Consumo responsável: tanta roupa nova para quê?

Temos mais roupa nas gavetas do que as que conseguimos usar, mas nunca chega. Há sempre novidades a tentar-nos. E assim se alimenta a indústria do vestuário, tão prejudicial para o ambiente como para a carteira. Felizmente, há coisas que podemos fazer para domar este monstro consumista.

Texto de Ana Pago | Fotografias da Shutterstock

Aceitação social. Mostrar que somos resolvidos. São tudo razões que nos levam a comprar muita roupa e Vânia Duarte entende-as a todas: “É um bocadinho como quem come muito, uma felicidade momentânea. E as pessoas estão sedentas de momentos felizes por estarem agarradas a uma vida de ecrã em que os outros viajam, têm empregos incríveis e estão sempre com aquele ar descontraído que lhes falta”, explica a designer digital.

Do que vê, há quem compre para poder estrear roupa nova todas as semanas, porque está na moda e quer a última tendência, por ser complexado e desejar sentir-se mais bonito – não julga ninguém pelas escolhas. A sua é a de evitar o desperdício, pelo que só compra quando realmente precisa. “Em 2017, estive oito meses sem comprar roupa. No ano passado foram 11 meses. Acabei por comprar mesmo no final, por estar com falta de camisolas para o inverno e de um bom casaco”, conta.

Não é que pense que comprar, em si, seja errado. Erro é comprar sem necessidade. “O que eu sinto é que a sociedade nos incute o consumo como receita, do género se tiveres isto serás bem-sucedido”, observa Vânia Duarte.

Num mundo a perder as ligações humanas, fica fácil substituir uma conversa, até um abraço, por uma ida ao shopping. “Óbvio que ninguém tem de ser santo e pode comprar algo de que goste e não precise.” É este consumo impulsivo, sem sentido, que tem de parar.

A maioria dos consumidores nem se dá conta de estar a contribuir para uma das indústrias do mundo mais violentas, tóxicas e poluidoras do mundo.

Sobretudo porque se obtém uma satisfação momentânea do ego e nada mais, sublinha a jornalista freelancer Helena Magalhães, para quem a maioria dos consumidores nem se dá conta de estar a contribuir para uma das indústrias do mundo mais violentas, tóxicas e poluidoras aos níveis humano, social e ambiental. “No meu caso, comprava apenas com a ânsia de ter mais. Como se ao usar uma peça nova também eu me estivesse a reinventar nesse dia”, recorda.

Só quando foi morar sozinha, a fazer contas à vida, ganhou consciência desta sua necessidade quase obsessiva de comprar para responder a uma tendência que nos incentiva a ter cada vez mais, pressionada pelas redes sociais e o fenómeno das influenciadoras.

“O Instagram, então, é uma ode ao consumo por vaidade”, lamenta. Faz-lhe muita confusão ver raparigas a vender roupas em que escrevem “apenas usada para a fotografia”, porque isso significa que só as compraram para tirar a selfie, mostrar aos outros que têm a tendência X ou Y e descartar.

“Vi muitos documentários, entrevistas sobre a indústria da moda, e o meu chip mudou”, admite Helena Magalhães, ciente dos milhões de trabalhadores que passam os dias em caves nas regiões pobres do mundo, crianças incluídas, a costurar para satisfazer o desejo do consumidor de ter roupas novas todas as semanas.

“Posso contar pelos dedos as vezes que entrei numa loja de fast-fashion nos últimos dois anos e o que lá comprei, porque foi mesmo muito pouco.” Sem ser fundamentalista, faz o seu boicote pessoal.

Como se chega ao cúmulo de ver os roupeiros atestados e achar que não temos nada para vestir?

“Se ao invés de ter cinco peças novas por mês uma pessoa levar duas, já está a diminuir o impacto no mundo”, nota a jornalista, que hoje em dia nem isso compra e quando o faz – impossível deixar de consumir de todo – procura sempre lojas com atitude consciente, a par de materiais duráveis. “Tenho camisolas de lã compradas há três invernos num hipermercado que estão como novas, além de eles terem muita coisa 100% algodão que faz diferença no tempo útil da roupa.”

O que nos traz de volta à questão inicial: para quê tantas peças que acabam esquecidas ainda com as etiquetas (na verdade, nem assentavam assim tão bem mas eram baratíssimas)?

Como chegamos ao cúmulo de ver os roupeiros atestados e achar que não temos o que vestir? E como – mais importante – se muda este estado de coisas insustentável para o ambiente e a carteira?

Para a responsável pela Loja Baú em Campo de Ourique, Lisboa, o futuro passa sobretudo por vencer a desconfiança dos clientes em relação à segunda mão – como sucede há anos em cidades como Londres, Tóquio ou Amesterdão – e dar nova vida ao vestuário vintage. Mostrar que o baú de uns poderá ser o nosso roupeiro, e vice-versa, seguindo a máxima da segunda mão de qualidade para minimizar o desperdício têxtil.

Podemos comprar em lojas de segunda mão para minimizar o impacto. Trocar roupa com outras pessoas. Ir ao armário da mãe ver o que lá há.

“O conceito desta loja baseia-se na comercialização de marcas selecionadas a preços muito convidativos, que além disso acompanham as atuais preocupações ambientais”, explica Guilhermina Ruivo.

Segundo ela, a adesão tem aumentado por permitir poupar e evitar que se produza mais e mais roupa, apesar da vergonha inicial em vestir o que era de outros. “A compra desenfreada é a realização de um prazer efémero destinado a preencher vazios, daí as lojas em segunda mão restabelecerem algum equilíbrio”, diz.

Vânia Duarte concorda: podemos comprar em lojas de segunda mão para minimizar o impacto, sim. “Trocar peças com outras pessoas: o que umas não querem é o tesouro de outros. Ir ao armário da mãe ver o que há por lá.”

Também podemos analisar o que temos em casa, à partida, e perceber se aquela compra faz sentido ou não. “Se disponho de peças para vestir todos os dias, nem a mais nem a menos, mas sem repetir nenhuma, então é porque tenho roupa suficiente”, conclui a designer.