Como e quando falar de sexo às crianças?

E, tão importante como isso, quando fazê-lo sem as deixar mais confusas ou cair na tentação de as ignorar, como muitos pais ainda fazem? Convenhamos: se sexo é tão bom que nos faz aqui estar hoje todos a ter esta discussão, porque nos custa tanto abordá-lo sem vergonhas?

Texto Ana Pago | Fotografia ShutterStock

O primeiro sinal que Andreia Ramos teve que a filha era precoce foi quando o irmão nasceu, tinha ela 3 anos, e perguntou à mãe por que raio não podia ter uma pilinha como a do pai e a do bebé, aqueles pipis delas não tinham graça nenhuma. «Embatuquei na hora», conta a comercial, a rir. «Só queria fugir ou ter um buraco onde me enfiar.»

Mal sabia Andreia que a tirada decidida da miúda seria apenas a primeira de muitas, nem sempre sozinhas, nem sempre em casa. «Já passei as maiores vergonhas com a Rita, mas fazer o quê?

Nunca fui adepta de lhe mentir e dizer que veio no bico da cegonha.» E ainda bem, elogia Mónica Cró Braz, pediatra do Hospital CUF Descobertas.

«A sexualidade deve ser um tema abordado com naturalidade quando a oportunidade surge – nunca imposto –, de forma espontânea, com conversas adequadas à maturidade e à idade das crianças», diz. E ter esse à-vontade

a falar não significa mediocrizar algo que a Organização Mundial de Saúde define como uma energia que nos motiva a procurar amor, ternura e intimidade, integrada no modo como sentimos, tocamos e somos tocados. «A ideia é desmistificar para que fique mais fácil de geração para geração, tendo presente que cada família é única», diz a pediatra.

45% de adolescentes canadianos entre os 14 e os 17 anos afirmaram num estudo da Universidade de Montreal que conversavam sobre a sua curiosidade sexual com os pais enquanto 32 por cento conversavam com amigos.

Na de Andreia e Rita é ponto assente que a mãe não deixa a filha de 7 anos sem respostas (e ela pergunta muito) e que o pai faz outro tanto com o filho de 4 – aparentemente menos curioso do que a irmã na mesma idade, embora já tenha querido saber como foi feito.

«Na semana passada estava eu com os dois lá em casa, o meu marido tinha saído para trabalhar, e coube-me explicar isto ao Gui da melhor maneira possível, sem omitir como o espermatozoide chega ao óvulo.»

De novo, a história da sementinha não era opção. «Sei que a irmã o ajuda a perceber quando é preciso, o pai também conversa com ele, mas na maioria das vezes sobra para mim.»

E na verdade, entende a mãe, ensinar a sexualidade às crianças é muito diferente de sexualizá-las, como tanta gente pensa. É justamente o oposto, confirma um estudo da Universidade de Montreal, Canadá, realizada com mais de mil adolescentes dos 14 aos 17 anos: quanto mais a criança for enganada em pequena, mais cedo tentará satisfazer a curiosidade sexual, arriscando experiências antes de tempo.

A pesquisa apurou ainda que 45 por cento dos entrevistados conversavam com os pais e 32 por cento com amigos. Entre os que mantinham um diálogo mais aberto, apenas 18 por cento eram sexualmente ativos, contra 37 por cento no grupo dos que não tocavam no assunto.

A descoberta do corpo inicia-se muito cedo

Antes mesmo do primeiro ano de vida, naquilo a que o médico neurologista Sigmund Freud, pai da psicanálise, designou como a fase oral da sexualidade infantil.

«Algumas crianças vivenciam o que chamamos fenómenos de autogratificação com 8 ou 9 meses», revela a pediatra Mónica Cró Braz, considerando que o diálogo só fará sentido mais tarde, após os 24,30 meses, quando a linguagem estiver completamente estabelecida.

«Sabemos que são fenómenos normais de exploração do corpo, sem nenhuma conotação com a sexualidade adulta. Não devem ser condenados», diz.

Por volta dos 18 meses e até aos 3 anos e meio, altura em que começam a controlar a bexiga e o esfíncter anal, os pequenos experimentam uma nova fase de prazer, marcada não só pelos elogios ao irem sozinhos à casa de banho, como por descobrirem que têm um órgão sexual.

«Muitas vezes sucede as conversas proporcionarem-se e os pais fugirem delas, por não se sentirem preparados ou acharem que as crianças ainda não entendem.»

Para a psicóloga e sexóloga Cristina Mira Santos, esta pode ser uma ótima ocasião para os educadores introduzirem as noções de privacidade e intimidade. Do que é público – a rua, o supermercado, a escola – e do que é privado – a casa de banho, o nosso quarto ou o quarto dos pais, diferentes da cozinha e da sala.

«Todos passam pela fase de apontar e fazer comentários. Essa é boa altura para se estar atento ao tipo de observação e responder nem mais nem menos do que nos perguntam, para não os deixarmos confusos», adianta a especialista.

A criança percebe que o pénis do pai é grande? Pode dizer-lhe que começou por ser do tamanho do dele ou do irmãozinho (como Andreia teve de contar à Rita) e ver como reage.

«Lá está: não vai explicar o que é uma ereção se a criança não se apercebeu do que é estar mole ou duro.» Tal como não vai ignorar o que ouviu por ser mais cómodo, ressalva a sexóloga. «Muitas vezes sucede as conversas proporcionarem-se e os pais fugirem delas, por não se sentirem preparados ou acharem que as crianças ainda não entendem.»

Aos 4, 5 anos, é normal questionarem as diferenças entre meninos e meninas e quererem explorar-se a si mesmas e ao outro – nesta fase, é particularmente importante reiterar os cuidados a ter com o corpo e o conceito de privacidade: podem tocar-se, não é vergonha nenhuma, só não podem fazê-lo em público.

Aos 6,8 anos manifestam vontade de conhecer em detalhe a conceção, a gravidez, o parto. Dos 9 aos 11 anos, em plena puberdade, é útil conversar sobre menstruação, as mudanças no corpo, reforçar a higiene íntima. Os 12,13 anos pedem que se encare o período, a ejaculação, métodos contracetivos, doenças sexualmente transmissíveis e o que mais preocupa pais e filhos.

Uma das questões mais sensíveis é a masturbação

Ou, pelo menos, o toque com prazer consciente, que Cristina Mira Santos considera ser o início de muitos traumas e problemas sérios no futuro, quando os pais não o aceitam sem culpabilização.

«Admito que não é fácil para um adulto dizer “Olha, a mãe e o pai também fazem, é normal. Ao tocar em determinado ponto sentimos prazer e é um prazer bom.” Mas é fundamental fazê-lo e, mais uma vez, os pais não estão preparados para isto», lamenta a psicóloga.

Nem se apercebem de que a sua resistência em falar da sexualidade dos filhos indica que eles próprios têm assuntos por resolver na sua vida íntima, com os quais terão de aprender a lidar.

Se por acaso a criança chega aos 10 anos sem nunca manifestar curiosidade, é sinal de que está na altura de os pais puxarem o assunto.

Já para não falar de que miúdos sem educação sexual ficam especialmente vulneráveis ao não conhecerem o próprio corpo. «Hoje, com a internet e as redes sociais, muitas crianças deparam-se mais cedo com o tema da sexualidade, o que, se por um lado traz maior esclarecimento, por outro, abre caminho a informações desadequadas para cada etapa do desenvolvimento», alerta Mónica Cró Braz.

Aos pais, segundo a pediatra, cabe aconselhar e saber onde procurar informação fidedigna. Ensinar-lhes que há zonas íntimas que só eles, os seus cuidadores e o médico devem poder ver e tocar. «O abuso sexual tem de ser ativamente prevenido.»

E se a criança chega aos 10 anos sem nunca manifestar curiosidade? «Acho que se os pais não deram conta de nada até aí é porque estão desatentos», sublinha Cristina Mira Santos, para quem esta ausência é, em si mesma, um sinal de que devem avançar logo que se proporcione.

Veja na fotogaleria como responder a perguntas difíceis.

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