Como as novas tecnologias mostram o cérebro a sorrir

A imagiologia cerebral, que permite observar a atividade dos neurónios em direto, abriu a porta ao estudo da felicidade pelas neurociências. Já sabemos que as emoções positivas passam pelos mesmos circuitos da recompensa e do prazer, mas esta aventura está praticamente a começar.

Texto de Filomena Naves | Fotografias Leonel de Castro

É uma caminhada, sobretudo, das últimas três décadas. Eterno desafio para filósofos e poetas, matéria-prima da literatura, do cinema e das artes, a felicidade – esse estado de alma tão íntimo e subjetivo, quase indefinível, efémero, e sempre ansiado – já não é um tema estranho à neurobiologia. Pelo contrário. As novas tecnologias que permitem olhar para o que acontece no cérebro em tempo quase real, como a ressonância magnética funcional ou o PET scan (positon emission technology), que mostram os circuitos e as zonas neuronais em atividade, bem como os avanços na neuroquímica e na neurologia, estão a produzir novos e surpreendentes conhecimentos e a dar-nos outras visões sobre a felicidade. Incompletas ainda, mas mais concretas e palpáveis e, tudo indica, mais próximas da sua verdadeira natureza.

Hoje existe mesmo uma área chamada ciências da felicidade. Engloba a psicologia, que se debruça sobre as emoções positivas, a sua génese e essência, mas também a economia, a sociologia – afinal, não se é feliz sozinho – e as neurociências. Sim, a felicidade está no cérebro – há muita coisa a acontecer ali, dentro das nossas cabeças, quando ela nos acontece – e a ciência já tem formas de lá chegar.

Quando se experimenta as emoções positivas associadas ao bem-estar e ao prazer – os conceitos operacionais que tornaram possíveis estas investigações –, há áreas cerebrais que mostram picos de atividade e neurotransmissores específicos que entram em ação.

“Do ponto de vista da neurobiologia, o que conseguimos avaliar neste momento são as emoções positivas, associadas, por exemplo, ao prazer de uma recompensa”, explica a neurocientista Teresa Summavielle, que estuda a neurobiologia
da adição no Instituto de Investigação e Inovação em Saúde I3S, da Universidade do Porto. “Estas são emoções mais transitórias do que a felicidade, que é mais complexa, e que dependem também da forma como valorizamos uma determinada recompensa, mas já conseguimos medir essas emoções graças às novas ferramentas de imagiologia cerebral.”

O que acontece, então, no cérebro quando experimentamos essas emoções positivas, que se traduzem depois no tal bem-estar subjetivo, íntimo e quase indefinível a que costumamos chamar felicidade?

Ainda não existe uma resposta completa para esta pergunta, mas os estudos das duas últimas décadas já permitem dizer algumas coisas. Uma delas é esta: não há uma única área cerebral associada à felicidade, há várias, e a diferentes níveis de profundidade no próprio cérebro.

O córtex frontal, aquela zona logo à superfície, que grosso modo se localiza atrás da testa, é uma delas. Esta área, que está associada à regulação das funções cognitivas superiores, como o raciocínio ou a tomada de decisão, por exemplo, mostra os tais picos de atividade quando se experimenta essas emoções positivas. “É possível medir isso com EEG [eletroencefalogramas] muito sensíveis”, diz Teresa Summavielle. “Consegue-se registar um pico de atividade nessa zona numa situação de antecipação de uma recompensa, por exemplo, e também conseguimos distinguir a deceção, quando a recompensa não acontece, que se materializa na deflexão da curva de atividade, nessa mesma área do córtex frontal.”

A dopamina regula as emoções positivas e a serotonina está associada ao bem-estar em geral, e a sua libertação naqueles circuitos neuronais é induzida pelas emoções positivas.

Mas há outras regiões envolvidas no processamento das emoções, que estão localizadas no interior do cérebro e de alguma maneira são o seu centro de operações de base. Uma delas, que “se acende” durante essas experiências que usam técnicas de imagiologia em direto, é o chamado núcleo accumbens, uma das estruturas do corpo estriado ventral, que integra os centros de prazer e de recompensa, e cuja atividade é, por sua vez, regulada por neurotransmissores, como a dopamina e a serotonina, sem os quais nada funciona bem.

A dopamina regula as emoções positivas e a serotonina está associada ao bem-estar em geral, e a sua libertação naqueles circuitos neuronais é induzida pelas emoções positivas. Num estado de euforia, por exemplo, os níveis de serotonina são como um banho excessivo, e em momentos depressivos prolongados estão muito abaixo do normal. Para quem estuda estas matérias delicadas, eles são alvos óbvios para eventuais abordagens terapêuticas da depressão, ou dos estados eufóricos que caracterizam alguns estados de perturbação mental.

Quando a felicidade se torna um vício

É aqui, nestas estruturas de base relacionadas com a regulação das emoções positivas, da recompensa e do prazer, que se joga, por isso mesmo, a problemática das adições, ou seja, da dependência de substâncias como as drogas, o álcool ou até a nicotina. Todos eles atuam sobre estes circuitos neuronais da recompensa, sobreativando a libertação destes neurotransmissores.

Como seria de esperar, o sistema de recompensa no cérebro é naturalmente ativado pelas funções vitais, como a alimentação, o sexo ou a socialização, e é graças a ele que o cérebro aprende a repetir esses comportamentos, que são essenciais à sobrevivência.

Programado para reproduzir e reforçar o que lhe dá prazer, o cérebro também aciona o modo repetição no caso do consumo de algumas substâncias, e como elas conseguem gerar duas a dez vezes mais a libertação de dopamina, em relação às quantidades que os estímulos naturais induzem. Isso acaba por levar com facilidade à dependência: naturalmente, o cérebro quer renovar aqueles níveis de bem-estar e de prazer.

“O princípio da adição é uma busca da felicidade através destas muletas químicas”, diz.

O sistema de recompensa, entretanto, está diretamente ligado ao tronco cerebral (que regula funções vitais como o sono, a respiração e o batimento cardíaco) e ao córtex cerebral, onde se processam funções superiores, como o raciocínio lógico, o planeamento e as decisões, o que explica as alterações – fisiológicas, de humor e de capacidade de raciocínio – nas pessoas que utilizam substâncias psicoativas.

“Os circuitos são os mesmos”, sublinha Teresa Summavielle. “O princípio da adição é uma busca da felicidade através destas muletas químicas”, diz. “A utilização de drogas preenche um vazio, e a libertação destes neurotransmissores, que noutras circunstâncias seria produzida pelas emoções positivas de uma vida afetiva preenchida, passa a ser induzida pelo consumo das substâncias”, diz a neurocientista.

Esta é, de resto, a sua área de investigação. No I3C, Teresa Summavielle lidera uma equipa que estuda os mecanismos neuronais da adição, procurando vias menos óbvias para eventuais alvos terapêuticos. “Nas últimas décadas, o estudo dos circuitos neuronais do prazer e da recompensa centraram-se nos neurónios e negligenciaram as populações de outras células que também estão ali presentes, e nós estamos a trabalhar sobre isso”, diz a investigadora.

A sua equipa já conseguiu identificar algumas moléculas que regulam a comunicação entre os neurónios e essas outras células (chamadas astrócitos e microglias) que, diz a investigadora, “são potenciais alvos terapêuticos no futuro” para situações em que essa comunicação está perturbada. “O objetivo é tentar encontrar compostos já validados para outros problemas na área da saúde mental, mas ainda precisamos de mais dois ou três anos de trabalho no laboratório antes de avançarmos para ensaios clínicos.”

Uma sede para a felicidade no córtex cerebral

Esta é uma área de estudo em ebulição, onde há muito ainda a conhecer, mas as novas tecnologias estão a dar uma preciosa ajuda, e a boas ideias faltam. Veja-se o caso da equipa do neurocientista Wataru Sato, da Universidade de Quioto, que decidiu olhar para esta questão da felicidade no cérebro e acabou por fazer uma descoberta surpreendente.

Utilizando a tecnologia da ressonância magnética funcional, os cientistas japoneses fizeram em 2015 um estudo que permitiu confirmar uma outra zona do córtex como estando associada também à felicidade: o pré-cúneo, situado no lobo parietal.

Investigações anteriores já haviam detetado aí uma maior atividade associada às emoções positivas, mas o grupo de Wataru Sato descobriu que o pré-cúneo é mais volumoso e tem mais conexões em pessoas que se identificam a si próprias como mais felizes, e que pode mesmo ser a sede, no córtex cerebral, daquilo a que chamamos felicidade. No artigo que publicaram nesse ano, na revista Scientific Reports, é isso mesmo que propõem.

Para chegarem a essa conclusão, os investigadores avaliaram 26 mulheres e 25 homens com base na chamada Escala de Felicidade Subjetiva, criada por Lyubomirsky e Lepper, em 1999, de forma a tornar este conceito operacional, e depois captaram imagens por ressonância magnética funcional dos cérebros de cada um dos participantes. Todas as pessoas que se percecionavam a si próprias como mais felizes tinham mais conexões neuronais naquela zona do córtex, independentemente do sexo, da idade e dos resultados dos testes de inteligência a que também responderam.

Outros estudos independentes mostraram, entretanto, que esta mesma região cerebral apresenta um défice de conectividade em pessoas que estão deprimidas e, nas suas conclusões, os investigadores da Universidade de Quioto sugerem que o pré-cúneo faz o papel de mediador entre o sentimento subjetivo de felicidade e os elementos emocionais e cognitivos de que ele é feito.

Na altura, Wataru Sato não resistiu ao trocadilho: “Estou muito feliz, porque agora sabemos um pouco mais sobre a felicidade.” Mas, além da emoção positiva que a descoberta lhes proporcionou, os neurocientistas japoneses acreditam que ela pode ter aplicações para a saúde mental, uma vez que há dados que mostram que “a prática continuada de meditação induz o aumento da massa cinzenta nesta área do pré-cúneo”, como sublinharam na altura. “Este novo conhecimento”, augurou Wataru Sato, “poderá ser muito útil para desenvolver programas de apoio psicológico mais eficazes, para promover os estados de felicidade”.


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