“Confundimos a fama de líderes pavões com a sua eficácia”

Arménio Rego, professor da Católica Porto Business School, lança esta segunda feira o livro "Liderança - Humildade e Soberba".

Característica pouco valorizada, a humildade pode ser, de acordo com Arménio Rego, professor catedrático na Católica Porto Business School, o ingrediente chave dos grandes líderes. É sobre isso que escreve no seu último livro Liderança: Humildade e Soberba [Edições Sílabo], lançado hoje. E foi sobre isso que conversámos com ele.

Entrevista de Catarina Pires | Fotografia de Maria João Gala/Global Imagens

Há anos que estuda a humildade como traço fundamental na liderança. É uma competência tão desvalorizada, e incompreendida, porquê?

As razões são múltiplas. É confundida com fraca autoestima e escassa autoconfiança. É considerada uma fraqueza que um líder não deve mostrar. É tida como qualidade com cariz religioso ou filosófico sem relevância para o mundo duro e racional da gestão e da liderança. Há uma razão adicional: confunde-se boa liderança com fama mediática. Como os líderes humildes se autopromovem menos, conhecemos mais líderes “famosos” nada humildes do que líderes “eficazes” humildes e discretos. Dito isto: alguns líderes humildes são, de facto, incompetentes e fracos. Mas esta ineficácia não provém da humildade. Antes resulta da carência de outras qualidades como a determinação e a coragem.

E em que aspetos se revela importante num líder e na organização que lidera?

A humildade (do latim “humus”) é, simplesmente, a capacidade de ter os pés assentes na terra. Torna o líder mais capaz de ouvir vozes críticas, escutar, assumir erros e aprender com os mesmos. Leva-o a reconhecer as capacidades e os contributos dos liderados e a partilhar honras. Encoraja a autorreflexão e o autoconhecimento. Previne os excessos e o desenvolvimento da soberba. Naturalmente, a humildade é condição necessária mas não suficiente. Requer a companhia de outras qualidades: autoconfiança, determinação, coragem e, obviamente, competência e muito trabalho. Estes ingredientes ajudam a explicar, por exemplo, que Portugal se tenha sagrado campeão mundial de hóquei em patins.

A investigação sugere que os melhores líderes são dotados de uma mistura paradoxal de humildade e enorme força de vontade.

Como é que um líder expressa verdadeiramente a sua humildade? O que é humildade e o que não é?

Um líder expressa humildade de três modos: tem noção apurada das suas próprias forças e fraquezas, reconhece as qualidades e os contributos dos outros, e está disposto a aprender. A humildade não deve ser confundida com fraca autoestima nem com a tendência para se deixar humilhar.

A humildade deve ser exercida com orgulho? Como?

Se “orgulho” significar presunção, a resposta é não. Se significar autoconfiança, determinação e autorrespeito, então a resposta é sim. A investigação sugere que os melhores líderes são dotados de uma mistura paradoxal de humildade e enorme força de vontade. São simultaneamente tímidos e “ferozes”. São reservados mas também destemidos.

Olhando para acontecimentos recentes, políticos, empresariais, que exemplos poderia dar das vantagens da humildade e das “catástrofes” que a soberba ou arrogância podem provocar?

Há quem considere que Steve Jobs foi bem-sucedido porque, apesar do seu lado narcisista e abrasivo, desenvolveu humildade após ter sido “escorraçado” da “sua” Apple. Os exemplos de como a soberba é perigosa são abundantes. Veja-se a queda de Carlos Ghosn, o outrora ídolo da Nissan. Preste-se atenção ao que ocorreu a Bruno de Carvalho. Atente-se nas raízes do dieselgate da Volkswagen. Margaret Thatcher também “caiu” devido à soberba. Numerosos escândalos empresariais, na banca mas não só, resultaram consideravelmente da soberba das suas lideranças. O brilho que a Nokia teve há anos também se perdeu devido, em parte, à arrogância gerada pelo sucesso estrondoso que chegou a ter.

Uma boa maneira de saber se uma pessoa é humilde é perguntar-lhe se é. Se ela responder que sim, provavelmente não é.

A humildade é um antídoto para a soberba ou o poder pode subir à cabeça até de alguém que parecia cultivar a humildade?

Sempre que um líder exerce o poder durante demasiado tempo, se rodeia (ou se deixa rodear) de pessoas que lhe dizem o que quer ouvir, e não está inserido num quadro de freios e contrapesos, o risco de desenvolver a soberba é grande. O risco é acrescido quando se tem grande sucesso. O caso Ghosn é elucidativo. O que ocorreu como o BES é, em parte, fruto da mesma maleita. O perigo existe mesmo entre os que dele têm consciência. Richard Fuld, que conduziu o Lehman Brothers ao precipício e era denominado o “gorila de Wall Street”, afirmou à revista Euromagazine anos antes da queda: “Preocupa-me que possamos ficar arrogantes. Quando nos tornamos arrogantes, perdemos o nosso caminho e começamos a cometer erros”.

Um condimento secreto que desaparece quando é alardeado. O que quer dizer com isto? A humildade não se pode “fingir”?

Uma boa maneira de saber se uma pessoa é humilde é perguntar-lhe se é. Se ela responder que sim, provavelmente não é. Quer um exemplo? Trump anunciou num tweet em 2013: “O novo Papa é um homem humilde, muito parecido comigo, o que provavelmente explica porque gosto tanto dele”.

Os que precisariam de aprender [a ser humildes] podem ser os menos aptos a fazê-lo. É, aí, precisamente que reside o nó górdio da soberba: por definição, quem a possui não compreende que a possui e que precisa de ser mais humilde.

É uma característica ou pode ser “aprendida”. Não tem que ser honesta para “surtir efeito”? Os que precisam de aprender não serão os que estão menos aptos a fazê-lo?

A humildade está associada a características de personalidade duradouras e à educação recebida em casa. Mas também pode ser aprendida. Requer esforços continuados. Exige atenção permanente. A consciencialização de que somos mortais e que devemos gratidão aos outros ajuda a começar. Mas, por vezes, a humildade apenas se aprende depois de se “beber” uma experiência amarga como uma pena de prisão. Naturalmente, a humildade “falsa” não resulta. E concordo consigo: os que precisariam de aprender podem ser os menos aptos a fazê-lo. É, aí, precisamente que reside o nó górdio da soberba: por definição, quem a possui não compreende que a possui e que precisa de ser mais humilde.

Ser demasiado humilde não pode ser arriscado, no sentido em que pode transmitir uma imagem de fraqueza ou falta de ambição? Onde fica o equilíbrio?

Sim. Ser demasiado humilde pode ser problemático. O líder excessivamente humilde pode ser tão discreto e “invisível” que os seus méritos e realizações são subestimados. De um líder espera-se alguma ambição e capacidade para voar alto – embora não tão alto que o conduza à destruição. Portanto, a virtude está no meio. Dito isto, acrescentaria: se entendermos a humildade como capacidade de ter os pés assentes na terra, não há que temer os “excessos” de humildade. Ser humilde não significa ficar escondido, quedo e calado. O que importa é que, além de humilde, o líder seja perseverante, determinado, curioso, resiliente e proativo.

Ambição sem humildade conduz à megalomania e à incapacidade para arrepiar caminho e aprender com os erros. Mas humildade sem ambição também pode conduzir à mediocridade.

O contexto não impede muitas vezes a humildade. Ou que quem tem este traço de carácter chegue a lugares de poder?

Sim: em alguns contextos, associar “humildade” ao líder é problemático. As pessoas entendem que um líder forte não é humilde. Qual a solução? Ser humilde … e forte. Mas a sua questão remete para outro grande desafio paradoxal. Os carreiristas e oportunistas implacáveis são mais focados em atingir o topo. Não olham a meios. Prosperam em ambientes competitivos. De modo diferente, as pessoas decentes e humildes, que poderiam ser melhores líderes, não estão dispostas a adotar essas estratégias. O resultado é algo desconfortável: as pessoas que tudo fazem para liderar são, muitas vezes, aquelas a quem gostaríamos menos de atribuir essa responsabilidade. A solução consiste em sermos mais sábios na escolha das pessoas a quem damos o leme. Nem tudo o que luz é oiro. Precisamos de procurar as pérolas escondidas.

Fala em líderes “humbiciosos”. Como é que se coaduna humildade com ambição?

Como antes referi, alguns estudos sugerem que os melhores líderes combinam uma forte dose de humildade com uma força de vontade indomável. Uma investigação por nós realizada, com dados obtidos em Portugal e nos EUA, sugeriu precisamente isso. Ambição sem humildade conduz à megalomania e à incapacidade para arrepiar caminho e aprender com os erros. Mas humildade sem ambição também pode conduzir à mediocridade. O impacto positivo de líderes como Mandela e Lincoln, que não foram santos, foi indubitavelmente baseado na garra que revelaram ao longo das suas vidas. Mas esse pendor resoluto foi apoiado em qualidades como a prudência e a humildade.

Se é tão importante, por que não é mais praticada?

Porque há grande incompreensão sobre o que é a humildade. Porque confundimos a fama mediática de líderes pavões com a sua eficácia. Porque desconhecemos os benefícios da humildade. Porque nos é mais fácil atribuir aos líderes grandiosos a raiz de todos os males e a causa de todas as salvações.