Como saber se alguém nos está a manipular (e o que fazer)

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Margarida Vieitez, autora de "SOS Manipuladores" e "Pessoas Que Nos Fazem Felizes" (ed. Esfera dos Livros)

Há quem seja especialista a manipular a vida dos outros e quem seja particularmente vulnerável a estas manipulações. Em última análise, porém, só somos manipulados se dermos aos manipuladores esse poder sobre nós.

Texto de Ana Pago | Fotografia de Orlando Almeida/Global Imagens

No tempo que Pedro Santos passa sozinho, a dúvida queima-o por dentro. Imagina a namorada a interessar-se por outros homens, alguém melhor, mais forte do que ele, e aquela espiral de dor só alivia quando estão sozinhos.

“Tínhamos discussões horríveis se eu saía ou falava com amigos, de modo que me fui afastando até sermos apenas os dois”, admite Inês Silva, conformada desde que estão juntos há três anos. Se nota a manipulação ali? “Não, isso não”, diz. “Sei que tem medo de me perder, mas também me mostra todos os dias que sem ele não sou ninguém.”

E é muito natural que se sinta assim, já que por norma manipuladores são pessoas adoráveis e interessadas, confirma Margarida Vieitez, autora de SOS Manipuladores e Pessoas Que Nos Fazem Felizes (ed. Esfera dos Livros). “Passam-nos a ideia de que a seu lado não teremos problemas nenhuns e ao nível das relações amorosas surpreendem imenso por serem meigos, generosos, disponíveis para nós.”

O sufoco vem depois, quando o outro está conquistado e não irá afastar-se facilmente (como aconteceu com Inês Silva): “Ver o parceiro desamparado desperta apego, compaixão e quase uma obrigatoriedade em ajudá-lo, como se tivéssemos responsabilidade pelo sofrimento dessa pessoa”, alerta a especialista em mediação familiar e de conflitos. O facto de ninguém gostar de estar em guerra com ninguém faz também com que seja mais simples, muitas vezes, anularmo-nos a nós próprios.

Os manipuladores podem não ser fáceis de detetar porque apenas nos dão a informação que querem.

“No mundo pessoal e afetivo, ser manipulado implica sermos coagidos a fazer algo que provavelmente não queremos, sem consciência de que o fazemos nem noção das implicações”, explica o psicólogo clínico Vítor Rodrigues, acrescentando ainda à equação o medo (exploram-nos os pontos fracos para nos concederem alívio depois), obrigação (com a ameaça de consequências se falharmos) e até culpa (se não correspondemos à expetativa).

“Os manipuladores podem não ser fáceis de detetar porque apenas nos dão a informação que entendem”, avisa o psicoterapeuta. São capazes de perceber à légua os sinais de vulnerabilidade dos outros – ingenuidade, medo da solidão e da discórdia, necessidade de aprovação – e jogá-los a seu favor.

Como se não bastasse, tornam-se peritos a fazer-se de vítimas (um dos tipos mais comuns) ou a recorrer à intimidação para conseguir o que querem. “Daí a importância de se ser assertivo, dizendo quem somos, do que gostamos e não gostamos”, afirma.

E o que fazer, afinal, se perceber que está a ser manipulado? Para Margarida Vieitez, cada caso é um caso e tudo depende do tipo de manipulação, porém existe uma espécie de chave mágica da autodefesa: não deixar ninguém ter domínio sobre o que pensamos de nós. “Nunca pode consentir que alguém seja o dono da sua autoestima e do seu amor-próprio”, diz a terapeuta familiar.

Todos podemos ser um pouco bullies e vítimas (“vá lá, se não vieres à minha festa fico muito triste”). O problema é o exagero da manipulação em quantidade e qualidade, diz Vítor Rodrigues.

Mesmo se o manipulador é um familiar próximo ou o parceiro que garante amar-nos tanto (são-no com frequência), ele existe apenas na exata medida em que cedemos, ou não, à chantagem emocional que nos transforma em fantoches nas suas mãos. Que é como quem diz que só fazem connosco aquilo que permitirmos que façam, reforça a especialista em conflitos.

“Se está a acontecer temos de perceber a razão, o outro pode não ter consciência de que o seu comportamento nos lesa”, aconselha Margarida Vieitez. Se concluir que tem e não vai mudar – irá sempre humilhar e magoar-nos –, então temos de afastá-lo: “Nas relações amorosas pondere bem se é esse o companheiro que quer ao seu lado. Nas de amizade, escolha outros amigos. Nas de trabalho, procure outro emprego.” Tudo tem um limite.

“Às vezes, por serem importantes e valorizarmos os seus sentimentos e pontos de vista, pessoas da família ou amigas consideram-se no direito de nos controlar, invadir a nossa privacidade e obrigar-nos a fazer o que julgam ser melhor para nós, ameaçando-nos com a perda desse afeto se não fizermos o que elas querem”, reconhece Vítor Rodrigues. Por outro lado, todos podemos ser um pouco bullies e vítimas (“vá lá, se não vieres à minha festa fico muito triste”). O problema é o exagero da manipulação em quantidade e qualidade, diz.

Na dúvida, fique atento a estes 10 tipos de pessoas tóxicas. Se são corrosivas para elas próprias, imagine o que farão aos outros.

MENTIROSAS
Intoxicam todos os que se encontram no seu raio de ação, na medida em que vão espalhando inverdades sobre uns e outros a um ponto em que já ninguém sabe naquilo em que acreditar. E quanto mais compulsivas, mais tóxicas se tornam.

INVEJOSAS
Não só nunca estão contentes com o que conquistam – é sempre pouco –, como são incapazes de ficar genuinamente felizes com o que os outros alcançam – é sempre muito. A haver coisas boas, que lhes calhem todas a elas. Os demais que se lixem.

ARMADAS EM VÍTIMAS
No seu entender, há sempre alguém a quem deitar as culpas pelos seus erros, nem que sejam os pais por não as terem amado devidamente na infância (dizem elas). Nunca se responsabilizam pelo que fazem. Se ainda não se viraram contra si, está cheio de sorte.

ARROGANTES
São pessoas altivas, emproadas, que se julgam mais do que os outros e têm a mania de que sabem tudo, então tendem a intimidar qualquer um – sobretudo se acharem que lhes pode fazer sombra. Não confundir com autoconfiança, porque não tem nada a ver.

RESSABIADAS
A sensação que dá, quando estamos perto delas, é a de que são uma espécie de buraco negro que nos suga a força vital e a criatividade. E isto porque se trata de pessoas constantemente amargas, despeitadas, rancorosas, que se alimentam da energia alheia.

CONTROLADORAS
Na verdade, todas aquelas demonstrações de domínio têm por base uma insegurança extrema, mas saber isso não faz com que seja mais fácil conseguirmos dar a nossa opinião ou sermos ouvidos nas nossas ideias. Não quando elas já parecem saber tudo.

MAUS-CARATERES
Conhece alguém que atraiçoa os outros sem nenhum problema de consciência? Que os usa em proveito próprio e fomenta intrigas a torto e a direito? Pois há boas hipóteses de essa pessoa não ter integridade e ser desonesta. Os fins justificam os meios, defende.

COBIÇOSAS
Mudar para melhor é natural no ser humano e um ótimo incentivo para se trabalhar por objetivos cada vez mais elevados. Mas e se alguém, de repente, quiser tudo, inclusive o que é dos outros? E se ficar cego para os valores que nos regem? Nada bom mesmo.

VENENOSAS
Para elas, qualquer pormenor serve para falarem da vida dos outros. E então se forem truculentos tanto melhor, não importa que sejam inventados ou possam destruir a pessoa em causa. No fundo, fá-las sentirem-se poderosas, o resto são danos colaterais.

SENTENCIOSAS
É uma palavra pomposa para referir aqueles que não se coíbem de julgar os outros sem conhecerem (nem procurarem conhecer) as suas razões. E de caminho ainda atiram umas quantas pedras para os deixarem um pouco mais em baixo do que os encontraram.

(Publicado originalmente a 01 de abril de 2019)