Como evitar divórcios em tempos de pandemia

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A quarentena manda não sair de casa e esse pode ser um dos efeitos positivos da covid-19: fazer com que os casais passem mais tempo juntos. Porém, também pode ser desastroso e acabar em divórcio se não souberem lidar com as contrariedades inevitáveis.

Texto de Ana Pago

Ninguém se esquece do caráter repentino desta pandemia, todos sempre à espera que aconteça algo, movidos por um sentido de urgência típico de uma guerra. O isolamento social vai ficando desconfortável – para muitos casais mais cedo do que esperavam –, com menos escapes à volta a impedi-los de remoer o que cada um disse ou fez. “As pessoas não lidam da mesma maneira com a incerteza, o que em si mesmo pode gerar discussões”, avisa a psicóloga clínica Cláudia Morais. Junte-se a isso variáveis que tornam a convivência familiar mais difícil do que numas férias – a ansiedade, o medo, a dificuldade de sair para espairecer, falar com amigos, pensar noutros assuntos – e é de supor que várias relações acabarão em divórcio.

“Os períodos em que os casais passam mais tempo juntos, como o verão ou o Natal, são quase sempre recheados de grandes expectativas por representarem a oportunidade de finalmente parar para relaxar em família”, explica a terapeuta familiar e de casal, autora de Continuar a Ser Família Depois do Divórcio (Livros Horizonte), Os 25 Hábitos dos Casais Felizes (ed. Manuscrito) ou Sobreviver à Crise Conjugal (Oficina do Livro).

Ainda assim, sucede com frequência o oposto: pausas familiares põem a nu todos os vazios, todas as lacunas da relação. Por vezes é nessas alturas que se descobre uma relação extraconjugal.

Alguns casais irão confrontar-se com problemas antigos. Outros sentir-se-ão atropelados por uma imensidão de novos problemas.

“Enquanto estamos ocupados com o trabalho, as tarefas domésticas, a escola, as atividades dos filhos, acabamos por prestar menos atenção aos nossos sentimentos e necessidades, bem como aos sentimentos e necessidades da pessoa que está ao nosso lado”, esclarece Cláudia Morais. Quando as emoções tomam conta do casal (e não há como uma pandemia de coronavírus para sublimar esse nosso lado menos ponderado), é provável que a tensão aumente. Discussões podem tornar-se mais acesas e dar azo a um círculo vicioso em que ambos reclamam do outro e se sentem injustiçados.

“Alguns casais irão confrontar-se com problemas antigos. Outros sentir-se-ão atropelados por uma imensidão de problemas novos já que às dificuldades anteriores, decorrentes da própria relação, juntam-se desafios de natureza financeira, incerteza em relação à manutenção do trabalho e preocupações com a saúde de familiares”, enumera a terapeuta conjugal. Por outro lado, diz, também haverá quem consiga sair desta crise com a relação fortalecida. Há sempre inúmeros casais que se sentem mais unidos na sequência de acontecimentos especialmente difíceis.

A raiva mascara outros sentimentos que nos deixam mais expostos e vulneráveis, como a tristeza, o medo ou a solidão.

“Uma das ferramentas para evitar a escalada da tensão (e assim proteger a relação) consiste em reconhecer e verbalizar as emoções de forma clara, assertiva e compassiva”, ensina a psicóloga clínica, considerando a técnica mais fácil de dizer do que de fazer, porém possível: “É essencial cada um de nós reconhecer que tem o direito de sentir tudo, mas não de fazer tudo, seja em tempos de covid-19 ou noutros quaisquer.” Assumir que haverá alturas em que se vai sentir furioso (é natural que assim seja), embora não deva nunca despejar essa emoção descontrolada na pessoa que tem ao lado. “A raiva é a camada superficial que nos permite levar tudo à frente, mas é também um sentimento que mascara outros que nos deixam mais expostos e vulneráveis, como a tristeza, o medo ou a solidão”, observa Cláudia Morais.

Igualmente importante é lembrarmo-nos das muitas qualidades do parceiro, dado que foram elas que um dia nos fizeram escolhê-lo. “De um modo geral, a pessoa que está ao nosso lado preocupa-se genuinamente connosco. É alguém capaz de gestos altruístas, que deseja o melhor para nós”, acredita a especialista, recomendando paciência de parte a parte porque o outro pode até ser imperfeito, tirar-nos do sério, mas também está a fazer os possíveis numa fase em que ele próprio se sente stressado e inseguro face ao contexto.

Parece um paradoxo casais afastarem-se quando passam mais tempo juntos, mas a verdade é que precisamos de mais para nos sentirmos felizes e protegermos a relação conjugal.

“Apesar de parecer paradoxal casais afastarem-se quando têm mais tempo para estar juntos, a verdade é que precisamos de uma ‘aldeia’ inteira para nos sentirmos felizes e protegermos a nossa relação conjugal”, garante a terapeuta familiar. Tendo um grupo com quem sair, conversar, praticar desporto, chorar num momento de aflição, estamos a alimentar a nossa individualidade e a retirar pressão dos ombros da pessoa amada. “Pelo contrário, quando o cônjuge tem de ser o amante, o melhor amigo, o psicólogo, o confidente e o companheiro de todas as aventuras, existe demasiada pressão”, diz.

Acima de tudo, reforça Cláudia Morais, importa ter em conta uns quantos pontos-chave que, de tão simples, tendemos a descurar:

Respirar fundo. Antes de dar um par de berros ou fazer acusações, é importante parar. Se formos capazes de questionar “O que é que eu estou a sentir para lá da raiva?” e “Do que é que eu preciso?”, é mais provável conseguirmos expressar-nos sem assumir uma postura agressiva. Aquilo que se pretende (e funciona) é que sejamos capazes de conseguir dizer “Preciso de ti”, em vez de “Tu não fazes nada de jeito”.

Compaixão. Implica que tentemos genuinamente colocar-nos no lugar do outro, conhecer as suas preocupações, o que o inquieta, o que lhe faz falta. Se formos capazes de ver a pessoa que está ao nosso lado, reconhecendo e valorizando as suas emoções, também ela se sentirá motivada a responder com atenção e afeto aos nossos apelos.

Autocompaixão. Ninguém é perfeito – a começar por nós mesmos –, pelo que importa aceitar que há demasiadas coisas para gerir, estamos a dar o nosso melhor, não faz mal se cometermos erros. E quando errarmos com a pessoa ao nosso lado, dispomos de uma ferramenta valiosa que, regra geral, distingue os casais felizes dos casais em crise: a capacidade de pedir desculpa.

Pedir desculpa. Não se trata de um pedido feito à pressa para aliviar a própria pressão e sim de dar o primeiro passo, de forma altruísta, para voltar a ficar tudo bem. É preferível engolir o orgulho e tomar a iniciativa de proteger a relação, em vez de insistir num braço-de-ferro inútil apenas para provar que temos razão.

Espaço. A maioria das relações necessita de uma certa “distância de segurança” que permita a cada um explorar os seus interesses e a sua individualidade, ao mesmo tempo que acrescenta a novidade, a sedução, o mistério e a consciência de que o parceiro que está ao nosso lado nos escolheu, como nós o escolhemos, mas não é verdadeiramente nosso nem está garantido. É muito pela falta deste espaço que o isolamento forçado pela pandemia é uma fonte de desgaste, mesmo para os casais mais felizes e saudáveis.

Contenção. É essencial que cada um tome conta das próprias emoções e aprenda a exteriorizá-las de forma clara, sem ataques pessoais. Tão preocupante como os casais em permanente escalada de tensão são os que nem sequer discutem, por terem desistido de deitar cá para fora aquilo que os incomoda. Até ao dia em que percebem já não haver ligação.

Comunicação. Mesmo com as famílias fechadas em casa, acontece cada um ficar no seu canto agarrado às redes sociais, sem falar com os outros, quando podiam estar a criar ou reforçar rituais de relaxamento e conexão. As refeições são um bom ponto de partida para toda a gente se reunir à mesa a comer e, porque não?, a partilhar sentimentos. Também pode ser a altura ideal para ir repescar os jogos de tabuleiro e ganhar novos hábitos de lazer.

Intimidade. Sendo certo que o desejo sexual pode ser afetado pela ansiedade provocada pela pandemia, nada nos impede de manter os gestos de afeto que mostrem ao outro, de forma clara e recorrente, que o amamos. Poucas coisas são tão terapêuticas como o toque, a fazer-nos sentir naturalmente mais seguros e otimistas.

Desejo. Ainda do ponto de vista da intimidade física, é essencial que cada um fale abertamente do que sente e precisa, de modo a evitar equívocos e sentimentos de rejeição. É igualmente importante comprometermo-nos para que o sexo não desapareça das nossas vidas, criando momentos só para o casal que contrariem a vontade de andar de pijama o dia todo. E momentos de autocuidado só para si.

Malabarismos. É um facto: ninguém nos preparou para isto de ser pai, mãe, profissional, professor, educador de infância, empregado doméstico e tudo o mais que nos é solicitado todos os dias, sem pausas, com a família enfiada em casa ao mesmo tempo. Não é fácil gerir as exigências profissionais com a carga de trabalhos escolares, e mesmo nada fácil combinar a privacidade que exigem as reuniões por videoconferência com as birras e solicitações das crianças pequenas. Por isso chega de ser duro consigo.

Perspetiva. Às vezes é tentador compararmo-nos com aquilo que vemos na montra do Facebook ou do Instagram e esquecermo-nos de que as fotografias que ali vão parar são um pequenino excerto da vida de cada um. Quase ninguém publica fotografias da casa virada do avesso ou das birras dos filhos, apesar de atualmente ser essa a realidade da maior parte das famílias.