Como os medalhados nas Olimpíadas da Ciência se preparam para os exames nacionais

Manuel Leite (Fotografia Gonçalo Vila Verde/Global Imagens)

Têm notas entre os 18 e os 20 valores. Mas garantem que não foram horas e horas a olhar para os livros que lhes deram estes resultados. O segredo passa pela atenção nas aulas, uma atualização constante das matérias e a procura por um conhecimento que muitas vezes não está dentro da escola.

Texto de Rita Rato Nunes

Diogo Heleno (16 anos), Manuel Leite (16 anos) e João Ferreira (17 anos) receberam este mês a medalha de prata nas Olimpíadas da Ciência da União Europeia. Estão entre os seis alunos portugueses que receberam esta distinção. A semana que passaram em Almada, na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova, onde aconteceu a 17.ª edição do concurso, deixou alguns testes em atraso e adiou o estudo para os exames. Mas isto não é um problema, os testes nacionais já andam a ser preparados há muito. “Na altura do exame é dar o nosso melhor e pronto; olhar para o exame com orgulho, porque é fruto do trabalho que tivemos durante dois anos”, diz Diogo Heleno.

São de diferentes pontos do país, mas estão os três no 11.º ano do curso de Ciências e Tecnologias. E daqui a menos de um mês estarão a fazer exames de Física e Química e Biologia. Preparam-se como para qualquer outro exercício de avaliação; é um esforço constante que diminui a pressão nas vésperas das provas nacionais. E, dizem, o mais importante é a atenção nas aulas.

“Grande parte do estudo fica feito na aula”

“Há uma coisa que eu acho que é fundamental e que faço sempre: é estar atento às aulas. Já que tenho de lá estar, mais vale estar atento. Até tenho, acho eu, alguma facilidade em adquirir a matéria rapidamente. O professor diz uma vez e eu fico com ela”, conta Manuel Leite, que estuda na Secundária António Damásio nos Olivais, em Lisboa.

Os três partilham a mesma ideia, mas quem o sintetiza é Diogo Heleno, de Leiria: grande parte do estudo fica feito logo no momento da aula”. Assim reduzem o trabalho em casa. Manuel confessa mesmo que quase não tem de estudar. “Não sou propriamente um escravo de trabalho”, ri-se. “O estudo mais intensivo é normalmente no dia anterior, contrariamente aquilo que dizem que se deve fazer”.

Diogo Leno (Fotografia de Henrique da Cunha/Global Imagens)

Já João, de Aveiro, e Diogo optam por fazer o contrário: manter a matéria em dia, estudando se for necessário todos os dias um bocadinho para evitar algo mais do que revisões em vésperas de testes. O aluno de Leiria até prefere não pegar nos manuais nas vésperas de um exame. “Também é importante fazer outras coisas para além de estudar, desanuviar”.

O tempo que dedicam ao estudo é diferente, cada um tem o seu ritmo. “Acho que o mais importante é que cada pessoa compreenda quanto tempo precisa de estudar e estudar mesmo durante esse tempo. No fundo fazer uma planificação e depois cumprir a meta”, sugere Manuel.

Ir para além do que está nos livros

Para além do tempo que estão a ler os manuais, também fazem outro tipo de estudo. Todos estão envolvidos em atividades extracurriculares que lhes fazem aprofundar conhecimentos para lá daquilo que é apresentado nas aulas.

Participam regularmente em várias olimpíadas nacionais. Manuel e João são escoteiros [pertencentes à Associação dos Escoteiros de Portugal] e o primeiro faz parte de um projeto do Instituto Superior Técnico, em Lisboa, (onde se quer formar em Matemática Aplicada daqui a uns anos) de troca de conhecimentos entre alunos do ensino superior e do ensino básico e secundário. Diogo toca piano há dez anos, tem uma rubrica no jornal da escola, participa nos clubes de ciência, no projeto espacial CanSat, em sessões de leitura e em grupos de estudo. Até porque estudar é um passatempo para o aluno, que o faz “por gosto, não por imposição de ninguém”.

João Ferreira.
(Fotografia Maria João Gala / Global Imagens )

“Em todas as disciplinas tento sempre completar aquilo que está nos livros, porque acontece com regularidade os manuais apresentarem só uma parte do todo e fica muito despegado de tudo o que está à volta. Acabamos um capítulo e entramos noutro. Parece que existe ali uma barreira quase física. E não existe; nada é dividido como nós vemos nos livros”, diz Diogo.

Estudar sozinho ou acompanhado?

João e Diogo estudam sozinhos ou em grupo, dependendo das situações. Já Manuel costuma rever a matéria sozinho. “Há momentos em que preciso de focar-me e de ler as coisas sozinho”, explica Diogo. “Mas é igualmente importante noutros momentos estudar com outras pessoas, trocar impressões, ouvir as coisas de uma forma diferente. Muitas vezes nós não compreendemos alguma coisa e depois é um colega nosso que nos consegue explicar. É um trabalho de equipa”.

Sozinho ou acompanhado, uma ou duas horas por dia, o mais importante é “não deixar para a última o estudo”, aconselha Diogo. “Apesar de já estarmos próximos dos exames ainda dá para fazer um esforço e não acumular a matéria”.

E até lá, João sugere “fazer exames dos anos anteriores para pereceber o que se sabe”. “Se estivermos confortáveis com os exames dos outros anos chegamos ao momento e sentimo-nos mais confortáveis”.