Condução: maioria ainda acha que mandar mensagens ao volante não é perigoso

Apesar das provas em contrário, condutores acreditam não haver risco quando dividem a atenção entre o telemóvel e o volante. Toda a gente faz o mesmo na condução, justificam. Pois, mas ninguém devia.

Texto de Ana Pago | Fotografia da Shutterstock

Já todos passámos pelo mesmo: carros a parar e a arrancar no trânsito, «cuidado com o da frente, ou está bêbedo ou a dormir». E de repente ultrapassamo-lo e percebemos que não, afinal é mesmo a pessoa que vai a mandar mensagens ao volante. Pior: apesar das evidências em contrário, esta é uma prática que a maioria dos condutores ainda não acredita ser perigosa, revela agora um estudo da Universidade de Tecnologia de Queensland em Brisbane, Austrália.

No geral, as pessoas tendem a julgar-se boas condutoras e capazes de gerir o perigo.

«Os resultados indicam que as mulheres são assíduas a atender chamadas e enviar mensagens, têm atitudes menos favoráveis no que diz respeito à segurança e são altamente desinibidas a embarcar em multitarefas ao telemóvel», concluíram os investigadores, após acompanharem 447 condutores na Austrália – 296 dos quais condutoras – para perceberem como a distração interfere com o risco de acidentes em múltiplos cenários, do tráfego em autoestrada à entrada na garagem.

«No geral, as pessoas tendem a julgar-se boas condutoras e capazes de gerir essa ameaça, além de haver uma tal pressão para estarem sempre contactáveis que nem a deslocação pode ser vista como tempo morto», explica Daniel Cardoso, professor e investigador na área da cultura contemporânea e novas tecnologias. Mais do que negarem o perigo, diz, é como se acreditassem ser competentes o suficiente para o iludirem.

Falar ao telemóvel pode quadriplicar a probabilidade de se ter um acidente que termine no hospital.

A psicóloga Filipa Jardim da Silva concorda com esta leitura de pressões sociais e autoperceção, até porque achamos ser sempre a exceção à regra: «Provavelmente, a primeira vez que respondemos a uma mensagem ou e-mail urgente ao volante fazemo-lo com precaução, mas após umas quantas repetições do mesmo comportamento, sem consequências negativas, cremos que se algo imprevisível surgir na estrada iremos responder a tempo.» Não é verdade.

Um estudo promovido pela Insurance Institute of Highway Safety (uma organização independente norte-americana voltada para a educação de comportamentos na estrada) já tinha constatado que falar ao telemóvel pode quadriplicar a probabilidade de ter um acidente que termine no hospital. Em Portugal, a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSA) considera também a prática responsável pelo aumento de acidentes com vítimas desde 2012.

Continua a ser dado mais destaque ao excesso de velocidade e ao consumo de álcool, como se uso do telemóvel fosse menos arriscado.

«Continua a ser dado mais destaque ao excesso de velocidade e ao consumo de álcool ao volante, como se uso do telemóvel fosse menos delinquente, mas é urgente alinharmos as nossas ideias com os factos incontestáveis», sublinha Filipa Jardim da Silva.

Os números, demolidores, justificam-no: dirigir a falar ao telemóvel torna o tempo de reação 50 por cento mais arrastado do que o normal e 30 por cento mais lento do que se o condutor tivesse uma taxa de álcool no sangue de 0,8 g/l (a máxima com que se pode circular é de 0,5 g/l).

Mandar mensagens multiplica o risco de acidentes rodoviários por seis.

Os próprios investigadores da Universidade de Tecnologia de Queensland acrescentam ainda que se falar ao telemóvel ao volante duplica o risco de acidentes rodoviários, mandar mensagens multiplica-o por seis. Uma enormidade que não pode deixar dúvidas quanto ao perigo, embora 68 por cento dos inquiridos revelem não estar convencidos desta relação de causa e efeito.

«Vivemos em multitasking e nem notamos que quanto mais mergulhamos neste modo de atenção dividida mais a qualidade do desempenho é afetada», refere a psicóloga clínica, reconhecendo que para muitos começa a ser mais estranho não viver através de um ecrã do que o oposto.

«Estudos sugerem que, entre pousarmos o telemóvel e retomarmos a atenção na condução, o cérebro pode levar até 30 segundos a processar o que tem à frente a nível de tráfego», diz. Resta esperar que os condutores só mandem mensagens quando pararem nos semáforos.