Conhece bem o seu marido? Experimente divorciar-se

Podemos culpar quem quisermos. E o que quisermos. A nossa educação. As conversas que não tivemos. Os nossos pais. Os irmãos mais velhos. Os amigos com mais experiência. Até podemos culpar Hollywood, as novelas brasileiras, os filmes a preto e branco dos ciclos de cinema checo e todo o mundo da ficção audiovisual que nos entra em casa – ou que pagamos para ir ver fora. Em última análise, podemos também culpar a namorada que nos deixou quando andávamos no liceu. Ou que reagiu mal quando fomos nós a deixá-la. Podemos procurar os bodes expiatórios que quisermos, mas a verdade, nua e crua, é esta: não sabemos acabar relações. E, quando tomamos consciência disso, quando apanhamos chapadas de realidade e concluímos que somos aselhas e magoamos outras pessoas, não hesitamos em encontrar alguma coisa que boa para culpar. Porque a culpa nunca, em hipótese alguma, pode ser nossa.

Ninguém nos ensinou como fazer isso. Ninguém nos explicou como nos devemos portar, que palavras devemos guardar para nós, que palavras devemos usar apenas em conversas com os amigos, que palavras não podem ser atiradas à cara do outro. Quando chega a hora H, por muito ponderados, inteligentes, emocionalmente resolvidos e equilibrados, se temos de meter os pés pelas mãos, vamos fazê-lo com toda a certeza.  E, pior que isso, vamos infernizar a vida do outro.

O resto, nós até sabemos. Ou, pelo menos, tentamos. Em todas as outras fases de uma relação, queremos ter muito estilo, humor e sentido de oportunidade. Queremos saber exatamente o que fazer e o que dizer. Mas não naqueles momentos finais. Aí podemos ser umas bestas, que isso não faz mal. Quando lhe pedimos o número de telefone, quando a convidamos para sair pela primeira vez, quando ensaiamos o movimento a caminho do primeiro beijo, quando escolhemos o vinho para o primeiro jantar, quando a acompanhamos a casa, quando nos fazemos convidados para passar lá a noite, quando temos as palavras certas para dizer na primeira manhã. Disso tudo nós até percebemos. Uns mais do que os outros, é verdade, mas temos meia dúzia de referências sobre o que queremos para a nossa vida. E para o comportamento cool que queremos ter nesses momentos, quando se trata de iniciar um percurso a dois. Não é que tudo seja encenado, mas boa parte é preparado. Já ensaiámos antes.

O problema vem depois. No extremo oposto deste percurso. Quando tudo chega ao fim. Isso é que ninguém nos ensinou. Como acabar um casamento com nível? Como sair de casa e ir à nossa vida, deixando a outra pessoa com orgulho pelo que estamos a fazer? Como ser um homem com H grande e uma mulher e peras, para sair de uma relação de cabeça erguida? Como é que isso se faz?

E é aí, nesses pequenos grandes momentos que doem à brava, nessas alturas que vamos recordar durante alguns anos, nesses capítulos que queremos sempre evitar – ainda que o alívio seguinte seja grande – que ficamos a saber se conhecemos, ou não, alguém que esteve connosco nos últimos anos. Bem vistas as coisas, só sabemos verdadeiramente como é o outro depois de passarmos por uma separação com ele. Isto parece absurdo? Sim, parece. Mas estranhamente real.

O problema – um dos problemas – é que nunca queremos preparar-nos para aquele momento. Se conseguíssemos, se tivéssemos o sangue-frio para isso, se calhar procurávamos um terapeuta familiar a tempo e horas. Mas habitualmente só sabemos que eles existem quando as coisas estão demasiado perdidas para serem recuperadas. E somos demasiado orgulhosos para reconhecer que eles nos podem dar uma ajuda para sair a bem de uma coisa que não tem de acabar mal. Só tem de acabar. Porque a vida é assim mesmo. Mas não temos de a fazer pior.

[Publicado originalmente na edição de 20 de abril de 2014]