Como (não) ter um ataque cardíaco

Fabien Guez é um cardiologista francês, comunicador e autor do livro Como (não) ter um ataque cardíaco [ed. Contraponto]

É o pânico de muita gente e, no entanto, bastaria a adoção de estilos de vida mais saudáveis para lhe retirar o título de principal causa de morte no mundo. Mas, apesar de toda a informação disponível, de todas as campanhas de prevenção e de todos os avisos médicos, continuamos a viver como se fôssemos imortais. Tendo isto em consideração, o cardiologista e comunicador francês Fabien Guez escreveu um livro provocador: Como (não) Ter um Ataque Cardíaco. Com uma enorme clareza e sentido de humor, explica exatamente o que tem de fazer para ficar doente do coração. O livro foi publicado em Portugal em abril do ano passado, pela Contraponto. Não sei há quanto tempo o tenho na secretária, mas por estes dias reparei nele, li-o e aconselho (vivamente) a sua leitura.

Texto de Catarina Pires | Fotografia de Hugo Publishing

Se não faz análises ao colesterol há mais de cinco anos, fuma (pouco ou muito), tem mais de 50 anos e nunca consultou um cardiologista, é mais ou menos sedentário e não tem propriamente cuidado com o que come habilita-se seriamente à sorte grande (azar neste caso) e sobretudo à terminação.

A sorte (azar neste caso) grande será um enfarte, termo genérico que quer dizer necrose, quando um órgão ou parte de um órgão deixa de ser irrigada e, por conseguinte, de receber oxigénio. O sangue não consegue chegar aos tecidos, porque uma artéria está entupida. Se for uma das artérias do coração (coronárias) que entope, trata-se do um enfarte do miocárdio, se for uma artéria do cérebro, trata-se de um acidente vascular cerebral.

Como e porque é que uma artéria entope? Quando na sua parede se formam placas de gordura (ou placas de ateroma). Quando o estreitamento é considerável, o sangue deixa de passar fluidamente e começa a redemoinhar e, quando isso acontece, coagula. É o coágulo de sangue (ou trombo) que vai obstruir a parte da artéria que se encontra mais estreita.

Uma artéria torna-se mais estreita quando a sua parede é agredida por diferentes fatores de risco. São estes que temos que acumular se quisermos tornar-nos doentes cardíacos e aumentar as probabilidades de ter um acidente cardiovascular. Uma das vantagens (para quem não tem o alerta da ironia ligado, onde se lê vantagens quer dizer desvantagens) é que nestes casos os fatores de risco não se somam, multiplicam-se. E todos juntos tornam-se uma autêntica bomba relógio: tic, tac, tic, tac.

A idade, o sexo e a hereditariedade são fatores de risco sobre os quais não podemos atuar, mas que podem levar-nos a ficar mais alerta. Ser homem, ter mais de 60 anos e ter casos de doença cardíaca na família deve fazer soar os alarmes. As mulheres estão mais protegidas, mas só até à menopausa, depois entra em vigor a igualdade de género.

  • Tabaco
  • Diabetes
  • Colesterol elevado
  • Hipertensão arterial
  • Excesso de peso
  • Sedentarismo
  • Stress
  • Álcool

Os fatores acima enumerados são todos de risco, com grande destaque para o tabaco e a hipertensão arterial, que multiplicam, sozinhos, o risco por cinco. Em relação a estes fatores, pode atuar-se. Eliminando-os, como o tabaco, o excesso de peso, o sedentarismo, o álcool ou o stress, ou controlando-os, como a diabetes, a hipertensão arterial ou o colesterol.

O tabaco é o melhor de todos… para causar um ataque cardíaco

Deixemo-nos de tretas. Se quiser continuar a fumar, continue, mas não diga que não foi avisado.

80 por cento das vítimas de enfarte do miocárdio com menos de 45 anos são fumadores. A associação tabaco-pílula multiplica por 20 o risco de enfarte. Deixar de fumar baixa em 50 por cento o risco de enfarte a partir do primeiro ano. O risco é elevado quer fume muito quer fume pouco. O tabaco diminui o colesterol bom e não pense que fazer desporto atenua os efeitos dos cigarros fumados.

Ainda não está convencido? Então, fique a saber que por causa do tabaco:

  • As artérias entopem duas vezes mais depressa
  • O coração acelera (todos os estudos demonstram uma relação estreita entre a frequência cardíaca e a esperança de vida)
  • As artérias contraem-se
  • A pressão arterial sobe
  • O colesterol bom que protege as nossas artérias baixa
  • As veias do membros inferiores dilatam (varizes).

Portanto, se continuar a fumar, verá os riscos de o vício ser interrompido abruta e definitivamente aumentarem muito.

O desporto pode salvar-nos… mas só se for bem feito

Fabien Guez diz que fica mesmo furioso por perceber que a maioria das pessoas não faz o exercício físico adequado, por não terem a noção de como é importante praticar uma atividade física bem controlada, adaptada, regular, progressiva e com o material adequado, nem compreenderem que exercício bem feito permite evitar pelo menos 80 por cento das doenças e prolongar consideravelmente a esperança de vida, viver melhor e durante mais tempo.

“Ouvimos em toda a parte: ‘Pratique desporto, faça exercício físico!’ Mas não diz em lado nenhum: “Pratique o desporto adequado e, acima de tudo, pratique-o bem.”, escreve, chamando a atenção para que a atividade física mal praticada tem efeitos nocivos para o coração e a saúde, já para não falar dos efeitos nefastos sobre as articulações, os tendões, os músculos, os ossos. “E é uma pena porque uma atividade física regular, moderada e progressiva pode rapidamente dar-nos um verdadeiro coração de atleta”, além de baixar o colesterol total e aumentar o bom, que protege as artérias. “Nenhum medicamento até à data fez subir o HDL, só a atividade física o consegue”, esclarece o cardiologista francês.

De maneira que, se quer que o desporto seja benéfico para a sua saúde e evitar um ataque cardíaco, é isto que deve fazer:

  • Escolha um desporto adaptado à sua morfologia e à sua psicologia
  • Aprenda os procedimentos corretos
  • Retome o desporto progressivamente após um período longo de inatividade, se for esse o caso
  • Pratique pelo menos duas vezes por semana
  • Escolha bem o equipamento
  • Privilegie a endurance e associe-lhe resistência
  • Aqueça antes e alongue depois de toda a atividade desportiva
  • Não treine num ambiente demasiado poluído
  • Faça um check-up com um médico
  • E, acima de tudo, não hesite em fazer perguntas.

Stress… o grande aliado das doenças cardíacas

O stress, a ansiedade e a depressão são as doenças do século XXI e um trio vencedor para se ter um ataque cardíaco, segundo Fabien Guez (e recidivas!).

Os efeitos nocivos do stress no coração são conhecido há décadas, mas os médicos ignoram-nos ou subestimam-nos com frequência, por falta de formação e sobretudo de tempo, diz o especialista no seu livro.

Como é que o stress danifica o sistema cardiovascular? Provocando reações biológicas, secreção de catecolaminas e de corticoides, que vão acelerar o ritmo do coração e encolher os vasos. Não tem mal quando sangramos, o problema é quando temos as artérias muito estreitas. O stress acarreta também a secreção de inúmeras outras hormonas que vão tornar o sangue mais coagulável e as paredes mais inflamatórias.

Em doses moderadas o stress não faz mal e é até funcional, mas quando passa das marcas, de forma aguda ou crónica, é que pode provocar estragos.

Um ataque de raiva ou irritação, que é uma situação de stress agudo, não deve ser subestimada (e deve sobretudo ser evitada), porque faz disparar a pressão arterial, acelera a pulsação, aumenta a coagulação do sangue, contrai as artérias coronárias e multiplica o risco de enfarte por 8 a 10 nas duas horas seguintes.

Já o stress crónico, que é aquilo de que sofre a maioria das pessoas na sua correria diária entre o trabalho, a casa, a família, as contas, a vida, é responsável segundo Guez por 30 por cento dos enfartes do miocárdio, sendo a terceira causa, logo a seguir ao tabaco e ao colesterol.

Os conselhos do especialista para aumentar o seu stress e se precipitar para um ataque cardíaco (alerta ironia) são:

  • Dormir mal
  • Nunca se descontrair
  • Não falar com ninguém sobre o seu stress e, acima de tudo, não dar ouvidos a ninguém
  • Nunca exprimir as suas emoções
  • Não fazer exercício físico
  • Exagerar no álcool e em menor grau no café
  • Não se mimar regularmente
  • Nunca ouvir música
  • Nunca rir ou sorrir
  • Não exprimir os seus problemas de trabalho
  • Fumar para se descontrair
  • Negativar constantemente e nunca relativizar.

Há muito mais para saber sobre como ter ou não um ataque cardíaco. A escolha passa muito por cada um de nós. Ler este livro para tomar decisões informadas é um bom ponto de partida para essa escolha.