Como o mundo dos negócios pode ser amigo do ambiente

É o primeiro campeão de alto nível para o ambiente vindo do mundo empresarial. Gonzalo Muñoz, 47 anos, chileno, será um dos protagonistas da Cimeira COP 25, que se realizará em Madrid, de 2 a 13 de dezembro. Levará consigo um saber de experiência feito.

Texto de Maria João Martins

Uma empresa que não seja sustentável a curto ou a médio prazo acabará por fechar as portas.” É desta forma, sem eufemismos nem contemplações, que o chileno Gonzalo Muñoz se refere às práticas de empresas dos mais diversos setores e dimensões, um pouco por todo o mundo. Muñoz, de 47 anos, ele próprio empresário, foi designado pelo governo chileno para o cargo de campeão de alto nível da COP 25, cimeira das Nações Unidas sobre o ambiente e as alterações climáticas, que se realizará em Madrid entre 2 e 13 de dezembro, depois de os acontecimentos recentes no Chile terem obrigado a mudar a sua localização de Santiago para a capital espanhola.

À parte a mudança de rota, o que se espera deste campeão (no sentido quase medieval de paladino de uma causa, que a palavra contempla) mantém-se: a insistência na importância de tomar medidas para reduzir os gases de efeito estufa e o reforço dos esforços de negociadores e governos para realmente pôr em prática o estabelecido no Acordo de Paris, assinado em 2015 com o objetivo de travar o aquecimento global. Nomeado em abril último, antes da tempestade política se abater sobre o Chile, Muñoz aceitou, honrado e surpreendido, o convite feito por Carolina Schmidt, ministra do Ambiente.

Uma das empresas de Muñoz opera na área de tratamento e reciclagem de resíduos sólidos.

Surpreendido porque, na verdade, este é o primeiro “campeão climático” vindo do setor empresarial e privado e não da política, da universidade ou de uma ONG. O que, na verdade, pode ser um trunfo: “Sendo o primeiro campeão originário do setor privado, creio que a minha tarefa será fazer que essa área avance e se comprometa”, declarou à imprensa chilena imediatamente após a nomeação. Para Muñoz, a grande aposta é conseguir que todos entendam que o tema das alterações climáticas não pode ser só uma preocupação de governos, cientistas e ONG, mas de todos os cidadãos porque, na verdade, todos têm um papel a desempenhar.

Uma família de causas

Mas quem é este campeão inesperado? Filho de Ximena Abogadir, reconhecida perita no tema da sustentabilidade muito antes de esta estar na moda, habituou-se desde muito novo ao debate sobre o futuro do planeta à mesa de jantar.

Dona de uma agência de publicidade muito bem-sucedida, Ximena deu uma volta radical à vida quando criou a ONG La Casa de la Paz. Os tempos eram outros, estávamos em plena Guerra Fria e o objetivo principal da organização era o combate à ameaça nuclear, mas o exemplo de intervenção cívica estava dado.

Tal como acontecera com a mãe, também Muñoz era um empresário de sucesso, mas tradicional, sem grandes preocupações com a pegada ecológica do seu trabalho. Até que se produziu o clique que o colocou perante a fragilidade e o valor da vida: em poucos meses, viu-se confrontado com o diagnóstico de leucemia da filha de 3 anos (que, contra todas as previsões, acabaria por sobreviver) e a morte acidental do seu melhor amigo. Pensou seriamente que não poderia continuar a gastar os dias como se eles fossem coisa pouca e empenhou-se na mudança de atitude. Em casa e nos negócios.

Entre os principais feitos de Muñoz conta-se a criação da TriCiclos, uma empresa que opera na área do tratamento e da reciclagem de resíduos sólidos.

Os puntos limpios, que tem disseminados por todo o Chile, são grandes recetáculos metálicos com capacidade para receber, processar e compactar até 25 tipos de materiais diferentes. Ao mesmo tempo que proporciona às empresas uma maneira de se empenharem na sustentabilidade (mediante a compra e o patrocínio de puntos limpios), também oferece serviços educativos e de reciclagem aos consumidores. Estas práticas valeram à TriCiclos o certificado de empresa B (sendo a primeira fora da América do Norte a consegui-lo), em reconhecimento pelo cumprimento de um conjunto de normas sociais e ambientais muito rigorosas.

O cargo de campeão de alto nível do ambiente, com a duração de dois anos, foi criado na COP21, realizada em Paris 2015, a partir de uma disposição dos governos sobre a urgência de tomar medidas mais fortes e ambiciosas para alcançar os objetivos do Acordo de Paris, o que passaria inevitavelmente por envolver agentes da chamada sociedade civil, sem agendas partidárias. Gente que trabalha todos os dias na ciência, na agricultura, nos oceanos ou nas energias como Gonzalo Muñoz, que sucede no cargo, com o polaco Tomasz Chruszczow (campeão para as mudanças climáticas), à francesa Laurence Tubiana e ao marroquino Hakima El Hait, todos eles vindos da política.

Aos que eventualmente lhe critiquem a falta de experiência em matéria negocial, apenas responde: “Sou um passageiro do mundo, pai de três filhas. Este é o objetivo da minha vida.”