Como não estragar completamente os filhos

James Breakwell

Escritor de comédia, pai de quatro filhas e especialista em parentalidade amadora, James Breakwell é um divertidíssimo influencer parental. A sua conta de Twitter @XplodingUnicorn tem mais de um milhão de seguidores e com o este livro – Como Não Estragar (completamente) os Filhos – Manual para pais que não acreditam em manuais para pais [ed. Asa] – de que pré-publicamos hoje o segundo capítulo, quer fazer o que faz sempre: desdramatizar esta aventura extraordinária que é ter filhos. E criá-los. James Breakwell tem um método para partilhar com os leitores: a “parentalidade pela lei do menor esforço”. Aproveite. Os conselhos vêm com um bónus: umas boas gargalhadas.

Capítulo 2

O Seu Filho É Igual aos Outros

O seu filho é especial, um ser humano único como este mundo nunca viu. E o mais provável é que venha a ter uma vida normal, não muito diferente da sua. Neste momento, há literalmente milhares de milhões de pessoas espantosas, criativas e brilhantes que nunca farão nada particularmente espantoso, criativo ou brilhante. Nunca acredite em nada do que lê numa carta de recomendação. Ou num obituário.

E não faz mal. O seu filho não tem de ser um talento daqueles que surgem uma vez a cada geração para ter uma boa vida. Ser um génio em alguma coisa não acarreta uma taxa elevada de satisfação em termos de carreira. Os artistas torturados raramente morrem de idade avançada, rodeados pelos seus entes queridos. É quase impossível, num mundo de drogas, armas e sanduíches em cima de sanitas.

Os pais superesforçados não querem ouvir esta mensagem. Esperam que os seus filhos incendeiem o mundo e colham as respetivas recompensas: fortuna, prestígio e – se houver tempo para isso – felicidade. Mas o seu filho sair-se-á melhor se você não tentar alcançar esses objetivos – nem mesmo o último. As melhores coisas na vida acontecem por acaso.

Para termos sucesso como pais – e ultrapassar a maioria dos pais superesforçados ao mesmo tempo -, temos simplesmente de criar filhos que alcancem estes três marcos:

» Que sejam capazes de se sustentar.
» Que não sejam sociopatas.
» Que não culpem os pais por tudo o que lhes correr mal na vida.

O vosso objetivo como pais pela lei do menor esforço é alcançar estes três objetivos da forma mais fácil possível. O resultado será um adulto funcional do qual poderão orgulhar-se ou, pelo menos, um adulto que conseguirão pôr fora de vossa casa. Não se deixem intimidar pelos pais superesforçados que estabelecem objetivos mais elevados. Os únicos prejudicados serão os filhos deles. Quando tentamos saltar até às estrelas, a queda dói mais.

Resumir a educação de uma criança em termos tão simples faz com que criar um filho pareça fácil e, no mundo da parentalidade, fácil significa errado. Mas não no meu livro. Vamos analisar melhor estes três marcos para mostrar porque é que a parentalidade de sucesso é tão simples que até eu consigo fazê-lo. É difícil ter padrões mais baixos do que isso.

Vai e não voltes

A maneira mais rápida de perceber se um filho se saiu bem é conseguirmos ver-nos livres dele. Empurrar suavemente um filho porta fora é o maior triunfo na vida de quaisquer pais. Mas os filhos não vão a lado nenhum se não tiverem emprego. É por isso que educar uma criança para conseguir sustentar-se é o primeiro marco de uma parentalidade bem-sucedida. Sem salário ao fim do mês, o seu filho viverá consigo para sempre – a menos que não se importe que ele seja um sem-abrigo. Depois de o imbecil voltar a pôr o pacote de leite vazio no frigorífico pela décima vez, não me admira que não se importe.

Como pais pela lei do menor esforço, o que queremos essencialmente é que os nossos filhos paguem as suas contas e não venham pedir-nos dinheiro todos os meses. A dada altura, o parasitismo tem de acabar. Só é pena que não seja mais cedo. Não é fácil conseguir dinheiro para comida de um miúdo de três ou quatro anos.

No que diz respeito ao futuro emprego dos filhos, o dinheiro é importante, porque, se eles não ganharem nenhum, terá de ser você a fornecê-lo. A olaria interpretativa pode ser uma carreira muito satisfatória mas, a menos que o seu filho consiga arranjar alguém que pague a angústia existencial que ele expressa nas suas travessas de barro, você terá de o sustentar até morrer. Ou até ele morrer. Os fornos de cerâmica são mais perigosos do que parecem.

Nunca encoraje o seu filho a seguir um caminho que pode levá-lo a ficar a viver na sua cave. Não precisa de o desencorajar diretamente de escolher uma carreira divertida mas miserável. Simplesmente relaxe e veja-o ser esbofeteado pela mão invisível do mercado livre. As melhores lições são as que deixam marca.

O preço do luxo

Os filhos bem-sucedidos precisam de dinheiro suficiente para se sustentarem, mas não de muito mais do que isso. Ao contrário do que os pais superesforçados possam dizer, um filho não tem de ser milionário para nos orgulharmos dele. Longe disso. Alguns dos maiores falhados que conheço são ricos. Bom, não conheço, mas já ouvi falar. Já leram o suficiente para perceber que eu não tenho amigos ricos. Nem nenhum tipo de amigos.

Desde que o seu filho não viva a contar tostões, os aumentos de rendimento não lhe facilitam muito a vida. Sim, algum dinheiro extra pode ajudar numa reforma antecipada ou a pagar os estudos da geração seguinte, mas, em termos de vida quotidiana, o dinheiro não é tudo. A verdade é que, em média, na civilização ocidental, as pessoas vivem melhor do que os reis mais ricos da Europa em séculos passados. Se quisermos pimenta, vamos ao supermercado, não precisamos de mandar uma frota de galeões para o outro lado do mundo. E mesmo assim queixamo-nos se não estiver em promoção.

O maior benefício da riqueza não é o que ela permite às pessoas fazer, mas sim o que lhes permite deixar de fazer. A classe mais alta pode pagar a alguém para fazer as suas tarefas menores. Coisas desagradáveis como cozinhar, limpar e criar os filhos podem ser transferidas para os criados. Se vale a pena fazer, vale a pena pagar a alguém o ordenado mínimo para que o faça.

Contudo, as pessoas ricas que se elevam acima das dificuldades triviais da vida encontram um novo nível de dificuldades ainda mais triviais de que se queixarem. Todos o fazemos, em maior ou menor grau. A História não passa uma escala móvel de queixas em que as pessoas ficam igualmente furiosas por causa de problemas cada vez mais insignificantes. Uma pessoa que perdia a família inteira na peste negra do século XVI queixava-se tanto como alguém se queixa hoje em dia por causa do wi-fi lento. E não pense que consegue obrigar as pessoas a ver as coisas desta perspetiva. Demoraria muito tempo a pesquisar no Google.

As queixas dos ricos encontram-se na mesma escala móvel que as queixas de todas as outras pessoas. Simplesmente os ricos encontram-se um pouco mais à frente, o que acaba por os pôr em risco: é difícil ouvir um empresário abastado queixar-se de que o assento aquecido da sanita está demasiado quente sem querer dar-lhe um murro no nariz. Já houve revoluções que começaram por menos.

Se o seu filho crescer e tiver um frigorífico abastecido de comida, um bar abastecido de bebida e uma televisão abastecida de canais, não precisa de muito mais. Não vale a pena pressioná-lo para ser rico. Na verdade, manter o seu filho na classe média pode bem salvar-lhe a vida. Ninguém quer ser apanhado do lado errado quando rebentarem as revoltas dos assentos de sanita.

Um de nós

A vida não é um concurso de popularidade. Dito isto, se toda a gente odiar o seu filho, você perde. Há alturas em que compensa não ser a pessoa mais detestada de um grupo. Por exemplo, nas eleições. Ou num barco a afundar-se, quando é preciso decidir quem é que vai borda fora para salvar os restantes.

É por isso que, enquanto pais, temos de impedir que os filhos sejam excessivamente antissociais. O seu filho não precisa de ser a pessoa mais adorada do bairro. Simplesmente tente impedir que ele seja declarado um inimigo de Estado. Sinais óbvios de fracasso nesta área incluem exílio, penas de prisão e artigos virais que façam com que toda a gente despreze o seu filho. Para a próxima, não o deixe escrever uma publicação intitulada «Porque odeio gatinhos bebés». Ou, pelo menos, deserde-o primeiro.

Este é outro marco em que os pais superesforçados falham. Querem que os filhos sejam amados por todos, não por desejarem espalhar paz e harmonia, mas por causa do seu próprio ego. Se um pai superesforçado for o melhor, então o seu filho tem também de ser o melhor. E, se alguém se recusar a reconhecer a grandeza do menino, bem pode dar graças a Deus por os duelos de pistola serem ilegais em todo o lado menos no Texas e no Vermont.

Não é realista esperar que toda a gente adore os nossos filhos, independentemente dos méritos que eles possam ter. As pessoas odeiam-se umas às outras por boas razões e más razões e sem razão nenhuma. Na melhor das hipóteses, toleramos, de má vontade, os outros seres humanos – e as chatices que os acompanham – para impedir o colapso da civilização. Se as pessoas mostrassem o que realmente sentem quando ouvem alguém a mastigar cereais, os pequenos-almoços de todas as famílias transformar-se-iam num filme de terror. Tenha guardanapos sempre à mão.

Nunca saberá realmente o quanto as outras pessoas gostam do seu filho, mas há boas probabilidades de que seja menos do que você pensa. E não faz mal. Certifique-se apenas de que o seu filho não é mau ao ponto de as pessoas se juntarem em turbas enraivecidas para o expulsar da cidade. Se o único exercício físico que ele faz é fugir de forquilhas e tochas, podemos partir do princípio de que você falhou como pai.

Para além destes critérios básicos, os objetivos de socialização na parentalidade pela lei do menor esforço são mínimos. Uma criança bem-sucedida consegue, quando necessário, interagir com outros seres humanos sem causar incidentes. Se o seu filho consegue ir ao supermercado sem incendiar nada, é porque fez um trabalho aceitável a criá-lo. E se ele não consegue resistir a queimar coisas, há sempre a possibilidade de fazer compras online. Desde que lhe bloqueie os sites que vendem fósforos.

A culpa não é minha

O terceiro marco é aquele que surgirá mais frequentemente na vida quotidiana. Para que você seja bem-sucedido, o seu filho tem de pôr as culpas dos problemas dele noutra pessoa que não os pais. Eu diria que os filhos devem assumir as suas próprias responsabilidades, mas não é assim que as pessoas funcionam.

Mesmo quando cometemos erros, é porque alguém nos obrigou a isso. Ninguém come demasiado, bebe demasiado ou faz demasiado sexo por culpa própria. Todos os excessos são resultado de doenças ou perturbações causadas por maus genes ou circunstâncias de vida trágicas e fora do nosso controlo. Só que, no caso de um filho, essas circunstâncias não estão completamente fora do seu controlo. Porque foi você que o criou e tanto os genes como as circunstâncias de vida são culpa sua. Fantástico, estragou tudo. Não há dúvida de que é pai.

Esta é outra área onde os pais superesforçados cometem um erro grave. Em vez de se limitarem a fugir da culpa, os pais superesforçados tentam resolver o problema subjacente. O pior é que, quando tentamos resolver algo que está mal, na prática admitimos que a culpa é nossa. É por isso que a coisa mais adulta que pais e mães podem fazer quando veem um problema é enfiar as mãos nos bolsos e afastar-se a assobiar, como se não se passasse nada. Espere que apareçam uns pais superesforçados quaisquer para levarem com as culpas. Eles não conseguem evitar.

Não podemos obrigar ninguém a amar-nos. Nem sequer podemos obrigar ninguém a respeitar-nos. Mas, como pais pela lei do menor esforço, podemos enganar os filhos de modo que não nos culpem por tudo. O mundo encontra-se num estado terrível e os danos acabam por nos afetar a todos. Use isso em seu proveito. Certifique-se de que os problemas causados por si não se destacam de todas as outras questões que a sociedade tem de enfrentar. Desde que não seja pior do que as alterações climáticas, não deve haver problema.

Não faltam bodes expiatórios alternativos. Ponha as culpas na Direita. Na Esquerda. Em qualquer palavra acabada em «ismo». Ponha a culpa nas empresas, nos manifestantes de rua, nos professores universitários ou nos saloios. Não interessa a quem atribui a culpa, desde que não seja a si. O objetivo não é apoiar uma causa social. É impedir que os filhos falem mal de si pelas suas costas para o resto da vida. Quando digo lei do menor esforço, estou mesmo a falar a sério.

Esqueça os sorrisos

O marco mais importante é aquele que NÃO está na lista: a felicidade.

Para os pais superesforçados, parece que não há nada errado em querer que os filhos estejam sempre a sorrir. Os miúdos felizes queixam-se menos, fazem menos birras e têm menos probabilidades de escrever um livro de memórias a arrasar os seus métodos de parentalidade. Há poucas coisas piores do que ter de ler um livro inteiro para descobrir que o nosso filho nos odeia. É para isso que servem as mensagens passivo-agressivas.

Como pai pela lei do menor esforço, não estou a dizer que deve dar ao seu filho uma infância miserável. Mas fazer da felicidade dos filhos a sua prioridade é o caminho mais rápido para dar cabo da vida deles.

Pense bem: nada alegra mais a minha filha de dois anos do que brincar com a água da sanita. Isso não faz dela uma pessoa bem-sucedida, embora seja muito boa naquilo que faz. Infelizmente, não há troféus por inundar a casa de banho.

A felicidade é uma reação emocional de prazer. Quando a minha filha espalha a água da sanita por todo o lado, o cérebro dela enche-se de endorfinas. Mas isso não significa que tal coisa seja boa para ela ou para qualquer outra pessoa. Eu cá não fico nada feliz quando tenho de lavar a casa de banho com lixívia.

Se a felicidade é o único objetivo que tem para o seu filho, mais vale comprar-lhe heroína. Não há ninguém mais feliz do que um agarradinho no auge da sua moca, mesmo que isso esteja literalmente a matá-lo. A lição, aqui, é inconfundível: as pessoas não sabem o que é melhor para elas e felicidade a mais é fatal.

Não quero que a minha filha de dois anos cresça e seja uma viciada em hormonas ou uma espalhadora crónica de água suja. É por isso que não fico muito preocupado quando ela está infeliz. Como pai pela lei do menor esforço, só quero que ela seja autossuficiente, razoavelmente sociável e que não tenha o hábito de me vir culpar por tudo o que lhe corre mal na vida. Se isso a mergulhar numa existência sombria, paciência. Pelo menos tornar-se-á um ser humano funcional. Esta é para vocês, pessoas que querem pôr os filhos em reality shows.

O caminho para o sucesso

Feliz ou não, o seu filho precisa de atingir os três marcos para se tornar um adulto funcional. Tenha essas metas presentes enquanto lê o resto do livro. Escreva-as. Tatue-as no braço. Ou compre um marcador para as sublinhar. Não sei, o que lhe der mais jeito.

Ter um filho autossuficiente, normal, que não o culpa por tudo, não é a fantasia da maior parte dos pais. Porém, depois de ver algumas crianças que descarrilaram, dará valor à beleza e simplicidade da minha abordagem. Não está a criar o próximo Einstein ou Mozart. Por outro lado, se seguir o meu método, também não criará o próximo Charles Manson. Se o que procura é um objetivo de vida, «não criar um assassino em série» parece-me bastante bem.

Em vez disso, criará uma pessoa normal que significa tudo para si mas que parece mais ou menos banal aos olhos dos outros. E é isso que os pais superesforçados e stressados terão também, só que vão despender muito mais esforço para lá chegar. Eles ainda estão a tentar resolver a parentalidade com um abraço enquanto você usa um supercomputador. Se deparar com problemas, não precisa de voltar aos velhos métodos. Simplesmente desligue, volte a ligar e tente de novo.

Felizmente, terá muitas oportunidades para começar de novo. A biologia oferece uma margem de erro que os pais superesforçados não aproveitam. A má noticia é que todos cometemos mais erros do que nos passa pela cabeça. A boa notícia é que ninguém se lembrará deles, nem mesmo os seus filhos.