Contraceção: as mulheres estão a abandonar a pílula?

Nos anos 1960, a pílula contracetiva deu às mulheres a possibilidade de tomarem o controlo da natalidade nas suas mãos e isso mudou as suas vidas – e o mundo. Hoje, continua a ser o método anticoncecional mais usado, mas, depois de décadas com o número de utilizadoras a aumentar, as percentagens de uso começam agora a descer.

Texto de Sofia Teixeira | Fotografia de iStock

Em Portugal, segundo o 4.º Inquérito Nacional de Saúde (2009), 85,4% da população feminina em idade fértil usava um método de contraceção. Destas, 65,9% elegia a pílula combinada como método para não engravidar, o que refletia um aumento modesto, em relação às 62,3 % a tomava em 1997.

Os dados mais atuais, de um estudo apresentado em 2015, realizado pela Sociedade Portuguesa de Ginecologia e pela Sociedade Portuguesa de Contraceção (que analisou os hábitos contracetivos de quatro mil mulheres do país, com idades entre os 15 e os 49 anos) mostram que 94% das mulheres usam um método contracetivo, mas que a pílula, continuando a ser o método mais usado baixou: o seu uso caiu dos 65,9% em 2005, para 58% em 2015. Uma descida de quase 8 por cento.

A ginecologista-obstetra Sofia Serrano, do blogue Café, Canela & Chocolate e autora do livro Confissões de uma Médica (Marcador, 2016) e O Livro da Mulher (Cultura Editora, 2018), admite que começam a aparecer em consulta mulheres que já tomavam pílula há muitos anos e estão a procurar outras soluções.

Os motivos são muitos. «Porque, por exemplo, têm familiares próximas com cancro da mama e sabem que a toma da pílula combinada aumenta ligeiramente este risco, ou porque têm varizes dos membros inferiores e sentem que a pílula lhes agrava o problema, ou ainda porque têm alguns dos efeitos indesejáveis, como dores de cabeça, náuseas ou menos desejo sexual. Outras, simplesmente porque não querem um método hormonal.»

«A ideia de que qualquer pessoa, por sua iniciativa, pode iniciar a toma da pílula combinada não está correta. É fundamental fazer uma consulta de avaliação», diz a médica Sofia Serrano.

Estas últimas, segundo a médica, optam geralmente pelo dispositivo intra-uterino (DIU) de cobre, que não interfere com a parte hormonal, restabelecendo o ciclo menstrual normal da mulher, mas tendo a contrapartida de aumentar o fluxo menstrual ligeiramente.

Importante é que a escolha do método contracetivo seja partilhada entre a mulher e o seu médico para, em conjunto, poderem chegar à melhor solução. «O médico explica os vários métodos disponíveis, esclarece riscos e benefícios, e a mulher identifica o que pretende», defende a médica. «A ideia de que qualquer pessoa, por sua iniciativa, pode iniciar a toma da pílula combinada não está correta. É fundamental fazer uma consulta de avaliação», explica Sofia Serrano.

Quando a toma da pílula combinada não é aconselhada, é necessário avaliar caso a caso as alternativas: pílula progestativa (sem estrogénios); um método não hormonal, como o DIU; um método definitivo, como a laqueação de trompas; ou o preservativo.

Muitas mulheres estão a abandonar a pílula porque, por alguma razão, não a querem tomar, mas muitas há que têm contraindicações para a toma. O consenso sobre contraceção da Sociedade Portuguesa de Ginecologia (2011) indica uma lista, relativamente extensa, de contraindicações e advertência para o uso de contraceção hormonal combinada: por exemplo, as fumadoras com mais de 35 anos, mulheres com diabetes, obesidade, doenças cardiovasculares, patologia da mama e hipertensão arterial.

Quando a toma da pílula combinada não é aconselhada, é necessário avaliar caso a caso as alternativas. «Pode ser uma pílula progestativa (sem estrogénios); um método não hormonal, como o DIU; um método definitivo, como a laqueação de trompas. Ou simplesmente o uso de preservativo, que é o único método que protege de doenças sexualmente transmissíveis e que tem uma boa taxa de proteção de gravidez se for bem usado.»

A última opção é sempre da mulher ou do casal. Mas é importante que seja uma opção esclarecida porque em relação à pílula ainda há alguns mitos que condicionam a sua utilização.

Sofia Serrano conta que os os mitos mais frequentes são a ideia de que há necessidade de «fazer o descanso – quando a verdade é que não há vantagem em interromper a pílula, porque isto não diminui os baixos riscos associados à sua utilização, não interfere com a fertilidade da mulher e aumenta o risco de uma gravidez indesejada; o mito de que «quem toma a pílula terá maior dificuldade em engravidar» – quando não há nenhum estudo que demonstre a associação da toma da pílula à infertilidade e o famoso «a pílula engorda» – que sendo verdade para algumas pílulas, que aumentam retenção de líquidos, e, desta forma, o peso, não acontece com todas.

Em relação a outra queixa comum, a diminuição do desejo sexual, é meio mito, meio realidade: «É verdade para algumas pílulas, sendo que na maioria dos casos basta trocar por outra pílula, com outros componentes. Mas há situações em que só abandonando este método o desejo sexual retorna ao normal.»

A pílula oral continua a ser o método mais escolhido pelas mulheres, mas não sabemos por quanto tempo. Os novos métodos que surgiram ou se massificaram nos últimos anos estão a ganhar adeptas: o adesivo (semanal) e o anel vaginal (mensal) são usados sobretudo pelas mulheres que querem mudar porque se esquecem da toma diária, o que aumenta o risco de gravidez.

«Nos casos em que há alguma contraindicação para os estrogénios, ou em casos em se pretende uma contraceção de longa duração, o implante é o escolhido, sendo colocado no braço da mulher com uma pequena cirurgia e fazendo o seu efeito durante três anos. Já as mulheres que não pretendem hormonas escolhem cada vez mais os DIU, que são colocados no útero pelo ginecologista durante uma consulta e têm a duração de cinco anos.»

Métodos Contracetivos

  • Diários: Pílula Combinada; Pílula sem estrogénio
  • Semanais: Adesivo Transdérmico Hormonal
  • Mensais: Anel Vaginal
  • Trimestrais: Injeção contracetiva
  • Anuais: Implante Hormonal – até 3 anos; Sistema Intra-Uterino hormonal (SIU) – até 5 anos; Dispositivo Intra-Uterino de cobre (DIU) – até 5 anos
  • Pontuais: Preservativo masculino; Preservativo feminino ; Diafragma + Espermicida; Métodos naturais (temperatura basal, calendário, muco cervical)
  • Definitiva: Laqueação das trompas; Vasectomia
  • De emergência: Pílula de emergência (pílula do dia seguinte)