Vale a pena ensinar as minhas filhas a chocarem-se com Donald Trump?

Queridas filhas,

Na manhã do dia em que eu fiz 42 anos, as nuvens estavam pintadas da cor do chumbo, a água caía pesada de um céu carregado e o vosso pai lamentou para dentro o azar danado que era não ter encontrado lugar para estacionar à porta de casa na noite anterior. E os cem ou duzentos metros que teríamos de andar até ao carro quando vos levasse à escola, o que iria resultar numa molha valente para mim e para vocês, não havia cá chapéu-de-chuva que nos valesse. Lamentei também o frio que estava e o sol que não devia aparecer até à noite.

Na manhã do dia em que eu fiz 42 anos, vocês ofereceram-me desenhos. O teu, Carolina, tem traços direitinhos de muitas cores ao longo da folha, que depois dobram para aterrar numa coisa qualquer amarela que eu não sei o que é mas ainda vou descobrir. Há riscos vermelhos, verdes, castanhos, azuis, cor de laranja, amarelos. E há uma figura com braços grandes e uma cabeça ainda maior e um sorriso que atravessa a cara, que tu dizes que és tu a rir para o pai. O teu, Madalena, tem uma cara grande castanha com uma perna a sair da cabeça e outra na direção do queixo, atravessadas por dois braços. És tu, eu sei. Os vossos autorretratos estão perfeitos. Por mim iam já já para a parede do MoMA.

Na manhã do dia em que eu fiz 42 anos, peguei no telemóvel, como habitualmente, para ver as notícias principais da noite anterior e fiquei a saber que o presidente norte-americano tinha despedido a procuradora-geral interina por esta ter dado indicações aos advogados do departamento de Justiça para não defenderem a ordem executiva que ele tinha emitido, que proibia a entrada de viajantes oriundos de sete países muçulmanos. Estou a usar linguagem muito complicada?

Eu traduzo. Na manhã do dia em que eu fiz 42 anos, um senhor chamado Donald Trump (sim, Donald como o pato), que ganhou eleições (um dia explico-vos o que são eleições) num país muito grande e poderoso despediu uma senhora que não concordava com ele. Ele proibiu pessoas – como eu ou a mãe ou vocês as duas – de entrar no país dele, só porque vinham de um de sete países onde ele acha que as pessoas são todas más, mas não são. A senhora disse aos amigos e a quem trabalhava com ela que achava que ele não devia fazer isso, porque há muitas pessoas boas nesses países e há sobretudo muitas que precisam de ajuda porque estão a fugir dos maus. Mais: ela achava que deviam é ser ajudadas – porque é isso que diz a lei lá naquele país, que se chama Estados Unidos da América. Porque muitas dessas pessoas fugiam de sítios onde não há escolas nem professores nem médicos nem parques para brincar, onde há bombas a cair do céu, onde as crianças passam frio e os pais das crianças são perseguidos se não concordarem com as pessoas que têm armas e mandam mais.

Na manhã do dia em que eu fiz 42 anos, vocês chegaram um pouco molhadas à escola segura onde não há bombas. Chegámos bem ao carro, mesmo estando longe da porta da nossa casa, mas ninguém ficou cansado. Vocês tinham um pouco de frio, mas apertei-vos bem o fecho dos casacos quentes. E ainda vos descalcei as galochas e calcei-vos uns sapatos confortáveis até à hora em que vos fui buscar.

Na manhã do dia em que eu fiz 42 anos, depois de vos deixar na escola segura, debaixo de um chapéu-de-chuva que é um luxo para muita gente que vem daqueles sete países, dei por mim a pensar que não valia a pena lamentar o céu carregado ou o frio ou a distância para o carro ou a falta de sol. Vocês estavam na escola, eu estava vivo e seguro e a celebrar um aniversário, a vossa mãe e a nossa família estavam bem. O resto importava pouco.

Eu hoje faço 42 anos e vocês só lerão isto dentro de uns anos. Não só porque ainda precisam de aprender a ler, mas porque precisam de aprender a interpretar. E precisam de experiência para aprender a atribuir valor afetivo ao que o vosso velho pai queria dizer quando escreveu isto. Nesse dia, e se tudo correr bem com a educação que eu e a vossa mãe gostaríamos de ter oportunidade de vos dar, vocês já saberão dar valor ao que é ter papel e canetas para fazer desenhos. Ao que é ter variedade de cores para fazer bonecos coloridos. Ao que é ter casacos quentes que protegem do frio e galochas que não deixam a água molhar-vos os pés no inverno – e ainda ter outros sapatos mais confortáveis para mudar. Nesse dia, vocês já saberão que andar cem ou duzentos metros debaixo de um chapéu-de-chuva até ao carro – e ter um carro, ou mesmo um chapéu-de-chuva – é um luxo muito diferente da necessidade que é caminhar cem ou duzentos quilómetros debaixo de chuva para fugir de sítios onde não há marcadores, sapatos ou casacos quentes. Nem escolas seguras.

No dia em que vocês fizerem 42 anos (antes disso, até), espero que consigam ter a capacidade de se chocar porque alguém com poder resolve fechar a porta do seu país a quem foge de sítios onde não há marcadores, nem papel, nem sapatos para mudar. Nem escolas seguras. Se tudo correr bem, não precisamos de vos ensinar a ficarem chocadas com notícias de fronteiras fechadas ou felizes com decisões de tribunal que anulam ordens dessas. Vocês aprenderão a distinguir por vocês.

 

[Editado. Versão original publicada na edição em papel da Notícias Magazine de 5 de fevereiro de 2017]