Catarina e Jorge pegaram nos filhos para cumprir um sonho: viajar pelo mundo de barco

Nada parecia faltar a Catarina e a Jorge. A não ser uma grande aventura. Em 2015, pegaram nos três filhos, soltaram amarras e começaram a explorar o mundo a bordo de um catamarã.

Texto de Ana Patrícia Cardoso | Fotografias de Catarina Freitas e Jorge Mendes

Março de 2015. Catarina e Jorge fizeram as malas, pegaram nos três filhos e rumaram às Caraíbas para realizar um sonho antigo – viajar pelo mundo de barco. Para trás ficava uma vida em Macau, pouso da família entre 2011 e 2014. «O ritmo era diferente, a própria cidade é muito acelerada», diz Catarina Freitas a partir do Taiti, onde estão desde junho.

«Mais do que o cansaço do trabalho [ele era consultor, ela engenheira], o mais difícil era a rotina, os dias iguais, uns a seguir aos outros e a vida a passar depressa. De manhã era preciso ter as três crianças prontas para ir para a escola a horas, ir para o trabalho, chegar o final do dia com os banhos, os TPC, o jantar…»

«Ao fim de dois meses, a Lia, na altura com 11 anos, foi a primeira a querer voltar, depois da sensação de férias grandes. Mas com o passar do tempo foi fazendo novas amizades e gradualmente converteu-se a este estilo de vida.»

Para conciliar a agenda, o casal vivia em programação constante e divisão de tempo e tarefas. Com as crianças a crescer e a estabilidade financeira assegurada, chegou a altura de soltar as amarras. Gonçalo, o mais velho, ia entrar na adolescência e era agora ou o filho já não poderia acompanhá-los.

Estavam habituados às férias no barco do irmão de Jorge, na ria Formosa, mas encarar uma viagem sem data de retorno era um desafio. «Ao fim de dois meses, a Lia, na altura com 11 anos, foi a primeira a querer voltar, depois da sensação de férias grandes. Mas com o passar do tempo foi fazendo novas amizades e gradualmente converteu-se a este estilo de vida. O Gonçalo, agora com 16 anos, ao fim de seis meses também teve uma fase complicada. O Rodrigo, de 11, apesar das saudades, diz que vai viver num barco para sempre», diz a almirante Catarina. Três anos depois, os pais notam diferenças nas personalidades dos três.

«Tornaram-se mais sociáveis, descomplicados e abertos. Têm curiosidade por culturas diferentes e o à-vontade com o mar é incrível. » Apesar de estarem em ilhas remotas do outro lado do mundo, mantêm contacto regular com a família e amigos, em grande parte graças às redes sociais.

«Como as crianças vão à escola», é a pergunta a que mais lhes fazem. Através da Clonlara, uma escola virtual criada nos EUA, com delegação em Portugal, aderiram ao ensino à distância. «Temos uma tutora responsável pela nossa família que nos ajuda ao longo do ano letivo. Semestralmente são enviados relatórios com as atividades que eles fazem e são atribuídos créditos com base nas horas de trabalho e aproveitamento. A passagem de nível está associada ao número de créditos e, além das disciplinas-base, atividades como mergulho, visitas a património local, caminhadas, conversas sobre a história local, convívio com outras crianças quando é utilizada outra língua que não a materna, observação de documentários, livros de leitura são tidas em conta.»

«Esta coisa de dar a volta ao mundo tem muito que se lhe diga. Mais vale meia volta ao mundo bem dada do que uma volta completa a correr.»

Cada um tem as suas tarefas definidas. Jorge é o comandante do barco, cozinheiro e professor. Catarina gere o orçamento e as compras, é padeira, médica de bordo, professora e responsável pela partilha da viagem nas redes sociais. As crianças estão encarregadas de lavar a loiça, da limpeza do barco e ajudam também na lavandaria. Encontraram o catamarã El Caracol depois de muito tempo de pesquisa. Das Caraíbas, onde compraram o barco, seguiram para a Polinésia Francesa, o primeiro destino que têm explorado com calma. Muita calma.

«Esta coisa de dar a volta ao mundo tem muito que se lhe diga. Mais vale meia volta ao mundo bem dada do que uma volta completa a correr. O nome do nosso barco reflete a nossa maneira de estar. O objetivo é desfrutar desta forma de vida. Gostamos de velejar, mas ainda mais de conhecer pessoas e lugares, experimentar novos alimentos e receitas, mergulhar, surfar, pescar, fotografar, são tantas coisas que para dar uma volta ao mundo parece que uma vida não chega», diz Jorge.

O contacto com culturas distintas tem sido uma das maiores recompensas para toda a família. Nestes três anos têm saltado de ilha em ilha, num dos mais bonitos locais do mundo. «Em muitos sítios, pagar com dinheiro está fora de questão não faz parte dos costumes locais», conta Catarina. «Nos vales mais remotos, encontramos homens enormes, tatuados da cabeça aos pés, com um ar ameaçador, mas depois são de uma simpatia extrema. Têm uma vida muito simples, basicamente vivem do que a natureza lhes dá. Nesses lugares não há estradas nem carros, quando muito trilhos para o cavalo ou uma praia de onde saem as pirogas.»

Estas são as imagens que saíram dos livros de aventura e tornaram-se recordações para a vida. Outras são a travessia de 29 dias em alto mar, entre o Panamá e as ilhas Marquesas, em que os cinco estiveram completamente isolados. Ou o momento em que encontraram um grupo de baleias de bossa nas Turks & Caicos, perto das Bahamas.

«Tinham uma cria mas não estavam nada incomodadas com a nossa presença. Saltámos todos para a água com as máscaras de mergulho. O momento foi inesquecível. Ver os nossos filhos tão pequenos ao lado daqueles colossos é uma imagem que nunca vamos esquecer», diz a mãe almirante.

PREPARAR E PLANEAR [Sugestões de Catarina Freitas]

  • Investigar o destino e verificar a melhor altura para o visitar, de acordo com a meteorologia.
  • Distinguir entre «ruído da internet» e informação fidedigna.
  • Não ter medo do ensino doméstico e pesquisar sobre as vantagens do método.
  • Estudar os cuidados clínicos a ter e as vacinas (e a ajuda médica mais próxima).

Acompanhe a viagem da família em entretantoabordo.com.