Como “sobreviver” às alergias da primavera

Alergias de primavera

O número de alergias tem vindo a aumentar e a primavera é uma das épocas do ano com mais crises. Saiba como prevenir.

Texto de Alexandra Pedro | Fotografia iStock

«Em 1980, cerca de dez por cento da população sofria de alergias, em 1999 eram trinta por cento e nos últimos vinte anos o número de pessoas alérgicas duplicou.» Quem o diz é Pedro Lopes da Mata, diretor do Instituto Clínico de Alergologia de Lisboa, que indica que a previsão é que em 2050 cerca de cinquenta por cento da população mundial será alérgica «nos países industrializados».

De acordo com a Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC), o aumento «das doenças alérgicas, nomeadamente na população ocidental, com um nível socioeconómico desenvolvido, não está ainda esclarecido mas vários dados parecem apontar para o ambiente e para o estilo de vida» dos ocidentais.

Um plano terapêutico individualizado «permite ao doente alérgico passar praticamente incólume por uma estação difícil do ponto de vista alergológico».

A primavera é a altura do ano em que se manifestam mais crises alérgicas. António Lorena Jordão, especialista em imunoalergologia, crê que a melhor forma de prevenir estas alergias passa por uma «avaliação regular de um alergologista de forma a obter um diagnóstico seguro». Um plano terapêutico individualizado «permite ao doente alérgico passar praticamente incólume por uma estação difícil do ponto de vista alergológico».

Comichão nos olhos, nariz e garganta irritada, espirros e tosse são algumas formas de manifestação destas alergias. O especialista explica que estas reações dependem do órgão que é «atacado».

A predominância de reações alérgicas pode surgir em qualquer idade e não há registo de grandes diferenças em relação ao género.

«As alergias determinam a libertação de certos mediadores químicos que são responsáveis pelos sinais e sintomas da reação alérgica. Esses sinais e sintomas dependem, portanto, do órgão-alvo em que esses mediadores são libertados.»

«Se for no nariz haverá espirros frequentes, obstrução e corrimento nasal (normalmente transparente). Se ocorrer nos brônquios, manifesta-se através de tosse irritativa, pieira [ruído idêntico a um assobio] e falta de ar – sendo facilmente identificada como asma brônquica. Se a libertação dos mediadores ocorrer na pele, existem reações cutâneas com eritema e prurido intenso. Neste caso constitui-se aquilo que se chama de urticária aguda», acrescenta o imunoalergologista.

As probabilidades de contrair qualquer forma de doença alérgica variam entre cinco e quinze por cento quando nenhum dos progenitores é alérgico.

A predominância de reações alérgicas pode surgir em qualquer idade e não há registo de grandes diferenças em relação ao género. No entanto, explica Pedro Lopes da Mata, «na idade adulta, as mulheres apresentam maior incidência e formas mais graves de alergias, que estará em provável relação com as hormonas sexuais – julgando-se que as hormonas masculinas têm um caráter protetor».

O que torna algumas pessoas mais vulneráveis às alergias?

Existem duas condicionantes fundamentais, segundo o especialista: ter predisposição genética e ser exposto a um alergénio. «A predisposição genética está relacionada com os antecedentes familiares, sendo um fator de risco para desenvolver uma alergia e implicando uma condição crónica.»

«As probabilidades de contrair qualquer forma de doença alérgica variam entre cinco e quinze por cento quando nenhum dos progenitores é alérgico. E sobe para cinquenta a setenta por cento quando ambos sofrem da mesma forma de alergia», frisa o especialista.

As alergias são muito incapacitantes e limitam as atividades diárias, especialmente quando falamos das que têm maior grau de sensibilidade e quando existe maior exposição ao alergénio

António Lorena Jordão acrescenta que os fatores ambientais, como a poluição ou o fumo do tabaco, podem também levar ao desenvolvimento de nova alergia, lembrando que «a alergia pressupõe sempre uma exposição prévia ao alergénio em questão».

A qualidade de vida é afetada pelas alergias?

«De uma maneira geral, as alergias são muito incapacitantes e limitam as atividades diárias, especialmente quando falamos das que têm maior grau de sensibilidade e quando existe maior exposição ao alergénio», indica Lorena Jordão.

Incapacidades também defendidas por Lopes da Mata que dá o exemplo da rinite e da asma como condicionantes da qualidade de vida dos doentes. «Se tem falta de ar, as consequências vão depender da gravidade dessa eventual asma, mas deve ter sempre presente que, se não for tratada, provavelmente irá agravar-se. Outro exemplo: a rinite com maior obstrução nasal pode levar a alterações importantes na qualidade do sono, com consequências no seu estado ao longo do dia (cansaço e sonolência)», diz.

Para “sobreviver” às alergias da primavera, causadas sobretudo pelos pólenes que andam no ar, Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca (Amadora-Sintra) aconselha:

  • Mantenha as janelas e portas de casa fechadas, principalmente nos dias em que a concentração de pólenes é mais elevada. Prefira persianas em vez de cortinados.
  • Para arejar as divisões, pode utilizar o ar condicionado, mas certifique-se que este tem o filtro adequado e que é limpo periodicamente.
  • Se vai viajar de automóvel mantenha os vidros do carro fechados. Os motociclistas devem usar capacete integral.
  • Mantenha a casa limpa, para evitar a acumulação de pó, que agrava os sintomas das alergias, mas também do “pó dos pinheiros” tão típico nesta altura e que torna todas as superfícies verdes.
  • Elimine da casa tapetes e móveis com tecido.
  • Os ácaros não conseguem sobreviver a temperaturas superiores a 60º, pelo que deve considerar a lavagem da roupa a temperaturas superiores.
  • Se tiver plantas no interior de casa, deve cobrir a terra dos vasos com gravilha, para evitar a formação de bolores que podem desencadear uma crise alérgica.
  • Quanto mais limpo o ambiente estiver, mais fácil será controlar as alergias, evitando o agravamento dos sintomas.
  • Consumaa alimentos ricos em vitamina C (o ananás é uma das melhores fontes de bromelina, uma enzima que alivia a congestão nasal e a irritação) e ácido fólico (leguminosas e os produtos hortícolas verdes escuros, como os brócolos, agrião ou espinafres), que reduzem a inflamação associada às reações alérgicas.
  • Quando chegar a casa, limpe bem os pés e mude de roupa. Passe uma escova pelo vestuário para evitar espalhar pólenes e pó por toda a casa.
  • O banho à noite elimina o pó e o pólen, evitando a sua passagem para os lençóis da cama. No banho, utilize sempre sabonetes e champôs neutros e suaves e não esfregue demasiado o corpo com produtos abrasivos porque pode eliminar a camada de células que protegem a pele.
  • Se é fumador, saiba que o fumo do tabaco agrava os sintomas das alergias, principalmente os relacionados com o sistema respiratório.
  • Se tem por hábito verificar o estado do tempo para o dia seguinte, veja também o boletim polínico da região para saber qual o nível de concentração dos pólenes.
  • Nos dias em que esses índices estão mais elevados, previne-se com a medicação adequada e tente passar o mínimo tempo possível em espaços verdes.
  • Nesta altura do ano, não se esqueça dos óculos de sol, um bom aliado para quem sofre de alergias, pois protege os olhos dos irritantes pólenes.
  • Os anti-histamínicos são a medicação mais receitada a quem sofre de alergias primaveris. Estes medicamentos são conhecidos por provocar sonolência e diminuição da atenção, por isso, opte por um que não tenha estes efeitos secundários ou então escolha a hora de se deitar para o tomar. Existe ainda a opção da vacina antialérgica para tomar antes do início da estação. Em ambos os casos, consulte o seu médico antes de qualquer administração.