Como se continua a viver depois da morte de um filho?

Jayson Greene com a filha, Greta, às cavalitas. A criança morreu aos dois anos quando um parapeito que se soltou de uma janela lhe atingiu a cabeça. Uma perda que levou Jayson a escrever "E as estrelas voltaram a brilhar".

O livro E as estrelas voltaram a brilhar [ed. Asa], do jornalista e crítico musical nova-iorquino Jayson Greene, de que fazemos a PRÉ-PUBLICAÇÃO de parte do Primeiro Capítulo – O ACIDENTE -, responde de forma empática e autêntica a esta questão. Os lutos não serão todos iguais, porque as pessoas também não o são, nem as suas histórias, mas a voz de Jayson Green – devastada, desconcertante, inspiradora, profunda – leva-nos a perceber como o mundo deixa de existir no momento em que se ouve: “a sua filha está em morte cerebral”. Como ele e a mulher, Stacy, sobrevivem na nova realidade, para sempre amputada, e conseguem reencontrar o caminho, apesar da perda, é a matéria deste testemunho, que é sobre morte, mas também vida. E amor.

 

“E as estrelas voltaram a brilhar”, de Jayson Greene, é uma espécie de catarse do autor depois da morte da filha de dois anos num acidente estúpido e inesperado. É também um testemunho profundamente honesto de como se sobrevive à morte de um filho, enquanto pais e enquanto casal. [edição Asa/Leya. p.v.p: 14,50 eur]
O ACIDENTE

Como haveremos de começar, querida? Talvez por um dos jogos parvos que inventámos juntos. Não tinham importância nenhuma para os outros, mas eram tudo para nós. Houve a vez em que fingimos, durante meia hora, que a rampa à entrada de um prédio era um elevador. Tu carregavas com o dedo num tijolo; eu fazia um bipe. Eu dizia «Vai descer!» e tu corrias pela rampa abaixo, a rir. O jogo era só isto. Era o suficiente.

Ou: Estamos na praia. Tens dois anos. Foste à praia uma vez, quando tinhas catorze meses; não gostaste. A sensação do sol na tua pele era invasiva (partilhavas a aversão da tua mãe ao sol direto). De início, o movimento da areia sob os teus pés e mãos fascinou-te, mas depressa te começou a enervar; o chão nunca se tinha colado a ti antes, nem se mostrara instável. O mar trovejava. Acabaste nos meus braços, em desconforto.

Hoje, és mais velha, e não tens medo. Vestes um casaco de malha vermelho às bolinhas sobre um vestido verde às riscas e um chapéu vermelho-vivo, e na mão esquerda tens um palito com manga que comprámos ao vendedor do passadiço. Levo-te para lá do molhe de Coney Island; tiro os sapatos e pouso-te com os teus sapatinhos calçados. Desatas a correr, com o palito cuidadosamente levantado ao teu lado. Eu caminho atrás de ti.

O mar é enorme para ti, e pressinto o arrepio de assombro e medo que os mais pequenos sentem perante a vastidão do mundo. Tu ergues os olhos para mim e sorris; eu não pareço assustado. Tirei os sapatos, observo; não queres tirar os teus? Os teus olhos ficam pensativos, e depois dizes que sim com a cabeça. Caminhamos juntos até à orla do mar impossível. A areia molhada está fria; ainda só estamos em maio. Os grãos de areia cintilam.

– Olha, querida, uma concha – digo, apontando para os teus pés. Tu baixas-te e apanha-la da areia molhada. É um fragmento, uma coisa que cabe entre o teu minúsculo dedo e o polegar. Tem um pedaço de areia na ponta; tu aproxima-lo da minha cara, sorrindo, enquanto eu finjo estar enojado.

– Blhec!!

Ris com aquele teu cativante risinho gutural, fanhoso. As ondas aproximam-se, alcançando-nos. Pela única vez na tua vida, sentes água do mar a correr sobre os dedos dos pés.

*

O tijolo caiu do parapeito de um sétimo andar no Upper West Side de Manhattan. A Greta estava sentada num banco em frente do prédio com a avó. Estavam as duas a conversar sobre uma peça que tinham visto na véspera. Era uma versão live-action do programa infantil Chuggington, em que umas carruagens de comboio falantes ajudam a sua amiga Koko a voltar para a linha férrea depois de descarrilar.

– A Koko ficou presa! – exclamava a Greta uma e outra vez.

O momento parecia ter-se alojado no seu cérebro, contou-nos a minha sogra mais tarde. Ela estava impressionada com a simplicidade do problema, a profundidade do pedido de ajuda.

Os jornalistas entrevistaram a assistente da mulher idosa que vivia naquele andar – a mulher cujo parapeito se desmoronou. Mesmo no papel, reconheci o espanto e o choque na voz dela, a sua nova compreensão do mal e do caos do mundo: «Foi como se uma força maléfica tivesse intervindo…»

Deixámos o nosso E-ZPass no apartamento. A Stacy e eu só nos apercebemos disto ao chegarmos à entrada do túnel, a caminho das Urgências de Weill Cornell. A cancela não sobe quando nos aproximamos dela e quase a levamos à frente. O homem da portagem tenta lidar connosco, incoerentes, histéricos e a impedir o trânsito.

– A nossa filha sofreu um acidente grave – grita-lhe a Stacy. Ele espreita para o banco de trás vazio, confuso.

– Onde é que ela está? – pergunta.

– Está com a minha mãe! – diz a Stacy. Os carros buzinam à medida que a pressão da fila se acumula atrás de nós.

– Por favor, ela está no hospital – digo eu de súbito.

– Por favor, deixe-nos passar.

Ele faz-nos sinal para avançarmos.

– Só não tenham um acidente! – grita para a nossa janela enquanto a cancela sobe.

Tínhamos recebido o telefonema da mãe da Stacy, a Susan, há vinte minutos.

– Oh, Jayson, é horrível – dissera ela; as suas primeiras palavras. O cenário que descrevia ainda era vago: houvera dois pedaços de tijolo; estavam lá os paramédicos. A Susan estava na parte de trás de uma segunda ambulância, e a Greta seguia na primeira, já a caminho do hospital. A Susan também fora atingida, nas pernas.

– Onde está a Greta? – perguntei.

– Está lá à frente – disse a Susan.

– Já respira sozinha. Disseram-me que já respira sozinha.

A voz dela era confusa, desorientada, e ouvíamos outras vozes abafadas, paramédicos a perguntarem-lhe coisas. Uma voz de homem interveio atrás dela, fez uma pergunta brusca à Susan.

Percebi pela sua resposta hesitante que ela estava a ter dificuldade em encadear as ideias.

– Susan, diz-me, por favor – pedi, devagar e com firmeza.

– Onde é que o tijolo atingiu a Greta? Atingiu-a na cabeça? – Quando disse «cabeça», senti algo a quebrar a minha voz, uma coisa elementar que eu ainda não conhecia.

– Atingiu-a na cabeça, sim – disse a Susan. Eu berrei esta informação por cima do ombro à Stacy, que soltou um grito instintivo. – A minha menina – gritou ela, soluçando convulsivamente.

Durante a viagem eterna até ao hospital, nem a Stacy nem eu falamos em pormenores. Ela estende-se e toma a palma da minha mão na sua, com a voz trémula.

*

Deixamos o carro no serviço de estacionamento e entramos a correr no hospital. Chegamos ao segurança, e volto a dizer, pela segunda vez:

– A nossa filha sofreu um acidente e está nas Urgências. – Vejo o rosto dele suavizar-se; já estou a descobrir o que acontece quando damos esta notícia às pessoas.

– Lamento – diz ele, e faz sinal para passarmos. Há um rasto visível de crise na entrada das Urgências, uma mancha sobre o tempo que se estende pelo corredor, e sinto que estamos a atravessá-la. Ouço alguém à minha esquerda perguntar:

– Estes são os pais? – E uma parte de mim assimila a severidade desta designação: «os pais». Mais à frente, um paramédico acena-nos com urgência.

Entramos numa sala de canto, talvez com quatro metros de largura por quatro de comprimento, com uma mesa no meio e médicos e enfermeiros reunidos à volta dela. No centro está a Greta, de fralda, apenas, e dolorosamente minúscula, com os olhos fechados e a boca aberta. Vejo os membros da equipa a levantarem-lhe os braços e as pernas como se fosse um fantoche. Lembro-me de ver o céu da boca, as ilhas cor de pérola dos seus dentes. Não tenho memória da ferida na cabeça dela; a minha mente recusa-se a registá-la, ou apagou-a.

Há coisas que vemos com o corpo, e não com os olhos. Quando me afasto, sinto qualquer coisa a evaporar-se, uma parte da minha alma, talvez, que arde ao toque. Estou mais leve, sinto-me imediatamente diminuído, de algum modo, como se uma broca gigante me tivesse furado os ossos, extraindo medula. Olho de relance para a Stacy, pálida e imóvel numa cadeira do corredor, e vejo a mesma força vital a abandonar-lhe o corpo. A Susan está numa maca ao fundo de outro corredor, fora do nosso alcance. Nós esperamos.

Pego no telefone e ligo aos meus pais, que estão de férias em Nova Orleães. Tento o telemóvel da minha mãe primeiro: ninguém atende. Deixo uma mensagem de voz. Ando de um lado para o outro em frente à receção, experimento o número do meu pai. Voicemail. O meu irmão: voicemail. Atravessei um wormhole, ao que parece, ou caí numa fenda no tempo. A minha família e amigos, alheios a tudo isto, vivem acima dela. Na cronologia deles, a Greta ainda está bem.

É o John, o meu irmão, quem finalmente atende. Tento transmitir a gravidade da situação, e percebo que ele não a compreende ou se recusa a compreendê-la.

– Oh, Jay, lamento muito – diz. A sua voz é compreensiva, a reação a um ferimento de infância banal, um momento assustador mas temporário na vida de qualquer jovem pai. – Tens o meu apoio, pá. Não há nada pior, mesmo. Lembro-me de quando a Ana – a sua filha de oito anos – foi mordida pelo cão. Foi o pior dia da minha vida. Sentimo-nos tão impotentes.

Tento realçar o meu mau pressentimento pelo telefone:

– É grave, John – digo.

– Ela vai ficar bem – diz-me ele, e ouço o laivo de uma súplica por trás do tom tranquilizador da sua voz. Ainda não sei muito.

Mas tinha visto as expressões perturbadas nos rostos dos paramédicos quando entrei, e já tinha observado a terrível visão do corpo da Greta, frágil e inanimado, jazendo inerte numa mesa enorme. – Não, John – digo em tom sombrio. – Não me parece.

*

A equipa de traumatologia leva a Greta da área de admissão para outro corredor para fazer uma TAC, que revelará a extensão e gravidade dos seus ferimentos. Todas aquelas coisas preciosas que ela tem na cabeça – como é que estão? A Stacy e eu já estamos a calcular silenciosamente as probabilidades. A Greta começou a compor frases muito cedo; era obcecada por cães, e a Stacy e eu dizíamos a brincar que lhe daríamos um, quando tivesse idade para nos dizer «Quero um cachorrinho» numa frase. Quando nos disse isto aos catorze meses, nós rimos e alargámos os requisitos mínimos («Mãe, pai, gostava muito de ter um cão, e prometo ajudar a passeá-lo e dar-lhe de comer»). Precisávamos de mais tempo, argumentámos. Estávamos seguros de que o tínhamos.

A TAC revela uma hemorragia no cérebro, e ela é levada à pressa para uma cirurgia urgente. A hemorragia é tão grave, ao que parece, que não mandam ninguém para informar «os pais» sobre o estado dela. Depois de uma espera aparentemente interminável nas Urgências, procuro o nosso assistente social, um homem cujo rosto nos fora indolentemente apresentado minutos antes. Tem na mão um saco de plástico, que dá à Stacy: as sandálias douradas da Greta, manchadas de sangue. A Stacy aceita o saco sem reação e deixa-o pender ao lado do corpo.

– Onde está a nossa filha? – pergunto.

O assistente social bate à grande porta azul da sala de TAC e depois abre-a, a medo; está vazia, exceto um membro da equipa.

Somos encaminhados para outro piso. Aí, sentamo-nos, à espera, enviando mensagens a amigos e familiares num estado de apatia.

Os nossos bons amigos Danny e Elizabeth aparecem, a Elizabeth com um saco de sanduíches a balançar na mão, com o ar impotente de quem não pode aparecer de mãos a abanar mas não tem nada para dar. A Stacy tinha-lhe enviado uma mensagem quando ainda estávamos na triagem: «A Greta magoou-se e não sei se vai ficar bem.»

Estes dois são um pronto-socorro nas vidas de todos os seus amigos, chegando primeiro a uma crise com as sirenes ainda a ressoar e a fita de sinalização levantada. As suas próprias vidas são complicadas à maneira contínua e desordenada de verdadeiros boémios urbanos, com o seu apartamento de dois quartos quase a ruir sob o peso de milhares de livros e estranhas bugigangas vintage e as centenas de projetos de arte da sua assombrosamente sábia filha de cinco anos, Clara. São eles que chegam atrasados a uma festa, de cabelo despenteado e rostos corados, com a Elizabeth a aludir a um conjunto de circunstâncias surpreendentemente improvável com um aceno de uma mão e a murmurar: «Escusam de perguntar.» Mas quando a mais leve calamidade atingia qualquer elemento da sua generosa órbita, eles largavam todas as peças do seu precário número de malabarismo e ajoelhavam-se ao nosso lado. Eram só dois, mas quando chegavam sentíamo-nos rodeados, de algum modo. Tínhamo-los visto desempenhar este papel para os seus inúmeros amigos e conhecidos e perfeitos desconhecidos que um amigo tinha avalizado. Agora é a nossa vez. A Elizabeth pousa o saco de sanduíches no chão e abraça-nos aos dois, sem uma palavra.

O irmão da Stacy, o Jack, e a sua namorada de há nove anos, a Lesley, chegam a seguir, de rostos chorosos e destroçados. Sentam-se de ambos os lados da Stacy, que está sentada com os joelhos encolhidos junto ao peito. Não me lembro de quase nada deste momento, apenas da forma do canto em que nos sentamos e, depois, das figuras indistintas de dois inspetores da polícia, em pé, perto dos elevadores; tinham chegado do local do acidente. O resto – quanto tempo passa, o que digo à Stacy ou ao Jack, se me levanto para ir à casa de banho, se dou a notícia a alguém por mensagem, se digo seja o que for de especial – é uma moeda a deslizar sob águas turvas.

Penso na Greta, sabendo que aquilo que sobreviver dela estará danificado. Imagino-me a criar uma sombra da minha filha, um corpo que não para de crescer enquanto a mente bruxuleia debilmente. Penso em nunca mais ouvi-la falar. Penso em cadeiras de rodas, cuidados domiciliários, uma Greta adulta muda e prostrada, a ocupar o nosso quarto de hóspedes. Penso, brevemente, em despesas – como aguentaríamos esse fardo?

Por fim, o cirurgião surge. Levantamo-nos, inutilmente. Ele é a imagem televisiva de um neurocirurgião: magro, pálido, de olhos fundos e têmporas ligeiramente encovadas. Parece ser feito inteiramente de cartilagem sob a sua roupa de bloco.

Baixa o corpo ossudo para a cadeira ao nosso lado e entrelaça as mãos entre os joelhos.

– Quem me dera ter notícias melhores para vos dar. Removemos o máximo do crânio que conseguimos para permitir que o cérebro inchasse, mas a hemorragia era bastante grave.

Sinto que está a escolher as palavras o mais cuidadosa e rigorosamente possível: a nossa falsa esperança é uma obstrução, e o dever dele é cortá-la pela raiz e não deixar nada que possa crescer.

– Então está a dizer que a possibilidade de ela recuperar seria quase um… milagre? – pergunta a Stacy.

– Eu diria que sim – responde o médico.

Ele fita-nos, os seus olhos tão pesarosos quanto a voz é lacónica. Acrescenta, num tom mais baixo: – Esta é uma daquelas situações em que gostava de estar enganado.

Somos mandados para outra ala do hospital, à espera de que os enfermeiros estabilizem a Greta. A Susan é trazida numa cadeira de rodas com uma bata de hospital, de pernas pisadas e inchadas e rosto pálido. Os olhos dela são um espelho de exaustão e desvario, perdidos da forma que associo a pacientes com alzheimer profundo.

Algo está muito mal, dizem os olhos, mas é demasiado grande para eu perceber.

Desata a soluçar mal nos vê, dobrando-se na cadeira como se o nosso olhar a estivesse a mirrar. A Stacy corre para ela, ajoelhando-se.

– Tu não tens culpa – diz em voz baixa à Susan. – Não tens culpa.

A Susan chora no ombro dela como uma criança até cair em silêncio.

Todos nos acomodamos e aguardamos. Há um aquário à nossa direita, a separar o corredor e a azáfama do hospital de nós e da nossa miséria. O saco de sanduíches repousa, mal-amado, na mesa.

– Alguém tem fome? – pergunta a Elizabeth finalmente, como um hálito em ar gelado.

A Stacy espeta um dedo no saco desinteressadamente.

– Talvez? De onde são estas sanduíches?

As obsessões culinárias da Stacy são tão fortes e puras que por vezes até a ela desconcertam, e a sua persistência nesta situação faz-nos rir entre dentes e contra vontade.

– São do Corrado, uma mercearia chique – diz a Elizabeth, acrescentando com um sorriso:

– Escolhemo-las com muito cuidado. Há de frango com aneto, e rosbife, e nenhuma tem maionese.

A Stacy anima-se um pouco, inclinando-se para a frente. Abre o saco e começa a examinar cada sanduíche, levantando as tampas das embalagens, pegando na fatia de pão de cima com dois dedos para espreitar a proporção de carne e queijo, confirmar a ausência de maionese e procurar a temida presença de cebola crua. Enquanto executa este meticuloso ritual, a Elizabeth começa a rir; de súbito, estamos todos a rir.

– Mãe, queres uma destas sanduíches? – pergunta a Stacy, rindo e arquejando um pouco. – São mesmo mesmo boas.

Comemos e depois ficamos sentados com as embalagens espalhadas à nossa volta, esquecidas ao lado de pacotes de mostarda rasgados e guardanapos amarfanhados. O silêncio instala-se mais uma vez, e à medida que a névoa cinzenta das horas se prolonga sem novidades, o medo volta a consumir-nos.

Sabemos que a Greta vai morrer, todos nós, embora ainda não tenhamos admitido o pensamento na nossa mente consciente. Nenhum de nós está preparado para que ele saqueie o nosso subconsciente, matando e queimando tudo o que vê. Mas ouvimos bater aos portões. Olhamos em redor, apercebendo-nos de que esta é a última vez que veremos o mundo tal como o conhecemos. O que vier a seguir vai arrasar tudo completamente.

*

A Dra. Lee, a pediatra da Unidade de Cuidados Intensivos que está de serviço, sai passadas três horas para nos vir buscar. Carrega num botão, as portas abrem-se com um silvo, e entramos na Unidade de Cuidados Intensivos Pediátricos. Este sítio tornar-se-á o nosso bardo, o nosso lugar de morte e transição, durante as próximas quarenta e oito horas. A nossa filha está num quarto na ala esquerda, mas a Dra. Lee guia-nos antes pela ala direita, até uma sala pequena com uma planta artificial a um canto, e umas barras de granola numa mesa de centro rodeada de três cadeiras.

Ela senta-se e observa-nos. Os seus olhos são graves, atentos, compassivos.

– O impensável aconteceu à Greta – diz em jeito de introdução. – Ela está estável, mas a lesão cerebral é tal, que ela nunca vai despertar. – Espera um momento e depois diz, mais baixo: – Penso que o prognóstico dela é fatal.

«Quero que saibam», acrescenta com mais suavidade enquanto nós soluçamos, «que o inchaço é grande. Devem saber isto antes de entrarem para a ver».

A Dra. Lee fica sentada a ouvir em silêncio o som dos nossos corações a rebentarem naquela sala. Depois levanta-se:

– Digam-me quando estiverem prontos para entrar.

Entramos no quarto da Greta; estamos, sabemos agora, a visitar a nossa filha morta. O rosto dela está amarelo e brilha com líquido intravenoso, o crânio inchado e azul, com obscenos agrafos de aço a atravessá-lo. Ladeamos a cama, e cada um segura numa mão.

– Olá, macaquinha – diz a minha mulher. – Não tivemos muito tempo juntas. Não chegou, pois não? O pessoal médico, reunido na ponta da cama, observa-nos em silêncio. Uma delas passa um dedo pelo pulso da Stacy ao avançar para ajustar qualquer coisa:

– Vocês são incríveis – murmura, e depois recua. Sinto a ternura deles por nós a insinuar-se no quarto à medida que a nossa família se torna nítida: a Greta já não é um corpo que eles passaram horas infrutíferas a tentar estabilizar. Ela é nossa, e nós somos dela.

Entoamos canções de embalar enquanto os enfermeiros tratam dos tubos. Eu quase lhe tiro uma foto – sou um pai, afinal, e há uma certa lógica nisso. Tínhamos documentado cada fase nova da vida dela, cada conjunto de roupa, cada novo parque infantil ou passeio pelo quarteirão, para os conservar, e na bruma da minha dor, isto não parece diferente. Uma enfermeira dissuade-me suavemente.

Os meus pais estão a embarcar num avião. Após cinco tentativas, a minha mãe finalmente atendera o telefone a bordo do barco fluvial Natchez; dissera simplesmente:

– Não – em voz baixa e firme, e desatara a chorar da forma resignada que choramos quando pressentimos que uma batalha já está perdida.

Olho para o meu telefone, à cabeceira da Greta, e vejo isto: «Alguma novidade? Estamos prestes a embarcar.» Olho fixamente para a mensagem, incapaz de os deixar embarcar no avião sem notícias ou de lhes dizer por mensagem que a minha filha está morta. Respondo simplesmente: «As notícias não são boas.»

A minha mãe responde: «Estamos profundamente tristes», e depois levantam voo, sem comunicação e presumivelmente tão sozinhos nos seus pensamentos como nós estamos com os nossos.

Sentamo-nos e observamos o movimento dos pulmões da Greta, enquanto a máquina os enche e esvazia. Nos seus primeiros meses de vida, tínhamos o hábito nervoso de ver se ela ainda estava a respirar. Por vezes, a Stacy tirava-a da alcofa durante a noite para a pousar no seu peito, onde a respiração das duas entrava em sincronia.

Da primeira vez que a levámos para o exterior, bem aconchegada junto à Stacy no seu marsúpio, parámos num semáforo para a Stacy poder levantar a aba e contar as respirações. Uma vizinha, mãe de uma criança de três anos e outra de cinco, passou por nós: a Stacy fez uma piada nervosa, e a mulher sorriu em reconhecimento.

– Eles estão sempre a respirar – garantiu-nos.

Ao longo dos meses seguintes, começámos a adaptar-nos àquela realidade. Ela está sempre a respirar, dizíamos a nós mesmos. Lentamente, a parte de nós que não sabíamos que estávamos a esticar afrouxou, uma fibra muscular de cada vez.

Imagino que seja igual para todos os novos pais: aprendemos lentamente a acreditar na existência contínua da nossa criança.

O futuro dela começa a ganhar forma na nossa mente, e preocupamo-nos com pormenores. Será que vai fazer amigos facilmente na pré-primária? Será que brinca o suficiente? A vida continua a ser precária, cheia de doenças que atacam subitamente e arrasam a família toda como um campo de colheitas salgadas. Há camas das quais cair, cadeiras nas quais esbarrar, pequenos brinquedos passíveis de engolir com os quais nos preocuparmos. Mas já não vemos a morte em cada canto, apenas desafios, uma corrida de obstáculos que nós e a nossa criança estamos a fazer, por vezes juntos e muitas vezes em conflito um com o outro.

Aos dois anos, a nossa criança é uma pessoa – tem opiniões e crenças firmes, preferências e tendências, um grupo de amigos e comidas preferidas. Nós os três temos piadas próprias e entendimentos partilhados, e falamos num código familiar. A parte de nós que estava sempre a calcular a probabilidade da existência contínua da nossa criança está essencialmente adormecida. Já não nos é útil; nunca foi útil para a criança; e há tanta coisa à nossa frente para fazer.

O que acontece a esta perceção quando a nossa criança é morta instantaneamente por um pedaço desgarrado do nosso ambiente quotidiano, no preciso momento em que tínhamos deixado de pensar que algo poderia roubar-nos tudo aquilo a qualquer momento? Que lição é que as nossas terminações nervosas aprendem? Sentado ao fundo da cama de hospital da minha filha, estou demasiado entorpecido para absorver estas coisas. Mas fá-lo-ei, em breve.

*

Como um rio, as horas passam a correr, no tempo que não é tempo. Por fim, a Dra. Lee chama-nos de novo à outra sala para debater os próximos passos.

– A meu ver – diz ela –, podemos desligar-lhe o ventilador agora. Ou – e faz uma pausa – podemos falar sobre a doação de órgãos.

Deixa estas palavras desabrochar e assentar. Apesar da gravidade do traumatismo craniano, prossegue, os órgãos da Greta foram miraculosamente conservados. Coração, fígado, rins: todos eles intactos, em perfeitas condições.

– Se decidirem seguir essa via, primeiro teremos de fazer testes para confirmar que ela está cerebralmente morta – diz a Dra. Lee.

– É uma formalidade – acrescenta, interrompendo a nossa pergunta implícita: E está? – Não vimos nenhum sinal de resposta da Greta, mas para começar a nossa procura de recetores, temos de fazer uma série de testes para certificar a morte cerebral.

A Dra. Lee continua a falar por um momento, enquanto eu me recosto e deixo que a ideia me inunde. Ela levanta-se.

– Vou deixar-vos a sós para conversarem sobre o assunto.

A Stacy e eu ficamos sozinhos. Olhando para trás, acho que nenhum de nós teve a mínima dúvida. Eu sou o escritor, o explicador compulsivo que faz um esforço para se calar para que os outros possam prover-se de oxigénio. Mas é a Stacy quem encontra e profere as palavras de que precisamos:

– Preciso que isto tenha um significado – diz-me ela. – Talvez assim não seja uma morte vã.

Eu concordo com um aceno de cabeça. Não sei a que fonte de água pura a Stacy está a recorrer, mas sei que encontrou o caminho direto para a nossa verdade.

Mandamos chamar a Dra. Lee imediatamente e dizemos-lhe: queremos enveredar pela doação de órgãos. É a única decisão simples que tomamos.

*

O nosso primeiro representante da LiveOnNY, a organização responsável pela doação de órgãos, chega pouco depois. Chama-se James, e passa-me uma pasta ao apresentar-se, garantindo-me que o nosso altruísmo está a poupar e a mudar vidas. Eu abro a pasta e deteto esta frase impressa literalmente na primeira folha. Os meus olhos pousam numa lista de conselhos para lidar com o luto enquanto ele fala. «Chore tantas vezes quantas precisar», diz um. «Fale sobre o seu ente querido tanto ou tão pouco quanto quiser», aconselha outro. «Não há ‘dever’ no luto, e cada pessoa terá necessidades diferentes.» Outro promove a importância do exercício vigoroso, que se descobriu ser útil contra a depressão. Fito-os até ficarem gravados a fogo no meu cérebro. São o meu primeiro conjunto de instruções sobre como respirar neste novo planeta.

Uma segunda representante, a Maura, chega pouco depois. Leva-nos de novo até à sala onde a Dra. Lee nos deu o prognóstico da Greta para nos informar sobre o processo. Parece crucial para todos, neste momento, que sejamos transportados para uma sala, qualquer sala, para nos ser dado qualquer tipo de notícia – deslocam-nos pelos mesmos três espaços como se isso pudesse difundir ou mitigar a dor.

Quando a porta se fecha, vejo com desalento que os olhos da Maura estão cheios. Ela leva uma mão vermelha e carnuda ao peito.

– Antes de mais, quero que saibam que também sou mãe. Estou a sofrer por vocês. Venham cá, venham cá – diz ela, fazendo sinal para que a abracemos.

Eu fico imóvel, encurralado, e depois inclino-me rigidamente para um abraço indesejado. Ela é baixa e robusta, e mantenho os olhos fixos no padrão reticulado da pequena janela sobre o ombro dela e conto para trás a partir de cinco até ela me largar.

Ela aplica o mesmo abraço à Stacy e depois senta-se à nossa frente. Lágrimas correm por uma face rosada abaixo. A Maura parece assoberbada, incapaz de encontrar o ponto de partida para o seu discurso sobre recetores, prazos, a papelada necessária. A Stacy e eu pressentimos a leve descrença um do outro: Será que ela trata assim toda a gente com filhos moribundos?

O processo de doação de órgãos, estamos a descobrir, é uma estranha mistura entre o indescritível e o insípido. Por um lado, há o tema em si: os órgãos internos da minha filha, encerrados a salvo no seu pequeno corpo, em falência mas ainda quentes. Por outro, há o delicado e confuso caminho que o Estado percorre para os remover, legalmente e um a um, para poder redistribuí-los pelos corpos de outros cidadãos. Mesmo aqui ainda há, por algum motivo, caixas a assinalar, uma série protocolar de perguntas a fazer e responder.

Somos levados para outra sala – um espaço de reuniões, a um canto, com uma mesa comprida – para nos fazerem estas perguntas. A Maura ordena os papéis à sua frente num gesto de contrição, pega na caneta e mantém-na suspensa, um pouco hesitante, sobre o primeiro formulário. Queremos café? Não, não queremos.

– Temos de vos fazer estas perguntas antes de autorizarmos a procura de recetores – começa ela, ainda a olhar para baixo. – Peço desde já desculpa pelas perguntas que não são relevantes. Nós… nós temos de fazê-las, mesmo assim. – Mantém os olhos fixos na secretária, erguendo-os apenas de vez em quando, com uma expressão de sofrimento, quando as perguntas são especialmente perturbadoras: «A paciente alguma vez consumiu drogas?» «Era sexualmente ativa?» «Estava grávida?» Não, não consumia. Não, não era. Não, não estava.

– Não acredito que não têm um formulário diferente para crianças – lamenta a Stacy a dada altura, afundando-se na cadeira e esfregando os olhos. – Ela tinha dois anos.

Os meus pais chegam nessa noite e ocupam os seus lugares ao nosso lado. Juntos, estendemo-nos como figuras numa pintura religiosa. A minha mãe está sentada atrás de mim num parapeito. Eu estou no chão, com a cabeça pousada nos joelhos dela, num eco da minha infância.

A Susan encontra-se ao fundo da cama da Greta, a chorar suavemente.

– Porque é que não podia ter sido eu? – pergunta a ninguém em especial.

Ergo os olhos para ela, e o seu desgosto é tão agudo que é como o sol: não consigo olhar para ele. Ninguém responde, mas eu penso: Não devias ter sido tu. Não devia ter sido a Greta. Não devia ter sido ninguém.

Em vez de nos mantermos a par das horas, acompanhamos a variação dos grandes números vermelhos no ecrã. Estes números indicam a frequência cardíaca da minha filha de dois anos, estabilizada pelo suporte de vida, e os enfermeiros mantêm-se atentos a picos ou quedas preocupantes no ecrã. Tubos chovem de um suporte de aspeto frágil sobre a cama da Greta, desembocando no corpo dela em diversos pontos que prefiro não distinguir. De poucos em poucos minutos, um dos tubos fica torcido ou dobrado, desencadeando um bipe monótono e repetitivo da máquina; uma enfermeira aparece e faz uma dança irritável de puxões, ajustes e sacudidas, até a dobra se soltar e a máquina se calar.

A Stacy e eu revezamo-nos a dormir ao fundo da cama dela. Não há sonhos no sono traumático: a exaustão e o choque são copilotos fiáveis, assumindo o comando quando mais precisamos deles. De vez em quando, repito em voz alta e sem consciência evidente de que alguém esteja a ouvir: «Eu devia morrer, simplesmente. Porque é que não posso morrer?» Sinto o meu coração a olhar para mim, perplexo, perguntando-me entre batimentos: Tens a certeza de que queres que continue a fazer isto? Deito-me no parapeito, dizendo à minha mãe que não sei como viver.

– Livra-te de fazeres uma parvoíce – responde ela suavemente.

Deambulo, só com as meias calçadas, pela enfermaria durante grande parte da noite, fazendo vinte ou trinta viagens à casa de banho, por vezes apenas para lavar inutilmente as mãos e voltar à cabeceira da minha filha. Ouço os meus próprios gritos de dor na casa de banho, os ladrilhos cinzentos que cobrem o chão e as paredes como uma câmara hiperbárica, e penso que devem pertencer a outra pessoa. Evito o meu olhar no espelho; não tenho interesse em descobrir qual é a sensação de enfrentar os meus olhos.

Para onde quer que vá, vejo corredores vazios – ninguém nas salas de espera, nenhuma cirurgia planeada, ninguém à vista. Esta primeira noite é o início da minha reeducação: a Terra é agora um planeta alienígena, e eu sou um visitante a pisar a sua superfície. Aprendo competências novas, diminutas, neste período, civilidades que já intuo que serão necessárias. Graciosa e passivamente, aceito o abraço e as palavras de uma enfermeira noturna, de olhos a transbordar de bondade, que me incentiva a não «desistir» da nossa bebé. Nosso Senhor Jesus Cristo, afinal, opera milagres.

O cenário é estranhamente semelhante ao do nascimento da Greta, a minha mulher e eu juntos à volta dela no meio de Manhattan, a olhar pelas janelas para a cidade em nosso redor num silêncio invulgar. Os únicos outros humanos nesta dimensão alternativa, de ambas as vezes, eram um punhado de ajudantes, que pareciam ter sido enviados especificamente para nos acompanhar na transição. No dia do nascimento dela, eram Rita, a parteira, e Narchi, a doula; neste dia, é a neurocirurgiã, a Dra. Lee, os enfermeiros da Unidade de Cuidados Intensivos Pediátricos, e a equipa que trabalha na LiveOnNY.

De manhã, tomo um duche na casa de banho, vestindo um par de calças de fato de treino e uma T-shirt que a minha mãe me comprou numa Gap das redondezas. O meu irmão chega, cansado de um voo noturno do Colorado. A Liz, melhor amiga de infância da Stacy e sua irmã em tudo exceto o nome, chega de Londres. A Stacy, delirante do cansaço e do trauma, murmura instintivamente:

– Como foi o teu voo?

A Liz olha para ela e desata a rir. Há uma acidez reconfortante na sua voz, por entre as lágrimas.

– Foi espetacular, Stace – diz de modo sarcástico. – Simplesmente fantástico.

Pomos toda a gente a par da situação o melhor que podemos. Os médicos chegarão daqui a poucas horas para declarar a morte cerebral da Greta. Desligá-la-ão brevemente do ventilador, atentos a qualquer sinal de movimento respiratório independente. Testarão os reflexos do seu tronco cerebral, o tipo de reflexos que indicam a vida no seu estado mais primitivo. Realçamos, apaticamente, que eles não contam encontrar nada.

Como a Stacy ainda estava a amamentar na altura do acidente, alguém tem de lhe tirar sangue, ao que parece. Porque precisam do sangue dela? Não temos bem a certeza, mas parece relativamente lógico num plano mais profundo do meu cérebro – sangue, leite materno, olho de tritão, cabelo de criança. Estamos no reino do profano, do sacramento corpóreo, e nada me surpreende. Se alguém me tivesse abordado e explicado sobriamente que precisava de me cortar a língua para enviar para o laboratório para análise, eu provavelmente teria aberto a boca sem me queixar nem fazer perguntas.

Por algum motivo, o sangue tem de ser enviado para Filadélfia – cerca de três horas de carrinha. «Levamo-lo para lá o mais rápido que pudermos», garantem-nos. Então, e só então, é que os telefonemas para possíveis recetores começam. Entretanto, a Greta será mantida a funcionar. A Stacy deita-se na cama com ela, pousando a cabeça ao lado da sua, na almofada. Eu pouso levemente a cabeça no peito dela e sinto-o subir e descer. Há algo de horrível e precioso no tempo que passamos juntos agora – os seus limites são tão claros e evidentes. A dada altura nas próximas vinte e quatro horas, nem sequer a teremos assim.

Foi-nos dito que uma enfermeira virá recolher o sangue da Stacy por volta das oito da manhã, mas quando a hora chega e passa sem enfermeira nem novidades, começo a sentir algo indesejado: irritabilidade à moda antiga, um formigueiro quente que trespassa o torpor frio e cavernoso do trauma e se insinua lentamente. A minha testa fica tensa.

– Onde é que eles estão? – queixa-se a Stacy.

– Tenho a certeza de que não devem tardar – diz a minha mãe, num tom pouco convicto mas sabendo as suas falas para o momento de tensão. A situação parece sombriamente familiar: um cenário típico de Nova Iorque em que toda a gente está parada à espera de que uma confusão absurda se esclareça.

Chega finalmente uma enfermeira com seringas e frascos vazios, e eu solto um suspiro de gratidão. Enquanto os frascos se enchem, saco do meu telefone. Sou confrontado com uma mensagem de um amigo do trabalho:

«Acabei de saber. Diz-me, por favor, se houver alguma coisa que possa fazer. Estou a torcer por vocês.»

«Obrigado. Como é que soubeste?», respondo.

«Um artigo do NY Post

Mudo de posição no parapeito e olho em redor do quarto.

O telefonema do primeiro jornalista chegara na noite anterior, uma mensagem de voz no telefone da Stacy. Tínhamos uma vaga consciência da presença de carrinhas de canais televisivos no local do acidente da Greta, mas ainda não me ocorreu que a nossa história pudesse continuar a ser – que nós pudéssemos continuar a ser – motivo de atenção mediática.

A Susan abre o artigo do Post, embora eu não consiga olhar para ele.

– Disseram que eu tinha oitenta anos! – grita, indignada. Fez sessenta na semana passada.

Quarenta e cinco minutos mais tarde, o New York Daily News publica o seu artigo. Desta vez, eu olho: há uma foto da minha filha, com a testa presa a uma maca, cujas rodas estão empoleiradas na beira da ambulância. A maca é para um corpo adulto, e ela parece minúscula, um brinquedo, no meio dela. A foto não tem qualquer efeito em mim; sentado diante dela, fixo-a simplesmente como o prenúncio do pesadelo que estamos a viver agora. Há uma foto da Susan, com um polícia a segurá-la de cada lado; a câmara capta um olhar de incompreensão. Há uma citação, anónima, de um dos vizinhos: «Isto é uma tragédia inacreditável. É a única neta dela.»

Levo a minha mãe ao café, lá em baixo. Somos ambos almas inquietas, a minha mãe e eu, e precisamos de algum alívio. Peço um croissant com ovo e queijo, espalmado pelo vapor, e uma chávena de café fraco e amargo com uma colher de plástico vermelha. Pouso o croissant no meio do papel de embrulho aberto e tiro os cantos derretidos do queijo. Pergunto-me o que farei depois de ela partir verdadeiramente, quando o seu corpo tiver sido aberto, quando estivermos fora do hospital sem ela.

Havia dias em que deixava a Greta no infantário e dava por mim a olhar ansiosamente pelo pequeno corredor para o quarto de brincar; uma parte de mim queria agachar-se no chão com os amiguinhos dela o dia todo, desaparecer do mundo dos adultos. Talvez possa fazer voluntariado num infantário cooperativo durante algum tempo. Algo para ajudar a preencher o vazio. Bebo um gole do meu café e sinto o vazio do meu estômago a contrair-se quando o líquido atinge o fundo.

A minha mãe sobe sem mim, e aventuro-me até ao pátio, erguendo o olhar para um céu cinzento e estagnado. Estamos em maio, mas há nuvens e um frio húmido no ar que ainda não secou.

Telefono à minha querida amiga Anna, uma bailarina que deixou a cidade para ir para o Ohio. Ela conta-me mais tarde que eu lhe digo: «Vamos ter de arranjar amigos com filhos mortos.» Não me lembro de proferir estas palavras, mas ouvi-las de novo meses mais tarde impressiona-me: mesmo na altura, uma pequena parte de mim estava a fazer planos a longo prazo para a sobrevivência.

Telefono à minha psicoterapeuta, uma mulher grave e séria que eu começara a consultar recentemente. De repente está metida num aperto, penso. Conto-lhe o que aconteceu, e ela diz-me calmamente para lhe telefonar de meia em meia hora, ou de hora a hora, para não parar. Diz-me que lamenta muito, mas a voz dela é desprovida de emoção, inexpressiva. Pressinto que está a esbater a sua reação, transformando-se num objeto inanimado no qual me posso apoiar. Deixo-me afundar de bom grado no seu peso.

Quando regresso à cabeceira da Greta, o ambiente no quarto é tenso: os frascos de sangue da Stacy, colhidos há mais de uma hora, ainda estão esquecidos numa mesa. O que significa que não estão a caminho de Filadélfia, o que significa que a Greta está encalhada na penumbra há horas para nada. Quando olho para os frascos, a fúria fervilha dentro de mim. Pequenas falhas de burocracia são intoleráveis; uma delas acaba de esmagar o crânio da minha filha. Atravesso a passos largos a Unidade de Cuidados Intensivos pediátricos, com a intenção de fisgar o olhar da primeira pessoa que me encare. Como acontece muitas vezes nos hospitais, a minha agitação esgota-se numa enfermeira sem qualquer controlo sobre a nossa situação.

– Prometo que vou ver o que posso fazer – diz ela. Alguns minutos mais tarde, o James reaparece, ladeado de enfermeiros que recolhem rapidamente os frascos.

– Porque é que ninguém veio buscá-los? – pergunta a Stacy.

– Isto já é um processo longo, e estamos todos à espera. A Greta está à espera. Isto é a única coisa de que estamos à espera!

O James parece um pouco nervoso e atrapalhado, o tipo de pessoa a quem os seus superiores disseram que tem de ser mais delicado com os pacientes. A voz dele eleva-se de forma pouco natural, os seus olhos desviam-se dos nossos:

– Olhem, ela vinha aqui – diz ele de repente –, mas a enfermeira tinha muito medo de que vocês desistissem.

Nós fitamo-lo, seguros de que irá perceber que isto era provavelmente a coisa errada para se dizer. Ele volta-se e sai do quarto sem pedir desculpa. A Stacy olha para mim incrédula quando a porta se fecha, e ambos rimos debilmente. Todavia, os frascos foram levados. Descontraio ligeiramente. Olho de novo para o meu telefone e vejo que recebi um e-mail de um jornalista.

«Quero dar-vos as nossas mais sinceras condolências», escreve o homem. «A Greta parecia ser uma criança mágica. Estamos a trabalhar num artigo sobre o falecimento dela, e se tiverem alguma coisa que queiram partilhar, só queria que soubessem que estamos aqui para vos ouvir.»

Percorro a minha caixa de entrada; e-mails com o assunto «Greta» estão a chegar de estranhos, do Inside Edition, da WABC. Um administrador do hospital aparece pouco depois.

– Primeiro, ninguém sabe que vocês estão aqui – garante-nos. – Mas o hospital está a ser inundado com telefonemas de jornalistas. Muitos deles não se estão a identificar ou estão a tentar fazer-se passar por membros da família. Estão a telefonar para todos os hospitais da cidade. Quando estiverem prontos para partir, nós acompanhamos-vos e asseguramo-nos de que saem discretamente. Pode haver meios de comunicação à espera lá fora, e estaremos atentos a camiões da televisão.

Penso em camiões de canais televisivos a rastejar como escaravelhos por toda a cidade e a estacionar à porta dos hospitais, na esperança de conseguirem uma imagem dos pais transtornados. Por breves instantes, sinto vontade de vomitar.

A família faz uma breve reunião na cama vazia junto à da Greta.

– OK, precisamos de nos preparar para a possibilidade de nos depararmos com um jornalista lá fora – digo. – O que vamos fazer?

– Se alguém me perguntar alguma coisa, faço como o Sean Penn – resmunga o meu irmão.

Viro-me para ele, subitamente confrontado com algo que compreendo.

– Não fazes, não. Se te perguntarem alguma coisa, digo-te exatamente o que vais fazer: vais dizer-lhes «sem comentários», e depois vais afastar-te. A única coisa que eles querem é um artigo, e a primeira coisa que fizeres ou disseres que não seja «sem comentários» vai dar-lho. Percebes?

O meu irmão agita-se; é o alfa, pouco habituado a que lhe gritem em frente a outras pessoas. Resmunga um assentimento. Animado, passo aos meus pais para me assegurar de que percebem. Foi-me entregue um problema solúvel. A Greta não vai acordar, mas posso manter a imprensa à distância.

Ao meio-dia, os médicos chegam para testar a morte cerebral. Vejo-os juntar-se à volta dela, atarefados. Desligam o ventilador, vigiando o peito da Greta para ver se há movimento independente. A Stacy e eu observamos a caixa torácica dela com um foco terrível e silencioso. Ela fica quieta, mais quieta do que alguma vez a vi. À medida que o minuto interminável se prolonga, apercebo-me de um ardor no meu peito; estou a suster a respiração. Finalmente, voltam a ligar o ventilador. O peito dela incha; eu expiro. Já não me interessa o que está a fazer os pulmões dela moverem-se, preciso simplesmente de os ver em movimento.

Eles passam para a cabeceira da cama para lhe apontar uma luz às pupilas. Nós ficamos de pé em frente à cama e observamos; precisamos de ver aqueles olhos de novo. As pálpebras dela fecharam-se com o inchaço, e a equipa tem de abri-las com algum esforço. Quando o fio de luz lhe atinge a córnea, nada acontece – é como luz a atingir um berlinde. Os olhos suaves e profundos da minha filha são agora globos oculares; não há nada neles.

Todo o processo cruel demora cerca de quinze minutos. Pressinto a finalidade antes de os médicos recuarem e começarem a arrumar tudo. A morte da Greta é agora legal, clínica. Está morta aos olhos do Estado.

Depois de eles partirem, a Stacy volta a deitar-se na cama ao lado da Greta. Sabemos com certeza que o que quer que esteja dentro da Greta nunca voltará, e bem no fundo do nosso esconderijo, há algo tão horrendo que nunca se lhe poderia chamar «alívio» – mas experimentamos um pequeno desprendimento, uma amarra que podemos deixar cair na água. Nunca nos será pedido para escolher por ela, nunca seremos obrigados a fazer cálculos infernais sobre a sua «qualidade de vida». Ela está firmemente do outro lado, o controlo foi arrancado das nossas mãos.

Saindo para o corredor, confesso em voz baixa ao meu irmão que temo profundamente vir a perder a Stacy, também. Este é o tipo de golpe, afinal, que dissolve os casamentos mais fortes.

Quando volto a entrar, a Stacy ergue o olhar da cabeceira e sorri para mim.

– Aí estás tu – diz, e levanta-se para me dar um abraço e um beijo.

Preparo-me para mais uma viagem à cafetaria, levando comigo pedidos de café e comida para todos. Quando saio do quarto, ela diz:

– Amo-te.

Enquanto desço no elevador até ao rés do chão, tenho um pensamento impossível: Nós vamos ficar bem. Vamos sobreviver a isto. Estamos prestes a entrar no inimaginável, mas também vamos ultrapassá-lo. O pensamento dura segundos; é como um peixe num rio turvo. Mas agarro-me a ele: aquele beijo e aquele sorriso e aquele «amo-te» espontâneo salvaram-me.

*

Ao ver aquele sorriso pela primeira vez, oito anos antes, sentira um laivo de algo: algo na sua franqueza e generosidade, na sua claridade, como se o mundo fosse uma estrada rural que precisasse de iluminação.