Como ser uma esponja… a propósito da resiliência

Neste momento de crise em que todos vivemos, muitas pessoas permanecem em casa num verdadeiro exercício de responsabilidade individual e colectiva tentando, cada um à sua maneira, encontrar a melhor forma de sobreviver. Paira por cima das nossas cabeças a ameaça de um inimigo invisível, terrível e todo poderoso, de fazer inveja ao pior arqui-inimigo dos nossos super-heróis favoritos.

A conciliação entre a esfera profissional e familiar é um desafio do tamanho do mundo e gerir os filhos e os mais velhos também não tem sido fácil. Se os mais pequenos manifestam já claros sinais de aborrecimento e frustração, com birras e gritos à mistura, os mais velhos revelam-se uma autêntica dor de cabeça, determinados em desafiar as regras e em fazerem aquilo que lhes der na real gana, ou não fossem eles os mais velhos que já passaram por tudo nesta vida.

Ao mesmo tempo, estamos longe de quem mais gostamos, sem um beijo ou um abraço, toques que é preciso perder para lhes dar o valor merecido. É assim com a maior parte das coisas e das pessoas na nossa vida. Só quando as perdemos as sabemos valorizar. Vivemos, assim, um tempo de incerteza e de mudança que exige, necessariamente, uma capacidade de adaptação e de reajustamento extraordinária. Procuram-se novas soluções para novos problemas.

Passaram-se cerca de duas semanas. Já arrumámos a casa e fizemos os bolos todos, revolvemos fotografias antigas e brincámos aos professores. Os nossos cães e gatos andam estafados de tanto passeio e até os mais sedentários correm agora pelas ruas em buscar de ar fresco e alguma sensação de liberdade. Durante algum tempo, estas actividades mantêm-nos focados e activos, com a esperança de um amanhã diferente.

Mas o tempo está a passar. Um dia atrás do outro. Parece agora que os dias têm as 89 horas que outrora desejámos. E sem sabermos quanto tempo mais isto poderá durar, esvaziados de qualquer sensação de controlo e previsibilidade, desaparece também a vontade em cozinhar ou arrumar as gavetas, acabando por cair-se, muitas vezes, num estado de inércia e adiamento sucessivo. Deixo para amanhã… afinal de contas, não é o dia de amanhã igualzinho ao dia de hoje?

Se se revê neste estado, passa os dias colado ao sofá e quando olha para os miúdos só pensa em esganá-los, então está perante um sinal de alerta importante. É como se se acendesse uma luz vermelha que significa PERIGO!

Face a uma situação nova e ameaçadora, é natural atravessarmos diversas fases que envolvem diferentes emoções e comportamentos. Pode surgir um padrão inicial de resposta conhecido como reacção aguda de stress, que se caracteriza por um conjunto vasto de emoções, cognições, comportamentos e também reacções físicas. Apesar destas reacções serem, inicialmente, consideradas normais e adaptativas, podem evoluir para psicopatologia, o que varia muito de pessoa para pessoa, em função de factores individuais, familiares e sociais. E em função também da sua resiliência perante a adversidade.

O conceito de resiliência é importante na medida em que nos ajuda a perceber como podemos ficar alterados com esta vivência e, ainda assim, voltarmos aos nossos padrões de funcionamento anteriores. Pense, por exemplo, numa esponja. Se a apertar, ela fica seguramente deformada, mas ao largá-la, esta volta lentamente à sua forma original. Ser resiliente é isto. É ser capaz de processar e dar algum sentido ao que se viveu, activando todos os recursos para lidar de forma eficaz com uma situação de crise.

Não existe uma receita mágica para ser mais resiliente. No entanto, há diversos aspectos que se revelam muito importantes.

  • Aceite aquilo que se passa. Não se culpe nem ande à procura de bodes expiatórios.

  • Active, mais do que nunca, a sua rede de suporte social. Lembra-se daquele telefonema que anda a adiar há meses? É agora o momento de o fazer!

  • Confie nas suas capacidades. Olhe-se ao espelho e repita comigo: “eu sou capaz de lidar com isto”. “Eu acredito em mim”. “Eu não estou sozinho”.

  • Diga para si mesmo o que está a sentir. E se as emoções se tornarem muito intensas, encontre algumas formas de as controlar. Relaxe, conte até 100 ou até 1000 e tente pensar de uma forma mais positiva.

  • Olhe para o futuro com optimismo.

Foque-se nestas competências e sentir-se-á como uma esponja que, por mais amolgada que agora seja, certamente voltará à sua forma original.