Como os adeptos do Flamengo em Portugal olham para Jorge Jesus

A Embaixada Fla-Portugal em Lisboa criada em 2017. (da esquerda para a direita)Thiago Fragoso, Filipe Dobbin, Patrick Raposo e Nicholas Reis são quatro dos seis fundadores.

É nas docas de Alcântara, em Lisboa, que centenas de brasileiros (e alguns portugueses) adeptos do Flamengo se juntam para assistir aos jogos do clube ao encargo do técnico português Jorge Jesus. A festa conta-se do primeiro ao último minuto da partida, onde o treinador é visto como um herói.

Texto de Catarina Reis | Fotografias de Gonçalo Villaverde/Global Imagens

‘Pó-ró-pó-pó-pó-pó-pó-pó’. Ainda as docas de Alcântara, em Lisboa, iam longe no caminho, já os adeptos brasileiros do Flamengo se faziam soar. ‘Flamengo veio p’ra vencer’, cantam sobre o som dos surdos, repiques e chocalhos. Se não cantam, estalam os dedos, abraçam os cachecóis e levam as unhas aos dentes. Mas a música, essa, não pára. “Temos um ditado: enquanto a gente canta, o golo sai’”, diz Antônio Júnior, 28 anos, há um a viver em Portugal e desde então ao comando desta baqueta.

A festa acontece desde 12 de fevereiro de 2017, quando foi criada a primeira de três embaixadas do Flamengo em Portugal, a Embaixada Fla-Portugal, em Lisboa.

Nesta noite, o clube jogava em casa com o Bahia, em 10.º lugar no campeonato, com quem começou por perder 1-0. Os nervos não estremeceram as vozes cantantes, mas fizeram das pernas e mãos um desassossego. ‘Favela-a-a, favela-a-a, favela, festa na favela’. O Maracanã não é um sítio, o maior estádio do Brasil, o espaço onde ressoam os cânticos deste clube de futebol brasileiro. O Maracanã é um estado de espírito e esse invadiu Portugal. Todos os jogos defrontados pela equipa ao encargo do treinador português Jorge Jesus, em casa ou fora, passam num grande ecrã de um bar nas docas de Alcântara, em Lisboa. O que ali acontece é uma amostra do que se vive do outro lado do oceano, a mais de sete mil quilómetros de distância.

Thiago Fragoso é um dos muitos adeptos que se juntam para torcer pelo seu clube em cada partida do Flamengo, agora com Jorge Jesus aos comandos.

A festa acontece desde 12 de fevereiro de 2017, quando foi criada a primeira de três embaixadas do Flamengo em Portugal, a Embaixada Fla-Portugal, em Lisboa. As outras duas acabariam por nascer mais tarde, no Porto e em Braga, todas independentes umas das outras. Nicholas Reis, 33 anos, o representante oficial, tinha acabado de aterrar em solo português há um mês, para começar um mestrado na Universidade Lusófona. É num sotaque nordestino, palatalizando consoantes e abrindo bem cada vogal, que nos conta como é que centenas de cachecóis do Flamengo começaram a dançar nestas docas. Não fosse ele natural da Fortaleza do estado do Ceará, no nordeste do Brasil.

Ali, “a torcida pelo Flamengo é muito grande”, mas não foi influenciado por isso que se rendeu a este clube. Foi aos oito anos, no primeiro contacto que teve com o futebol, que Nicholas se agarrou ao clube. “Até 1994, não via futebol. Foi na Copa do Mundo que passei a gostar de ver, quando o país estava ao rubro com o mundial [que acabaria por ganhar]. O Romário foi um grande jogador que ganhou a Copa quase sozinho e eu virei um grande fã dele. No ano seguinte, o Romário foi contratado pelo Flamengo e eu decidi logo que iria torcer pelo clube. Mas, como a gente fala, ‘uma vez Flamengo, para sempre Flamengo’: o Romário foi embora e eu continuei a torcer pelo clube. Cheguei pelo Romário e fiquei pelo Flamengo”, recorda.

Nicholas Reis, 33 anos, é o representante oficial da Emabaixada Fla-Portugal. O nordestino chegou em 2017 para iniciar um mestrado na Universiade Lusófona.

A conversa vai sendo interrompida pelos sustos que o assaltam de cada vez que uma bola se aproxima de Diego Alves, na baliza do Flamengo. Estavam a perder o jogo, mas nem Nicholas nem ninguém pareciam ter dúvidas: “vamos ganhar”. Entretanto, o avançado Gabigol (Gabriel Barbosa) corre, a bola segue na direção da rede, mas fica longe do resultado esperado por todos. “Uh”, exclamam em uníssono. “Gabigol comeu demais!”, grita uma adepta. E Victoria, de 23 anos, ri. Um riso que se estreava esta noite na plateia. Era a primeira vez que a brasileira, natural do estado de Espírito Santo, via um jogo do Flamengo, clube do qual é adepta “desde pequenina”, depois de cinco meses a viver em Torres Vedras. Está radiante por poder assistir a este “ano de ouro” do Flamengo. “Este ano, é para ganhar Libertadores e o brasileiro. Tudo!”

Nesta noite chovia e nem por isso alguns adeptos deixaram de vir, embora o tempo tivesse travado a multidão que habitualmente costuma juntar-se por aqui – na semifinal com o Grémio, no final de outubro, apareceram 800 pessoas, agora eram apenas 30. Foi precisamente em busca desta multidão que a embaixada que Nicholas representa germinou. O jovem brasileiro era presença ativa no estádio Maracanã, como em vários outros estádios onde o Flamengo ia jogar, e não queria passar a ser um adepto solitário em frente a uma televisão assim que se mudasse para Portugal. “Eu e outros seis torcedores do clube sentíamos falta de torcer em grupo. Então, dissemos: ‘vamos unir-nos e formar um espaço para ver os jogos juntos’. No início, era só isto. Mas à medida que o tempo foi passando, com algum boca-a-boca e companha nas redes sociais, começaram a vir centenas de pessoas”, conta.

“Temos um ditado: enquanto a gente canta, o golo sai”, diz Antônio Júnior, um dos bateristas da banda da embaixada, a Charanga Imperal.

Este ano, o número de adeptos presentes em frente à tela das docas de Alcântara “explodiu”. “Imaginávamos que haveria vários torcedores, porque há muitos brasileiros em Portugal, mas não esperávamos que chegasse a esta quantidade”, acrescenta. São brasileiros, na grande maioria, mas também vão aparecendo portugueses. Tudo “por causa de Jesus”, garante Nicholas.

Jesus, o herói de todos os adeptos

O técnico português Jorge Jesus, há poucos meses a dirigir a equipa, atiçou a curiosidade dos portugueses, que vão passando pelas docas de Alcântara para assistir aos jogos. O brasileiro que toca num dos surdos, Antônio Júnior, acredita mesmo que o treinador mudou a forma como se olha o futebol brasileiro a partir de Portugal. “Antes de Jesus, ninguém dava muita atenção ao futebol brasileiro aqui em Portugal. Acho que, mesmo que um dia Jesus volte (a Portugal), vão continuar a acompanhar.”

E se as contas para o Flamengo, nesta altura, a seis jogos do fim, parecem fáceis de fazer, “é culpa dele”, não hesita Nicholas em dizer. “Sem querer ser arrogante, o campeonato já está decidido. Se ganharmos hoje, estamos dez pontos na frente. É uma vantagem muito difícil de perder.” O português “pôs a equipa a mexer” e deixou-a “num lugar onde há muito já não estava”.

Aquele ano e mês, onde venceu o campeão da Champions League para a Taça Intercontinental (agora Campeonato Mundial de Clubes), transformariam a imagem do Flamengo para sempre. Mas passaria por uma fase de turbulência antes de chegar às mãos de Jorge Jesus.

Mas para explicar o fenómeno é preciso rebobinar a cassete, até aos primórdios de um clube que nasceu como clube de remo em 1865. ‘Seis jovens remadores formam um grupo de regatas’ é a primeira linha de um dos cânticos do Flamengo, em homenagem aos “garotos” que ajudaram a fundar o clube – o mesmo número de “garotos” que formariam, 154 anos depois, uma embaixada oficial em Lisboa. Por isso é que ainda hoje se chama Clube de Regatas do Flamengo. Naquela época, o remo era a modalidade predileta e o futebol ainda era apenas amador, acabando por chegar ao ADN do clube apenas em 1911.

Desde então, o Flamengo “já conquistou o mundo”, recorda o adepto Nicholas. No próximo dia 23 de novembro, o clube concretizará algo que esperava repetir desde há 38 anos: jogar a final da Taça Libertadores. O feito ficou marcado numa música que ecoa como fundo das memórias que Nicholas nos vai contando. ‘Em dezembro de 81, botou os ingleses na roda. Três a Zero ao Liverpool, ficou marcado na história’. Aquele ano e mês, onde venceu o campeão da Champions League para a Taça Intercontinental (agora Campeonato Mundial de Clubes), transformariam a imagem do Flamengo para sempre. Mas passaria por uma fase de turbulência antes de chegar às mãos de Jorge Jesus.

“No meio da década de 90, o Flamengo começou a ter algumas administrações não muito responsáveis, que deixaram o clube com uma dívida muito grande – chegou a ter uma dívida de quase 800 milhões de reais. Dentro do nosso universo, o brasileiro, é uma dívida quase irrecuperável”, lembra Nicholas Reis. A partir de 2013, uma equipa de novos gestores entra em ação para se focarem em pagar esta dívida: o Flamengo “apertou o cinto, jogou com equipas horríveis”, para mais tarde voltar a erguer-se. “E agora vemos os frutos deste aperto, para o qual Jorge Jesus é uma dádiva. Mesmo com a recuperação e com grandes estrelas – Arrascaeta, Gabigol, Felipe Luiz, Rafinha -, com o antigo treinador (Abel Braga), o Flamengo não jogava bom futebol. Jesus chegou para salvar o clube de mais um ano que seria perdido”, elogia. Por cá, o lema é mesmo este: “Jesus é a luz”.

Neste ano o número de adeptos presentes em frente à tela das docas de Alcântara “explodiu”, diz Nicholas Reis.

De repente, num lanço que a audiência apelidou “de génio”, Reinier faz o primeiro golo da equipa e os braços de todos vão ao ar, as vozes são levadas ao limite e os tambores esticam as notas que deambulam sobre o Tejo desde o primeiro minuto de jogo. Das primeiras vezes em que Antônio Júnior tocou nestes surdos, “fazia ferida” nas mãos, agora calejadas, lembra. É um dos dez membros da banda da embaixada, conhecida como Charanga Imperial – em homenagem “à primeira torcida organizada que tocou música no Maracanâ, chamada Charanga” e ao nome que os portugueses da capital entoam quando pedem uma cerveja ao balcão.

Mais uma batida, mais um grito. Foram três golos, ao todo – contra um do adversário. E, entre todos eles, Antônio não descansou a baqueta. “Não me canso, não nos cansamos. Enquanto a gente canta, o golo sai”, frisa. E assim entoaram, no minuto 90, inúmeras vezes a palavra “campeão” – sem qualquer dúvida de que o Flamengo o será.