Como vencer a luta contra o medo?

Temos medo de ser contaminados pelo novo vírus ou de contaminar alguém? De perder pessoas que são importantes para nós? De perder o emprego? É natural que sim. É expectável. E ainda bem que temos estes medos, desde que estes nos levem a adoptar comportamentos ajustados.

O medo é uma emoção básica que tem, antes de mais, uma função protectora, na medida em que nos ajuda a evitar eventuais situações que poderiam colocar em risco a nossa integridade e, no limite, a nossa sobrevivência. No entanto, tal como todas as outras emoções desagradáveis, quando experienciada de uma forma muito intensa ou crónica poderá ter um impacto negativo no nosso bem-estar.

Nas crianças, há medos que são considerados normativos e que são muito frequentes em determinadas idades. As crianças mais novas sentem medo de barulhos mais intensos, pessoas estranhas ou seres que fazem parte do mundo da fantasia, como as bruxas ou os monstros. Também o medo do escuro é muito frequente, tal como o medo de ladrões ou de situações que possam colocar em perigo o próprio ou as pessoas de quem mais gostam. Com a idade, surgem também medos mais relacionados com o desempenho escolar e social.

Também nós, adultos, sentimos medo. No entanto, o medo não deve preocupar-nos se for de baixa duração e intensidade e não condicionar o nosso funcionamento. Porém, o medo pode subir de intensidade e tornar-se desproporcionado em relação às características e exigências da situação, conduzindo a comportamentos desajustados.

Ora, vivemos actualmente uma fase de desconfinamento progressivo, em que é expectável a activação de diversas emoções, entre elas o medo. Estamos perante uma ameaça real face à qual temos de nos proteger. Temos de aprender a viver com o medo, controlando-o e não permitindo que seja ele a controlar-nos.

Que estratégias devemos usar para que o nosso medo ajude a manter-nos protegidos? Como evitar que este medo se torne numa perturbação com impacto negativo no nosso funcionamento?

Aprender a controlar o medo é um processo gradual e não algo que se consiga de uma forma rápida e imediata. Com as crianças, é importante ajudá-las a externalizar o seu medo, ou seja, a desmontar e contrariar a ideia de que são medrosas e, ao invés disso, ajudá-las a pensar que existe um medo (algo externo) que quer apoderar-se delas. Importa depois conhecer esse medo, porque quanto mais conhecermos o “inimigo”, melhor poderemos depois combatê-lo. Assim, as crianças devem ser encorajadas a falar sobre os seus medos, a desenhá-los ou a modelá-los em plasticina. Depois, tentarem perceber o que diz o medo, saber que outras emoções este medo faz sentir e, ainda, que comportamentos leva a criança a adoptar. Conhecido o medo, é hora de lutar contra ele, criando uma equipa de aliados (pais, irmãos, amigos, professores) que se juntam nesta aventura. E quais os desafios desta verdadeira equipa anti-medos? Ajudar as crianças a desobedecer ao medo (isso mesmo, fazer o contrário do que o medo diz), aprender a relaxar (muito importante para ajudar a regular a ansiedade) e a pensar de uma forma mais positiva e optimista.

Estas estratégias são também úteis para nós, adultos, ainda que operacionalizadas de outra forma. Não desenhamos os nossos medos, mas podemos aprender a disputar os pensamentos negativos que, tantas vezes, assumem proporções catastróficas, acabando por bloquear-nos de alguma forma. Tentar encontrar formas alternativas, mais positivas, de olhar para a mesma situação ao mesmo tempo que devemos, também, aprender a relaxar e a controlar o nível de ansiedade.

Temos medo de ser contaminados pelo novo vírus ou de contaminar alguém? De perder pessoas que são importantes para nós? De perder o emprego? É natural que sim. É expectável. E ainda bem que temos estes medos, desde que estes nos levem a adoptar comportamentos ajustados.

No meu canal de Youtube falo sobre este tema, com vídeos dirigidos a crianças e jovens, às famílias e aos profissionais. Espero por todos!