Como lidar com a demência na época natalícia

Estamos no mês de dezembro, o momento do ano em que juntamos os mais próximos para celebrar o Natal. No entanto, a época natalícia pode revelar-se uma altura de grandes desafios para os cuidadores, familiares e amigos de pessoas com demência.

Texto de Ana Patrícia Cardoso | Fotografia de iStock

A Organização Mundial de Saúde (OMS) calcula que em todo o mundo existam 47,5 milhões de pessoas com demência, número que pode atingir os 75,6 milhões em 2030. A doença de Alzheimer assume, neste âmbito, um lugar de destaque, representando cerca de 60 a 70 por cento de todos os casos de demência.

Ana Margarida Calaveiro, psicóloga clínica e diretora da associação Alzheimer Portugal, fala das dificuldades na quadra natalícia e dá alguns conselhos práticos para viver esta altura da melhor forma.

Na prática, por que motivo o Natal é um desafio maior para pessoas que sofrem de demência e para os seus familiares e cuidadores?
Esta é uma altura que foge à rotina das pessoas com demência. É uma quadra que só comemora uma vez por ano e elas ficam muitas vezes desorganizadas porque, de facto, os horários mudam, há gente sempre a mover-se de um lado para outro e este pode ser um fator de confusão. Para elas, é como se estivesse a acontecer pela primeira vez.

É exigente do ponto de vista emocional?
É isso. O que acontece é que há muita agitação à volta da pessoa e alguns estímulos tornam-se perturbadores. Aconselhamos sempre quem cuida a organizar as atividades de forma a não sobrecarregar as pessoas para que estas não se sintam perdidas.

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Quais são esses estímulos perturbadores?
Mesmo numa fase inicial da demência, há situações que temos sempre de ter em conta. Um dos sintomas que toda a gente conhece é a perda de memória a curto e médio prazo. Podem chegar visitas a casa e a pessoa sente que devia conhecê-las e não conhece. Sente que é posta em xeque e isso é perturbador. O melhor é que os familiares ou cuidadores se adiantem e façam logo um enquadramento da situação, por exemplo: «Chegou a prima Joana, que é a filha do teu irmão Manuel.» Naquele momento, ela é informada sobre quem é aquela pessoa e não se sente perdida. Este enquadramento é essencial.

Existem casos em que é melhor não expor as pessoas a estas situações?
Na maioria das vezes, é melhor irem. É uma questão de organização, como falámos, não vejo por que não integrar as pessoas nas atividades. Mesmo com condicionantes óbvias, a pessoa sente que é acarinhada pela família. Sentem-se úteis e que fazem parte daquele ritual.

Podem inclusive ajudar também.
Claro que podem e devem mesmo. Podem participar nos embrulhos, na montagem das decorações, da árvore de Natal, nas refeições. É uma forma prática de perceber o que está a acontecer, qual é o significado e quem está à sua volta.

Em famílias com muitas crianças é preciso algum cuidado especial? Uma vez que estas podem ser uma fonte quase inesgotável de energia e podem confundir a pessoa com demência.
É muito importante fazer essa sensibilização dos mais novos antes das reuniões familiares. Podem explicar o que é a demência e, de forma simplificada, o que é que isso implica. Se lhes for corretamente explicado, as crianças sentem que também podem ajudar e acabam por comportar-se. Se uma criança é integrada na conversa e lhe é pedido apoio em determinado momento, ela própria vai tomar consciência e pensar: «Não vou pular ao pé do avô» ou «Vou dar-lhe um abraço». É uma forma mais sentida de agirem.

Falamos da relação emocional mas, mesmo a nível cognitivo, ajuda muito estar com pessoas e fazer coisas em família nesta altura, não ajuda?
Ajuda essencialmente à estimulação cognitiva. Acima de tudo, estão a pensar. Estamos a colocar a sua mente em funcionamento e, com isso, fazemos com que o processo degenerativo seja mais lento.