos atravessem esta crise com estabilidade, segurança e saúde mental? A que sinais de alerta devemos estar atentos?

Os pais são os principais modelos das crianças. Logo, a forma como os pais se ajustam é determinante no processo de ajustamento dos seus filhos. Pais alarmados e em pânico apenas contribuem para filhos ansiosos, podendo surgir medos diversos, alterações nos padrões de sono ou alimentação, birras, aumento de agressividade, chichis na cama, entre outras perturbações. No outro extremo, pais descuidados que desvalorizam a gravidade da situação e adoptam comportamentos irresponsáveis geram filhos igualmente descuidados e necessariamente desprotegidos, colocando-se a si mesmos e aos outros numa situação de perigo.

As crianças mais novas (idade pré-escolar), não têm ainda capacidade cognitiva nem maturidade emocional para compreender verdadeiramente o que se passa. Apresentam um pensamento mágico e elevada autocentração, que pode gerar sentimentos de culpa pelas alterações que vivenciam. Podem ainda acreditar que a morte é reversível, tal como acontece nos desenhos animados (morrem e levantam-se logo de seguida).

Os pais devem dar uma explicação simples e adequada à sua idade, salientando que não têm qualquer responsabilidade pelo que está a acontecer. As rotinas devem ser mantidas na medida do possível, o que potencia sentimentos de segurança e previsibilidade. Todas as alterações no quotidiano devem ser previamente explicadas, de forma a criar uma sensação de maior controlo. Dediquem mais tempo ao brincar, que ajuda a diminuir a ansiedade e a elaborar as preocupações.

As crianças em idade escolar apresentam maior capacidade de compreensão e de descentração. Se, por um lado, estas competências facilitam o entendimento do que se passa, por outro, uma maior capacidade empática (em colocar-se no lugar do outro) pode gerar mais angústia e sofrimento. A noção de imprevisibilidade e irreversibilidade da morte (pode acontecer a qualquer pessoa, a qualquer momento e não pode ser invertida) começam a ser adquiridas, o que pode aumentar o medo e a ansiedade. Podem ainda surgir enviesamentos cognitivos e reacções de alarme (“vamos todos morrer”, “o mundo vai acabar”).

Os pais devem explicar com tranquilidade o que se passa, sem alarmismos. O acesso à informação (p. ex., através da televisão) deve ser controlado e acompanhado, para que conteúdos mais difíceis de compreender possam desde logo ser explicados. Manter as rotinas possíveis, brincar e relaxar são palavras de ordem.

Com os adolescentes, as questões que se colocam são outras. Têm capacidade cognitiva para apreender e processar a informação de que dispõem. No entanto, revelam maior autocentração e, frequentemente, sentimentos de grandiosidade e invulnerabilidade, necessidade em testar os limites, procura de prazer imediato e de novas sensações, tendência para a oposição, desafio das normas e impulsividade. São características típicas desta fase de desenvolvimento que, num contexto de crise, podem potenciar comportamentos perigosos e que comprometem a sua protecção e a dos outros. Sentem-se quase super-heróis, destemidos e invencíveis, capazes de enfrentar tudo e todos. E não será um vírus minúsculo que irá derrotá-los.

Os pais devem conversar de forma clara e honesta, definindo os limites com sensibilidade, mas acima de tudo, com firmeza. Definirem aquilo que podem e não podem fazer, sem margem para negociações ou cedências. Compreendemos que sair e estar com os amigos é o que os adolescentes mais valorizam, mas é chegada a hora de adiar o prazer e tolerar a frustração. Deem uso às tecnologias de que tanto gostam (com moderação) e interajam à distância.

Regras básicas para ajudar as crianças a lidar com o stress:

  • Dê doses extra de atenção e carinho
  • Seja paciente com as eventuais alterações de humor ou comportamento
  • Escute as preocupações e responda de uma forma adequada e honesta
  • Brinquem juntos
  • Relaxem juntos
  • Promova o contacto (ainda que à distância) com familiares e amigos
  • Limite o tempo despendido em jogos digitais
  • Riam (o humor é um excelente mecanismo para lidar com o stress)
  • Mexam-se! Mesmo dentro de casa é possível fazer exercício físico
  • Mantenham uma alimentação saudável